XXVII
A mulher é como o homem, conforme se exprime o sublime Platão, uma alma servindo-se de um corpo. É um absurdo pois, uma profanação mesmo, pretender-se que essa alma, obra-prima do Criador para o seio do qual tem de volver, consagre o corpo, que anima na rápida passagem desta vida, unicamente a fúteis adornos, a graças factícias, para deleitar as horas de ócio de 85 Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo francês; Olinthus-Gilbert Gregory (1774-1841), matemático e astrônomo inglês. 86 Platão (428-348 a.C.), filósofo grego. uma criatura sua igual, que vemos ceder mais ao império dos sentidos que ao da razão. Todos esses princípios subversivos, espalhados com tanta profusão por penas mais ou menos hábeis de pretendidos melhoradores da educação da mulher, confirmando o antiquado e funesto prejuízo de que ela deve somente aspirar ao império das graças exteriores, só tem feito com que se aumente o número, já tão considerável, de escravas, procurando iludir despóticos ou fanáticos senhores a fim de haverem pela fraude um cetro, que elas deveriam conquistar pela razão, se lhes deixassem a liberdade de aperfeiçoarem as suas faculdades morais. A fraqueza física é um dos pretextos de que se prevalecem certos sofistas para subtraírem a mulher ao estudo, para o qual a julgam imprópria. Não é a natureza física, como pretende Helvecio, que faz a superioridade do homem, mas sim a inteligência. Voltaire, Racine, Pascal e outros muitos de uma compleição demasiadamente delicada comprovam esta verdade. E a inteligência, que não tem sexo, pode ser igualmente superior na mulher, salvo a opinião de alguns materialistas cujo espírito fraco identificou-se, permita-se-nos a expressão, com o escalpelo afeito a revelar-lhes a organização animal, que não a inspirar-lhes os sublimes pensamentos de Duvernoy, Schoelein, Orfila e do eloquente Serres, quando na indagação dessa nobre ciência, que reclamam as dores físicas da humanidade, eles enlevam a alma de seus admiradores por suas filosóficas considerações. Se a natureza deu à mulher um corpo menos robusto que ao homem, não tem ela por isso mesmo mais precisão do exercício de suas faculdades intelectuais, para que possa melhor preencher os deveres de filha, esposa e mãe, sem descer ao artifício? 87 Claude Adrien Helvétius (1715-1771), escritor e filósofo anticlerical francês. 88 Voltaire, pseudônimo de François-Marie Arouet (1694-1778), escritor, ensaísta e filósofo; Jean Baptiste Racine (1639-1699), poeta, dramaturgo e historiador francês; Blaise Pascal (1623-1662) matemático, filósofo e teólogo francês. 89 Cientistas franceses reconhecidos na época: Georges Louis Duvernoy (1777-1855), zoologista; Johann Lukas Schoenlein (1793-1864), médico; Mathieu Joseph Bonaventure Orfila (1787-1853), médico; e Pierre Marcel Toussaint de Serres (1783-1862), professor de História Natural em Montpellier, ou Augustin Serres (1786-1868), embriologista (conforme nota de Peggy Sharpe-Valadares, na edição de 1989 da editora Cortez). Porém, um erro ainda mais funesto vem, adornado dos atrativos que podem melhor lisonjear os sentidos e triunfar da razão, sobrestar os progressos da educação do sexo: é o axioma ridículo de que a fraqueza constitui um de seus primeiros encantos! “A fraqueza pode excitar e lisonjear o arrogante orgulho do homem, diz uma célebre escritora inglesa, mas as carícias de um senhor, de um protetor, não satisfarão uma alma generosa que quer e merece respeito.” Não por certo; e o homem delicado e justo, compreendendo devidamente este respeito, sabe-o tributar à energia da razão que combate, e não à fraqueza que se humilha.