XXX Opúsculo Humanitário · Capítulo 30 de 62
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XXX

Era quase geral a opinião, como dissemos, que a instrução intelectual era inútil quando não prejudicial às meninas; mas é porque aqueles que propalavam tão absurdo princípio não faziam esta simples observação, posta ao alcance da inteligência ainda a mais míope, e para a qual lhes não era preciso revolverem a história dos outros povos: as mulheres brasileiras, baldas de toda a sorte de instrução, eram elas citadas como as mais virtuosas e severas nos princípios morais? Subtraíam-se assim melhor a cilada das seduções armadas à inexperiência ou à credulidade do sexo? Se assim tivera sido, se a estatística das faltas cometidas pelas mulheres devidamente instruídas fosse mais numerosa que a das outras, certo que não hesitaríamos em ser do número dos apologistas da ignorância da mulher; porque, sendo a beleza da virtude a que mais atrai e extasia a nossa alma, nós preferiríamos adorá-la, envolvida mesmo no grosseiro manto da ignorância, a gozarmos de todas as vantagens que a civilização oferece do alto de seu rico e deslumbrante pedestal. Mas todos sabem, a não serem os povos selvagens, que é um paradoxo, e paradoxo ridículo, avançar-se que a ignorância é o melhor estado para o desenvolvimento das virtudes morais. Ouvimos sempre bradar contra o progresso dos vícios que a civilização traz, mas é porque não se quer atentar para os que praticaram e praticam todos os povos, não diremos selvagens, que vivem no pleno estado da natureza, mas os que, ligados por vínculos sociais, viviam e ainda vivem sem o influxo benéfico dessa poderosa regeneradora do espírito humano. Data de tempos imemoriais o costume dos velhos, esquecidos das faltas de sua mocidade, censurarem acrimoniosamente as da mocidade atual, preconizando aquela entre a qual outrora viveram. Assim também acontece aos povos que se vão libertando do império da ignorância; hoje olham alguns como erro o que faziam por dever os seus antepassados. Os homens foram sempre os mesmos, a diferença está nas circunstâncias e no modo com que eles praticam as ações, moldando-as à época em que vivem, à educação que recebem, ao grau de civilização mais ou menos considerável que os vai polindo. Ninguém mais do que nós ama a antiguidade e se entusiasma pelos grandes feitos, que nela se praticaram, pelos insignes gênios, que a enobreceram: mas quando vemos entre nós o vício premiado e a virtude oprimida ou desprezada, não somos daqueles que lançam o anátema da maldição sobre as gerações presentes crendo-as inficionadas de vícios por elas inventados, quando são eles somente a reprodução dos que em maior escala cometeram as gerações extintas. Uma só coisa censuramos às atuais gerações, e muito particularmente à nossa: é o não tirarem da experiência, que nos fornecem os erros de nossos antepassados, o antídoto precioso para minorar os nossos. Do número desses erros é o que nos inspirou este escrito.

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