XXXVII
No último relatório do ministro do Império, dando conta à Assembleia Geral da comissão de que fora encarregado às províncias do Norte o nosso distinto poeta Gonçalves Dias, achamos uma prova do que acabamos de expender: “A desarmonia em que se acham as 97 Antônio Gonçalves Dias (1823-1864), poeta, teatrólogo, advogado e jornalista, foi um grande expoente do romantismo brasileiro. Autor de Primeiros cantos e do célebre poema épico indianista I-Juca Pirama. disposições legislativas de cada província relativas a tão importantíssimo objeto, a deficiência do método no ensino das matérias, a multiplicidade e má escolha de livros para uso das escolas, o programa de estudos nos estabelecimentos literários, a insuficiente inspeção em alguns lugares e a quase nenhuma em outros, e, finalmente, a pouca frequência e assiduidade dos alunos, são outras tantas causas desse estado tão pouco próspero... .......... De tudo isto resulta a necessidade de uma reforma radical na instrução pública, dando-lhe um centro de unidade e de ação que a torne uniforme por toda a parte, e vá gradualmente extirpando os vícios e defeitos que tem até aqui obstado ao seu progresso e desenvolvimento”. Todavia, apesar deste e outros documentos oficiais, apesar do quanto se tem dito a respeito dos obstáculos que retardam os progressos do nosso ensino público, muitas pessoas recreiam-se aplaudindo a admirável rapidez com que marcha a civilização entre nós. – Grande progresso tem feito a educação em nossa terra, dizem os que confundem de ordinário a instrução com a educação, a licença com a civilização! Possuímos na Corte grande número de colégios, donde saem cada ano jovens suficientemente instruídas e falando diversas línguas; vê-se multiplicarem-se os bailes, e uma infinidade de pais conduzirem, sem reserva, a eles suas famílias já sem o ridículo escrúpulo de outrora, que os fazia olhar essas brilhantes reuniões como um escolho onde naufragava a virtude; não há representações de teatro e dança, por mais livres que sejam, onde se não tenha o prazer de contemplar, hoje, o belo sexo tomando parte no interesse dos espetáculos, sempre aplaudidos pelo nosso ilustrado público; a nossa mocidade já não precisa, para distinguir-se no mundo, de moldar suas ações pelas de nossos antepassados, que mais mereceram os respeitos e os encômios de seus contemporâneos. Nós, porém, que não costumamos julgar da educação e dos progressos de qualquer povo pelas numerosas instituições de bailes, nem pelo desprezo da mocidade pelas coisas mais respeitáveis, iremos por diante em nossa ligeira análise, estendendo-a a todo o Brasil, em muitos lugares do qual as gerações se vão ainda sucedendo, sem alteração sensível de progresso.