LVIII Opúsculo Humanitário · Capítulo 58 de 62
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LVIII

Indígenas do Brasil, o que sois vós? Selvagens? os bens seus já não gozais... Civilizados? não... vossos tiranos Cuidosos vos conservam bem distantes Dessas armas com que ferido têm-vos! De sua ilustração, pobres caboclos! Nenhum grão possuis! ... Perdestes tudo; Exceto de covarde o nome infame...129 126 Jean-Baptiste-Henri Dominique Lacordaire (1802-1861), padre dominicano, jornalista, educador e deputado francês. 127 Gustave François Xavier Delacroix de Ravignan (1795-1858), escritor e pregador jesuíta francês. 128 Decimada: do verbo decimar: tirar um de cada dez; em que se fez a decimação, isto é, tirada uma de cada dez. 129 Novamente um verso do poema A lágrima de um caeté, da própria Nísia. Pobre raça infeliz, votada ao desprezo dos homens, que te usurpam quanto o homem tem de mais caro na vida: pátria, liberdade, honra! Raça inocente e belicosa, que te estendias descuidosamente pelo litoral do Atlântico desde o Amazonas até o Prata, e em todas as direções por essas vastíssimas majestosas florestas, atestando a onipotência de Deus nos dias primitivos de criação; que lugar ocupas tu, há três séculos e meio, nesta magnífica região onde te havia colocado o Eterno, e onde os homens da civilização vieram com a religião do Cristo oferecer-te as suas vantagens para fazer de ti um povo melhor?! Parece-nos ouvir a extinta e queixosa voz do bravo e malfadado Caeté responder: Ó terra de meus pais, ó pátria minha! Que seus restos guardando, viste d’outros Longo tempo a bravura disputar Ao feroz estrangeiro a pátria nossa, A nossa liberdade, os frutos seus! ... Recolhe o pranto meu, quando dispersos, Pelas vastas florestas tristes vagam Os poucos filhos teus à morte escapos, Ao jugo de tiranos opressores, Qu’em nome do piedoso céu vieram Tirar-nos estes bens que o céu nos deu! As esposas, a filha, a paz roubar-nos!... Trazendo d’além mar as leis, os vícios, Nossas leis e costumes postergaram! Por nossos costumes singelos e simples Em troco nos deram a fraude, a mentira. De bárbaros nos dando o nome que deles Na antiga e moderna história se tira. De feito, o filósofo, o cristão que conhece a história do nosso Brasil não pode deixar de revoltar-se contra os abusos da civilização dos seus povoadores europeus, continuados pelos seus sucessores! O que resta hoje dessas numerosas nações de aborígenes, cujo préstimo e fidelidade tantos fatos comprovam antes e depois dos frutos colhidos pelo incansável zelo de Nóbrega e do virtuoso Anchieta? Anchieta, em quem Deus havia reunido os talentos do poeta, do naturalista e do filósofo para demonstrar que se devia inspirar grandes e nobres sentimentos a um povo, que tinha direito à melhor sorte, e os elementos necessários para, bem dirigido, conosco marchar na via do progresso civilizador! Alguns jesuítas procuraram imitar esse grande gênio do cristianismo; e os poucos de nossos conterrâneos, que têm percorrido nossas províncias, dando-se ao estudo analítico da história das primeiras tentativas para civilizar os nossos indígenas, sabem que imensas aldeias floresceram debaixo da sábia administração de dedicados catequizadores. Mas onde estão hoje essas florescentes aldeias, os descendentes desses povos que as habitavam submetidos a paternal direção, desenvolvendo sua inteligência em diversos gêneros de artes úteis e agradáveis? O que é feito dessas raças, de que saíram os Tabyreçá, os Ararygboia, os Camarão, que fiéis aos seus ingratos aliados, tantos e tão relevantes serviços prestaram à causa da civilização, nas províncias de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, etc. etc.?! Esses célebres nomes não bastariam para fazer corar alguns dos nossos escrevinhadores e modernos guerreiros, que apresentam os nossos aborígenes como um povo infiel e covarde? Nobre Caeté, tu tinhas razão quando exclamastes: Tabayares miserandos, raça escrava, Que a voz, incautos, desse chefe ouvistes Mandando exterminar os irmãos teus Para um povo estrangeiro auxiliar! O anátema do céu feriu-te, ó mísera! Para ele um país tu conquistaste Em paga deu-te ele a ignomínia! Em eterno desprezo eis-te esquecida Como estão tantos outros teus iguais, Que perdendo na pátria os seus costumes, As vantagens não gozam desses homens, A quem sacrificaram pátria, honra! ...

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