LIII
Em geral os brasileiros não conhecem a economia do tempo; e é bem para lamentar que as classes pobres, principalmente, não se compenetrem da necessidade dessa economia, e das vantagens que resultariam a seus filhos se lhes apresentassem sempre com nobreza a imagem do trabalho, que devia caracterizá-las e distingui-las na sociedade do seu país. Se o desprezo do trabalho produz nas classes abastadas funestas consequências, o que será das pobres, máxime daquelas que, não se resignando com o estado em que Deus as colocou, querem mostrar- -se aos olhos do mundo trajadas acima da sua condição? Na França, nesse reino elegante das modas, distinguem-se as classes operárias pelo seu trajar, e muitas pessoas há dessa classe que, tendo adquirido fortuna, conservam nobremente depois a mesma simplicidade. Este bom senso é porém desconhecido entre nós. Vê-se frequentemente a filha do empregado inferior, e mesmo do artesão, cujo trabalho apenas lhe dá para o sustento quotidiano, ostentar o luxo da filha do abastado. Um tal gosto imprudentemente inspirado pelos próprios pais dessa inocente tem-na muita vez levado à declividade de um abismo, donde não é mais possível retroceder! É quase sempre dessa parte da sociedade, educada nos princípios contrários aos que convém e honram a sua posição no mundo, que sai o maior número das vítimas da corrupção e da miséria, negras tarjas lançadas no painel colorido das nações civilizadas, riso satânico do espírito do mal transpondo inalterável os séculos para chasquear incessantemente do espírito do bem, que procura guiar a humanidade à perfeição! Entregues à indolência e à ociosidade, na abnegação do trabalho, e na falência total de meios empregados para inspirá-lo, essas infelizes criaturas caem na degradação, e muitas vezes no crime, perpetuando a miséria e o opróbrio de geração em geração, por este vasto e rico solo do Brasil, que em seu nascente progresso tanto há mister de braços e de instituições morigeradoras. Quantas vezes, em diferentes pontos de nossas províncias, tivemos ocasião de deplorar essas vítimas da vida ociosa de suas mães, ou de seus vícios, cujo aspecto enluta a natureza e punge a alma do homem virtuoso! O imparcial A. de St. Hilaire, em seu livro sobre S. Paulo, tocando neste ponto, depois de algumas linhas que nos repugna transcrever, diz: “Nulle part je n’avais vu un aussi grand nombre de ........ il y en avait de toutes les couleurs, les pavés en étaient pour aiusi dire couverts. Il est pénible au voyageur honnête de descendre dans de si tristes détails, mais il doit avoir le courage de le faire lorsque c’est une occasion de montrer dans quel état de dégradation peuvent descendre les classes pauvres, si on les abandonne entièrement à elles-mêmes, si on ne leur apprend point que le travail en les éloignant du mal, les purifie et les honore, si enfin l’on néglige complètement leur instruction morale et réligieuse. Les enfants de ces nombreuses femmes étaient à peine nés qu’ils avaient sous les yeux des vices; s’ils recevaient quelques leçons c’étaient celles de l’infamie; e le prêtre, oublieux des préceptes de son divin maitre, le prétre ne s’écriait pas comme lui: Ah, laissez approcher ces enfants jusqu’à moi.”114 114 “Em nenhum lugar eu tinha visto tantos ... havia de todas as cores, as pedras das calçadas estavam, por assim dizer, cobertas. É difícil para o viajante honesto entrar em tão tristes detalhes, mas ele deve ter a coragem de fazê-lo quando for uma oportunidade para mostrar em que estado de degradação as classes pobres podem descer, se forem totalmente abandonadas a si mesmas, se não as ensinarmos que o trabalho, removendo-as do mal, as purifica e as honra, se, enfim, negligenciarmos completamente sua instrução moral e religiosa. Os filhos de muitas destas mulheres, porém, mal nasceram, e diante dos seus olhos tinham vícios; e, se alguma coisa lhes ensinava, eram da infâmia; e o sacerdote, esquecendo-se dos preceitos do seu mestre divino, não exclamava como ele: Ah, deixai que estas crianças venham a mim.” Em outra parte, tratando da causa primordial desta corrupção, em um país tão grandemente favorecido da natureza, o ilustre viajante acrescenta: “Depuis Villa Boa jusqu’au Rio das Pedras j’avais peut-être eu cent exemples de cette indolence stupide. Ces hommes abrutis par l’ignorance, par l’oisivité, l’éloignement de leur sembable et probablement par des jouissances prématurées ne pensent pas; ils végètent comme l’arbre, comne l’herbe des champs.”115 E de feito assim é. O viajante brasileiro, que tem visitado os nossos sertões, não poderá deixar de reconhecer o cunho da verdade nestas linhas do digno St. Hilaire, e conosco fazer ardentes votos para que a narrativa do estado abjeto, em que vive grande parte desses povos, desperte a atenção e o patriotismo do nosso governo!