XXXIII
Desde 1831, goza o Brasil de um governo inteiramente nacional, o que parecia ser o alvo para onde convergiam os seus mais ardentes anelos. É, pois, sob este governo que devemos criticar os progressos de nossa educação física e moral, quer doméstica quer pública, incluindo nesta a que se ministra nos intitulados, entre nós, colégios particulares. Todos os homens conscienciosos de nossa terra conhecem de há muito a necessidade urgente de uma completa reforma no sistema de educação da nossa mocidade. Muitos lamentam os erros e os prejuízos das antigas doutrinas que, menos ostensivas porém quase geralmente, continuam, ainda em nossos dias, a dominar nas escolas do Brasil. Entretanto, reconhecemos que o espírito de nossa sociedade de hoje não é o mesmo da de outrora. A maior parte dos pais (digamo-lo, em abono do progresso de nossa civilização) já não vê, como então, nos bárbaros castigos escolares um meio necessário para os bons resultados da educação de seus filhos. A maior parte, dizemos, porque alguns não somente toleram ainda que homens sem princípios e de medíocre saber, arvorados entre nós em diretores de casas de educação, imprimam a mão na face de seus filhos, mas até exigem que os tratem com todo o rigor para puni-los de suas desobediências domésticas, não sentindo a humilhação que há em constituir um estranho castigador de erros que somente eles deveriam ter sabido corrigir. Temos ouvido, mais de uma vez, pais de família, mesmo nas classes elevadas da sociedade, em que muitos sabem fazer-se obedecer por subalternos seus, confessarem às pessoas a quem confiam a educação de seus filhos que, não podendo contê-los no cumprimento de seus deveres, esperam obter por meio delas este resultado. A fraqueza, que os faz assim perder a força moral junto a essas tenras criaturas confiadas por Deus a seus cuidados, é tão repreensível e desairosa que não precisa de comentário. Pais como esses podem ser comparados ao sadio e vigoroso dono de um terreno fértil, mas inculto pela preguiça de seus braços, que vai pedir ao seu vizinho, a quem falecem iguais vantagens, o alimento necessário para a vida. E quais são, em geral, essas pessoas encarregadas da difícil missão de corrigirem erros inteiramente negligenciados pelos pais e ampliados pelo contato de uma sociedade onde o respeito pela inocência é ainda tão pouco compreendido? ... Quais as casas de educação cujo regime e instituições, baseados na previdência esclarecida do governo e no bom senso dos pais, possam garantir a educação radical da juventude? Não se tem visto, mesmo nesta corte, diretores dessas casas, transpondo todas as metas de seus deveres, profanarem o mais sagrado princípio do magistério, sem que de tão criminosa conduta lhes provenha nenhum prejuízo mais que o de verem eliminado o nome de um ou outro aluno do livro de sua receita?! E é tal a hospitalidade dos Brasileiros para com os estrangeiros que até no ponto de mais transcendente interesse da educação as faltas destes são mais toleradas que as dos próprios nacionais.