XXIX Opúsculo Humanitário · Capítulo 29 de 62
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XXIX

A nação da Europa, que se tem como que constituído o termômetro das ideias políticas de quase todos os povos modernos, levantava-se, ainda gotejante de sangue, do tenebroso pélago em que a haviam engolfado os prejuízos e as tiranias passadas, para elevar-se, sob o braço déspota do maior guerreiro dos tempos modernos, ao ponto mais culminante do poder e da glória que jamais têm dado as armas em nossos dias. Estava marcado pela Providência que o longínquo Brasil, sofrendo tão cristãmente as dores da pesada cadeia que lhe arrochava os fortes pulsos, participaria da influência daquele acontecimento por um modo indireto e benéfico. Uma lava do vulcão da Córsega, cuja erupção ameaçava derrubar todos os tronos da Europa, descendo a Portugal, estendeu essa influência até as hospitaleiras praias do Brasil, o qual abriu generosamente seus braços e seus tesouros à Família real, que vinha procurar um asilo em seu seio. Uma coroa europeia brilhou sob o fulgurante sol americano; o aparatoso fasto de uma corte desdobrou-se na capital do Brasil; seus portos, fechados até então ao estrangeiro, lhe foram para logo franqueados, e o nome de reino substituiu depois o de colônia, tão indevidamente conservado à vasta terra de Santa Cruz. Alguns melhoramentos se operaram em diversos pontos, criaram-se tribunais, escolas, academias etc. etc. sob a digna administração do ilustrado D. Rodrigo de Sousa Coutinho, mas a educação da mu Abismo, profundidade, abismo oceânico, alto-mar. A autora usa em sentido figurado. lher permaneceu como nos férreos tempos coloniais, isto é, entregue aos cuidados de ineptos pedagogos femininos, ou à direção das mães no seio da família, onde a menina aprendia tudo, menos o que pudesse torná-la digna mais tarde de ser colocada na ordem de mulher civilizada. O Brasil tinha já fornecido grande cópia de homens ilustrados pelos conhecimentos adquiridos em diferentes universidades da Europa, e a maior parte das Brasileiras (mesmo as das primeiras cidades) não logravam a vantagem de aprender a ler! Dizia-se, geralmente, que ensinar-lhes a ler e escrever era proporcionar-lhes os meios de entreterem correspondências amorosas, e repetia-se sempre que a costura e trabalhos domésticos eram as únicas ocupações próprias da mulher. Este prejuízo estava de tal sorte arraigado no espírito de nossos antepassados que qualquer pai que ousava vencê-lo e proporcionar às suas filhas lições que não as daqueles misteres, era para logo censurado de querer arrancar o sexo ao estado de ignorância que lhe convinha! É esta uma das censuras que fazemos aos homens do passado sem receio de desagradar aos do presente; porque, salvas honrosas exceções, todos assim pensam ainda, não obstante muitos terem trocado o papel de completa ignorância que representavam suas filhas pelo de uma instrução superficial e mal dirigida, que tende a viciar o espírito sem nada deixar-lhe de sua simplicidade primitiva, como demonstraremos quando chegarmos ao ponto de nossa educação atual.

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