XXVIII
Repelindo com profunda indignação o princípio daqueles que apresentam a mulher naturalmente inclinada a fixar a atenção do homem pelas graças exteriores, incapaz de reflexão e apta somente para oferecer-lhe agradáveis passatempos, fazemos justiça à maioria dos nossos conterrâneos para pensar que não eles, mas somente os libertinos podem assim agredir os domínios da razão e profanar a dignidade da virtude. Destes temos piedade, porque passam por esta transitória vida envolvidos na densa atmosfera das paixões sensuais, sem que os seus olhos descortinem jamais o radiante sol da verdade. Se todos os homens, porém, tivessem o espírito justo, como pensa Helvecio, veríamos nós, todos os dias, o grande edifício social ameaçado aqui e ali de desabar sobre os seus mais bem fundados alicerces? Se assim fosse, qual teria sido o fim de Aristóteles, dando-se ao trabalho de compor sua Lógica, tão preciosa e tão útil ao esclarecimento das ideias e à perfectibilidade da razão? E para que ainda precisariam os homens do estudo da filosofia, que infelizmente tão poucos aprofundam e praticam? Não compartindo a doutrina de Helvecio sobre a igualdade da inteligência em todos os homens, sabemos que todas as mulheres não podem ser igualmente instruídas, ainda mesmo quando a todas se proporcionasse os meios de cultivar o seu espírito: o que pretendemos é possível, justo e de rigorosa necessidade, isto é, que todas sejam bem educadas, em suas respectivas situações. A nossa digressão parecerá talvez longa, mas não estranha ao objeto que nos ocupa. Tomemos, pois, o fio de nossa análise sobre a educação de nossas mulheres, e transpondo os tempos coloniais falemos primeiramente de um grande extraordinário acontecimento, que veio mudar a categoria do Brasil, mas não a sorte de suas mulheres.