Doze Semanas A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 2 de 23
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Doze Semanas

Minha mãe não foi me buscar na plataforma.

Quando desci do ônibus, encontrei uma mensagem enviada quatro minutos antes.

Estou no ponto. A chave está comigo.

O terminal ocupava o mesmo lugar, embora o prédio tivesse mudado de cor e ganhado uma cobertura de metal sobre a entrada principal. O relógio redondo continuava acima das bilheterias. Marcava duas e quarenta e sete, onze minutos adiantado, defeito antigo que ninguém corrigira. Passageiros se distribuíam entre malas, crianças cansadas e anúncios de embarque. O ar trazia cheiro de óleo quente, café e chuva presa no concreto.

Eu carregava uma mala pequena, o computador e uma sacola de papelaria com duas canetas azuis. Não comprei caderno. Jandira deixara a ordem clara.

Atravessei o saguão procurando a placa amarela. Encontrei primeiro minha mãe.

Ela estava atrás do balcão, servindo arroz, feijão e frango ensopado a um motorista de uniforme cinza. Usava avental verde, cabelos presos e óculos apoiados no alto da cabeça. Parei a alguns metros. Jandira levantou os olhos, viu minha mala e continuou enchendo o prato.

— Pode sentar — disse. — Preciso terminar aqui.

Havia três bancos livres. Coloquei a mala junto aos pés e sentei no do meio.

O motorista olhou de mim para ela.

— Sua filha?

— É.

— A professora?

— Ela mesma.

Ele me cumprimentou com um movimento do garfo. Minha mãe cobrou o almoço, contou o troco e entregou duas balas junto das moedas. O homem guardou tudo no bolso e saiu levando o prato para uma mesa próxima.

Jandira limpou as mãos no avental. Contornou o balcão, parou diante de mim e me abraçou com um braço só, deixando o outro estendido para não encostar a mão úmida na minha blusa. O gesto durou pouco. Ainda assim, senti o cheiro do sabonete que ela sempre comprava e o calor do corpo que eu conhecia desde antes da memória.

— Você emagreceu — falou.

— Você continua dizendo isso.

— Desta vez é verdade.

— Das outras também era, segundo você.

Ela segurou meu rosto entre os dedos, examinou minhas sobrancelhas e soltou.

— Está com fome?

— Um pouco.

— Um pouco não serve para calcular comida.

Voltou ao balcão e montou meu prato sem perguntar. Menos arroz, feijão com caldo, frango sem pele, abobrinha e uma colher pequena de farofa. Lembrou de tudo. Entregou o prato e apontou a mesa do canto.

— Come. Fecho às quatro.

Eu poderia ter ido direto para casa. A chave estava com ela, e esperar fazia parte da mensagem. Sentei perto da janela e comecei a comer.

Durante uma hora, observei minha mãe trabalhar.

Ela sabia quem tomava café fraco, quem precisava de troco para o ônibus urbano e qual motorista pediria o prato sem sal antes mesmo que ele abrisse a boca. Recebia dinheiro, anotava números em folhas pequenas e guardava notas em divisórias de uma caixa de madeira. Quando um fornecedor telefonou, pediu o preço de cinco produtos, repetiu cada valor e fez a soma mental antes de negociar.

— Cento e oitenta e seis com entrega — disse. — Se passar disso, não manda.

Ouviu a resposta.

— Você sabe que eu não pago duzentos por causa de quatro caixas de copo.

Desligou depois de obter o valor que queria.

Às quatro e dez, fechou a panela de feijão, guardou os alimentos, contou o caixa e passou um pano no balcão. Eu me levantei para ajudar.

— Deixa.

— Posso lavar os pratos.

— Você acabou de chegar.

— Continuo sabendo lavar.

Ela me entregou o pano de secar.

Trabalhamos em silêncio. A pia era estreita, e nossos braços se esbarraram duas vezes. Na terceira, minha mãe mudou de posição.

