LV Opúsculo Humanitário · Capítulo 55 de 62
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Estamos certos de que as pessoas convencidas do triste estado de nossa educação religiosa, depois que nos alistamos no catálogo das nações cristãs, ter-nos-ão já estranhado o silêncio, que até aqui guardamos sobre uma das causas capitais deste estado – a falta de instrução e de exemplos edificantes dados pelo nosso clero à mocidade brasileira. Falaremos, pois, neste ponto tão importante à morigeração de qualquer povo, não como rígidos censores derramando o fel, que lhes vai pela alma ao contemplarem por terra o monumento mais venerável das nações civilizadas, mas como humildes fiéis, com o coração pungido de dor pelos desvios de nosso povo, que vemos crescer, prosperar, ensoberbecer-se pelos pingues dons que lhe doou a pródiga natureza, sem refletir que é o trabalho do homem e não a riqueza natural do solo que engrandece as nações; e que sem o respeito à religião e às leis não poderá ele, jamais, assumir a esse grau elevado de civilização, a que julgamos ter atingido porque arremedamos a Europa, no que a Europa encerra de menos importante. “A religião é a cadeia de ouro que une a terra ao céu”, repetiu o nosso marquês de Maricá. Nós parodiaremos esta bela máxima com a seguinte: A religião é a cadeia indestrutível que liga a mulher a seus deveres, a coroa mais preciosa que lhe cinge a fronte. A mulher sem religião assemelha-se àquelas lindas flores de nauseante cheiro que se deve admirar de longe, sendo que o seu contato infecciona o ar que respiramos. É a religião que fortifica e realça as qualidades feminis; é ela, ainda, que sustenta e consola todo o indivíduo nas circunstâncias mais 119 Pingue: /adjetivo/ gordo, fértil, abundante. 120 Mariano José Pereira da Fonseca, marquês de Maricá (1773-1848), escritor, filósofo e político brasileiro. difíceis da vida, a bússola invariável que lhe indica os seus deveres, e o conduz ao exato cumprimento deles. Entretanto, nada há em nossa terra mais desprezado pelos pais e pelos párocos do que o ensino da religião! Onde no Brasil o assíduo cuidado de uns e de outros de inspirarem à mocidade os salutares princípios da fé de Cristo? Qual a freguesia cujo pastor observe pontualmente os deveres que lhe impõe a sua santa missão? Não há espírito religioso em nossa terra que não lastime o desregramento e a ignorância da maior parte do nosso clero. É ainda este um filho póstumo do clero de sua antiga metrópole. Não temos a sublime pena, nem a tarefa do grande historiador A. Herculano para esboçar sequer as calamidades, que acarreta a qualquer país um clero ignorante e desmoralizado. Seja-nos, porém, permitido observar, de passagem, que é dessa fonte principalmente que manam os incentivos, senão a causa primária da desordem das gerações que se têm até hoje sucedido. Podemos dizer, sem receio de que nos tenham por exagerados, que em nenhuma paróquia do Brasil a nossa religião é devidamente ensinada à mocidade. A explicação do catecismo, de que com tanto interesse e assiduidade se ocupam os padres de França, encarregados de difundir a instrução religiosa por todas as classes da sociedade, é de tal sorte desprezada no Brasil, que as nossas grandes meninas, hábeis nas etiquetas dos bailes e nos manejos para obterem a única conquista a que aspiram, fazem a sua primeira comunhão sem o conhecimento dos princípios de nossa santa fé! Nunca esqueceremos a humilhação que sentimos (pela ignorância dos nossos conterrâneos nesse ponto) quando, em Paris, uma antiga dama da casa de Luís Filipe, admirando a instrução de uma jovem brasileira, que se achava ali ao mesmo tempo que nós, disse-nos, com certa franqueza de que a fizemos arrepender-se: Que surpreendia-se ao ver uma moça do nosso país tão instruída, quando a uma de nossas altas personagens, chegando à França, foi necessário ensinar até o catecismo!

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