LII Opúsculo Humanitário · Capítulo 52 de 62
Obra Menu

LII

Volvamos agora um olhar para as nossas classes pobres e vê-las-emos quase por toda a parte perdendo o precioso tempo, de que poderiam tirar grande utilidade, se o empregassem em um trabalho bem regulado e seguido. Diferentes das mulheres pobres das nações, que mencionamos, as nossas pouco se ocupam em geral do dia seguinte, isto é, de ajuntar, por meio de uma indústria honesta e de razoáveis economias, com que prover no futuro as suas necessidades. Enquanto aquelas, considerando o trabalho como um primeiro dever, procuram inspirar o gosto dele a seus filhos, acostumando-os 113 Domingos José Gonçalves de Magalhães (1811-1882), médico, professor, político e poeta brasileiro, autor de Suspiros poéticos e saudades, publicado em 1836, considerada a primeira obra do Romantismo no Brasil. a fazerem uso de seus membros, apenas andam, ensinando-os a entreterem-se em diversos brincos úteis de invenção sua; estas trazem os seus ao colo de manhã até a noite, e deixam-nos depois vagar até grandes sem nenhuma sorte de ocupação! Vimos em França e em Inglaterra mães de quatro, cinco, e mais filhos, amamentando ainda um, saberem dividir e utilizar tão bem o seu tempo, que os pensavam, faziam todo o serviço interno da casa, e lhes sobravam horas para ajudarem seus maridos no comércio, nas artes ou na lavoura, apresentando no fim do dia um resultado de sua aplicação. Verdade é que naqueles países não se inculca, como aqui, à mulher a falsa ideia de que ela nada pode ser por si mesma, sendo-lhe indispensável o braço do homem para fazê-la viver, como a sua razão para dirigi-la! Assim, quando a jovem, de qualquer condição que seja, transpõe ali o limiar nupcial, não leva como as nossas a presunção de que alcançou a única glória a que deve aspirar a mulher, esperando do marido todas as suas comodidades, e a satisfação de todos os seus caprichos; direito que julga indisputavelmente firmado constituindo- -se simples mãe de seus filhos. Presunção bem vezes fatal àquelas, que não procuram firmar o seu direito em bases mais sólidas que não as das palavras do homem, pronunciadas perante um sacerdote, palavras que nenhuma felicidade real trazem à mulher sensível, quando não são o resultado do sentimento, e garantidas pela moral, e constância daquele que as pronuncia. Um exemplo bem eloquente desta verdade acaba de apresentar a infeliz esposa, e mãe de cinco filhos, de um alto funcionário, homem ilustrado, magistrado íntegro e afetuoso pai. Educada no meio da grandeza, e amada depois por esse homem, a filha de um dos primeiros cortesãos de seu tempo devia por sem dúvida crer-se segura daquele direito, desde que o desposou e lhe deu cinco filhos. Volveu o tempo... e a pobre mãe, que nunca tinha deixado de ser esposa fiel, pereceu abandonada e miseravelmente em uma pequena casa da mesma cidade, onde o esposo e seus próprios filhos, ostentando o luxo e a consideração da alta sociedade, só lhe apareceram em seus últimos dias para tornar-lhe mais dolorosa a hora do passamento!! Lição eloquentemente triste para as mulheres de todas as condições, que se creem ao abrigo das vicissitudes da sorte, só porque conseguiram tomar o nome de um homem de mérito! É trabalhando de dia em dia por adquirir a afeição e os respeitos do companheiro que lhe coube por sorte, e por tornar-se superior aos acometimentos do ciúme, que a esposa consegue firmar a sua felicidade doméstica, e não por laços julgados indissolúveis e santos por aqueles que facilmente os profanam, quando as paixões os agitam.

1/1
Menu

Fazer anotação