XXXIX
Falamos conscienciosamente das causas que estorvam os progressos de nossa educação concernentes à negligência dos governantes e à inaptidão da maior parte dos encarregados do ensino de nossa mocidade. Da mesma sorte o faremos agora a respeito dos pais de família, a cujo bom senso recorremos como a uma âncora de salvação, para subtrair as gerações nascentes ao naufrágio de que as ameaçam, apenas saídas do porto, os princípios subversivos e funestos inculcados à infância. Enquanto os homens do poder se ocupam dos melhoramentos materiais, esperamos confiantes daqueles um remédio mais pronto e, porventura, mais profícuo ao nosso melhoramento moral. A leviandade, comum a quase todos os povos, de julgarem as coisas pela aparência, tem grande elastério entre nós. Apesar de nos ter a experiência inúmeras vezes mostrado quanto há de perigoso nesta leviandade, nenhuma precaução tomamos para triunfar dela, ao menos naquilo que tanta influência pode ter no porvir de nossos filhos. O geral dos pais avalia quase sempre a excelência do estabelecimento, onde manda educar suas filhas, pelo grande número de alunas que contém. Ouvimos por vezes dizer-se: o colégio em que está minha filha é excelente, tem muitas meninas: sem importar saber se essa afluência é devida às condições materiais do estabelecimento e ao atrativo sempre poderoso de ostensivas promessas, ou ao mérito real da pessoa que o dirige. Conhecemos outrora uma diretora que, não querendo fazer conhecido, por fúteis exteriores, o seu gosto pelo magistério, grandes dificuldades teve a superar para colocar-se, como depois se achou, à frente de um dos mais frequentados estabelecimentos desta Corte. Impelida então pelo desejo de acelerar os progressos de suas alunas, ela fixou um certo número, não admitindo outras sem vagar algum dos lugares preenchidos. Este procedimento admirava em extremo a todos de quem era conhecido, pois não se compreende que no magistério deve haver um interesse mais nobre que o do miserável ganho pecuniário, interesse colocado pelos verdadeiros amigos da educação da mocidade à frente de todas e quaisquer outras considerações. Para que uma diretora hábil e solícita possa obter grandes resultados da educação física e moral de suas alunas, será preciso que o número destas se conforme com o tempo que ela pôde dar-lhes, velando por si mesma todo o ensino, o que uma substituta não poderá fazer tão completamente como ela. Daí, a vantagem que achamos na educação dirigida pelas próprias mães, quando estas possuem os predicados para bem desempenharem tão difícil tarefa.