— Amanhã você vem cedo — disse.

— Que horas?

— Cinco.

— Cinco da manhã?

— O café não espera você acordar.

— Eu vim ensinar leitura.

— Precisa saber onde vou usar.

Ela falava enquanto empilhava os pratos. O pedido era justo. A ordem me irritou do mesmo modo.

— Posso observar depois das sete.

— Às sete já está tudo pronto.

— Estou de folga amanhã.

— Então não tem problema.

Jandira retirou os óculos da cabeça, limpou as lentes no avental e guardou no bolso. Eu nunca a vira usar aqueles óculos.

— Desde quando precisa deles?

— Dois anos.

— Fez exame?

— Fiz.

— Por que não contou?

— Você conta quando troca de óculos?

Eu não usava óculos. Ela sabia. Pegou as chaves e encerrou o assunto.

Saímos pela porta lateral. Minha mãe caminhava depressa, desviando de malas e passageiros sem reduzir o passo. Cumprimentou dois funcionários da limpeza, uma atendente da bilheteria e o rapaz da lotérica. Ele me reconheceu antes que eu lembrasse seu nome.

— Chegou o reforço — falou.

Jandira não respondeu. Seguiu até a saída.

A casa ficava a seis quarteirões do terminal. Minha mãe recusou o táxi, segurou a alça menor da minha mala e puxou pelas calçadas quebradas do Jardim do Cedro. Eu carreguei o computador e a sacola das canetas. A chuva da manhã deixara poças junto ao meio-fio. O bairro tinha uma farmácia nova, duas lojas fechadas e um prédio de quatro andares onde antes existia um campo de terra.

— Derrubaram o campinho — falei.

— Faz três anos.

— Eu vi por fotografia.

— Fotografia não mostra o barulho da obra.

Chegamos sem retomar o assunto.

A casa de Jandira continuava pintada de branco, agora com portão azul e uma câmera pequena sobre a entrada. Ela abriu, puxou minha mala e apontou o quarto no fim do corredor.

Os sacos de arroz tinham desaparecido. A caixa de óleo também. O quarto estava limpo, com lençol novo, uma toalha dobrada e o ventilador preso à parede. Minha antiga escrivaninha permanecia sob a janela. Em cima dela, minha mãe colocara uma garrafa de água, um copo e um prato coberto por guardanapo. Levantei o pano. Havia três fatias de bolo de milho.

— Você fez hoje?

— Ontem à noite.

— Depois de decidir me chamar?

— Bolo não demora.

Toquei no lençol esticado. Ela alisara as pontas por baixo do colchão, do jeito que fazia antes das minhas provas de escola, convencida de que cama arrumada ajudava a cabeça.

— Obrigada.

— O banheiro está com a descarga ruim. Aperta e segura.

Jandira deixou a mala junto à parede e voltou para a cozinha.

Guardei poucas roupas no armário. Minha mãe liberara duas prateleiras e mantivera as demais ocupadas com guardanapos, embalagens fechadas e pacotes de café. A convivência começava com espaço suficiente, medido por ela.

Quando cheguei à cozinha, encontrei um calendário de mesa aberto diante de Jandira. Ela marcava alguns dias com círculos.

— O que é isso?

— As doze semanas.

Sentei do outro lado.

— Podemos organizar juntas.

— Já estou organizando.

— Eu preciso colocar meu trabalho.

— Coloca.

Ela empurrou o calendário e a caneta para mim.

As aulas da turma de adultos seriam às terças, das sete às nove da noite. Jandira trabalhava no balcão de segunda a sábado. Eu tinha reuniões remotas nas quartas e sextas pela manhã. Marquei meus prazos, os encontros dela e dois dias de viagem que talvez precisasse fazer.

— Talvez? — perguntou.

— A editora pode me chamar.

— Escreve de lápis.

