XXXIV Opúsculo Humanitário · Capítulo 34 de 62
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XXXIV

Nenhuma lei geral tendente à investigação dos colégios particulares foi ainda promulgada pelo governo; nenhuma medida tomada para que o ensino da nossa mocidade seja convenientemente dirigido. Uma casa de educação entre nós é, em geral, uma especulação como qualquer outra. Calcula-se, de antemão, o número dos alunos prometidos, ou em perspectiva, as vantagens que podem resultar de uma rigorosa economia, em que por vezes a manutenção daqueles é comprometida. Fazem-se ostensivos prospectos, e conta-se com a credulidade do público, sempre solícito em acolher, sem exame, tudo o que tem a aparência de novidade e de ostentação. À parte as devidas exceções, as nossas casas de educação são dirigidas por pessoas sem a atitude necessária ao desempenho do mais melindroso emprego entre os povos civilizados. Muitas dessas pessoas aportam às nossas praias com o fim de especularem no comércio; vendo depois frustrados os seus planos de interesse nessa carreira, lançam mão do ensino; e ei-los metamorfoseados de negociantes e até mesmo de artesãos em preceptores da mocidade brasileira, afetando para com os pais de família uma distinção e sabedoria que nem a natureza nem a educação lhes dera, mas cuja reputação, aparatosas casas, enfáticos anúncios e pretensiosas promessas sustentam e propagam. Apreciamos em subido grau os talentos dos estrangeiros; quiséramos mesmo poder reunir em nossa terra todos os que estivessem no caso de instruir-nos e utilizar-nos com os seus conhecimentos, de que tanta precisão tem o nosso povo. Mas quais são aqueles que justamente merecem, por esse lado, a nossa consideração? Poucos, muito poucos, e estes são os primeiros a concordarem conosco nesta verdade. Vivemos algum tempo na Europa e sabemos que as pessoas ali reputadas de letras e habilitadas para o magistério têm sempre em que se empreguem com mais ou menos vantagem. A ideia de deixarem o seu país para virem instruir a nossa mocidade jamais lhes ocorreu, e se por imperiosas circunstâncias alguma a concebe, para logo a abandona, como aconteceu ao distinto poeta e literato A. F. de Castilho: porquanto o mesmo Portugal, em sua decadência, compreende hoje quanto é desairoso a uma nação deixar emigrar, por escassez de recursos, os gênios que a ilustram. Se algum motivo político os expatria, passam de uns a outros países da Europa, e quando demandam à América, preferem quase sempre os Estados Unidos porque lá encontram a par de espíritos que melhor os sabem apreciar, uma sociedade que lhes fala dos bens que na sua perderam. Para o Brasil o interesse material, e somente ele, conduz em geral o estrangeiro, a não serem os curiosos viajantes e naturalistas, cujo amor da ciência os indeniza, no meio de nossa pomposa natureza, da falta da civilização europeia.

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