XXVI
Quanto mais ignorante é um povo, tanto mais fácil é a um governo absoluto exercer sobre ele o seu ilimitado poder. É partindo deste princípio, tão contrário à marcha progressiva da civilização, que a maior parte dos homens se opõe a que se facilite à mulher os meios de cultivar o seu espírito. Porém, é este um erro, que foi e será sempre funesto à prosperidade das nações, como à ventura doméstica do homem. O país onde o soberano é mais absoluto é justamente aquele em que o seu poder está menos seguro. É esta a ideia do próprio Fenelon, depois de ter apoiado a aristocracia. A força não pode nunca persuadir, mas sim fazer hipócritas. Assim como um governo paternal é o mais próprio a fazer a felicidade dos povos, e a inteligência destes devidamente cultivada o melhor incentivo para o exato cumprimento de seus deveres, assim também a educação moral é o guia mais seguro da mulher, a estrela polar que lhe indica o norte, no frágil batel em que ela tem de navegar por esse mar semeado de abrolhos, a que se chama vida . 83 Thomas Hobbes (1588-1679), matemático e filósofo inglês, autor do célebre Leviatã ou Matéria, Palavra e Poder de um Governo Eclesiástico e Civil, publicado em 1651. 84 François de Salignac de La Mothe-Fénelon, ou François Fénelon (1651-1715), teólogo e escritor francês. A falta de uma boa educação é a causa capital que contribui para que a mulher, no meio da corrupção da sociedade, perca esse norte, o qual não é outro mais que a moral. Procurando-se sempre prender-lhe a inteligência, enfraquecer-lhe os sentidos, inabilitam-na para ocupar-se, como devia, antes de tudo do cuidado de purificar o seu coração, o que nunca poderá ela vantajosamente conseguir se a sua inteligência permanecer sem cultura. Bem diversas desta doutrina são as de Rousseau e Gregory, quando lhe aconselham cultivar o gosto pelos adornos (que ambos pretendem ser natural às mulheres) e embelecer os dotes do corpo, tirando da beleza física e do artifício os meios para subjugar os homens. Todos os que têm escrito sobre a educação da mulher, pregando tão errôneas doutrinas e considerando-a debaixo do ponto de vista puramente material, não têm feito mais do que tirar-lhe toda a dignidade de sua natureza. Mulheres assim educadas seriam próprias para fazer as delícias de qualquer epicurista em um harém, mas cremos que nenhuma de nossas Brasileiras amará semelhante existência, a não ser a que é indigna de outra melhor. Qual é aí o homem razoável e honesto que se contente de uma esposa que prefere passar no seio dos prazeres do mundo entregue às futilidades de uma vida de dissipação e indolência, antes que no empenho constante de reestabelecer seu direito aos gozos razoáveis e de ilustrar-se pela prática das virtudes que honram a espécie humana e contribuem para a felicidade?