Procurei um lápis no pote junto à geladeira. Minha mãe acompanhou os movimentos.

— Quando serão nossas aulas?

— Você me diz os horários possíveis.

— Terça e quinta depois do almoço. Domingo de manhã.

— Domingo também?

— A prova continua marcada se for domingo.

Anotei.

— Uma hora por encontro no começo.

— Uma hora e meia.

— Você trabalha desde as cinco.

— Eu sei a hora que acordo.

Marquei uma hora e meia.

— Precisamos combinar outras coisas — falei.

— Comida está na geladeira.

— Sobre as aulas.

— Comida durante a aula também pode.

— Mãe.

Ela cruzou os braços.

Expliquei que não faria exercícios sem antes entender o que ela já lia, como aprendera, onde tinha dificuldade e o que esperava alcançar. Jandira ouviu com o rosto fechado.

— Eu não quero que você me aplique prova.

— Preciso saber por onde começar.

— Pergunta.

— Algumas respostas aparecem quando a pessoa lê.

— Outras aparecem quando a pessoa fala.

Respirei. O hábito profissional me ofereceu uma lista de argumentos. Nenhum ajudaria naquela mesa.

— Certo. Eu pergunto.

Ela descruzou os braços.

— Nada de gravar aula — continuou. — Nada de contar minha vida para seus colegas. Nada de fazer texto sobre mim.

— Eu nunca faria isso sem autorização.

— Está autorizada a me ensinar. Só.

— Entendi.

— E não corrige na frente dos clientes.

— Não vou dar aula no balcão.

— Amanhã você vai.

— Vou observar.

— Você corrige até cardápio de restaurante.

— Quando tem erro.

— Todo cardápio tem erro para professora.

Sorri. Ela também, durante um segundo.

— Minha regra — falei. — Você pode encerrar qualquer exercício. Precisa dizer que quer parar.

— Eu levanto e saio.

— Prefiro que diga.

— Para você não achar que abandonou a aluna?

A pergunta trouxe uma dureza que não pertencia à aula.

— Para eu saber o que aconteceu.

— Nem sempre a pessoa sabe na hora.

O calendário ficou entre nós. Na última semana, Jandira desenhara um quadrado em volta da data da avaliação. Os números estavam firmes. As palavras abreviadas ao lado das minhas reuniões tinham saído da minha mão.

— Por que doze semanas? — perguntei.

— O curso dura doze.

— Você também disse que depois eu voltaria para minha vida.

Ela fechou a tampa da caneta.

— Seu trabalho está lá.

— Meu trabalho está no computador.

— Sua casa está lá.

— Esta também foi minha casa.

Jandira levantou, abriu a geladeira e retirou uma jarra de suco.

— Foi.

Uma palavra curta, escolhida com cuidado suficiente para ferir.

— Se não me quer aqui, deveria ter chamado outra pessoa.

Ela colocou dois copos na mesa.

— Eu chamei você.

— E já marcou quando vou embora.

— Você gosta de prazo.

— Eu gosto de saber onde estou.

Minha mãe encheu os copos. Sentou-se e bebeu metade do dela.

— Eu também.

Ficamos em silêncio.

Do lado de fora, uma motocicleta passou com música alta. O ventilador da cozinha girava devagar, empurrando ar quente. Jandira tocou a primeira semana do calendário com a unha.

— Terça-feira eu entro na sala. Em novembro faço a prova. Entre uma coisa e outra, quero conseguir ler o que colocarem na minha frente. Você fica doze semanas. Se quiser ir antes, avisa.

— E se eu quiser ficar mais?

Ela demorou.

— A gente conversa na semana onze.

Aceitei.

Minha mãe trouxe um saco plástico guardado embaixo da pia. Dentro havia cinco cadernos novos, todos comprados naquela manhã. Um preto, um azul, um vermelho, um amarelo e um de capa branca. Nenhum tinha desenho.

— Você já escolheu — falei.

— Ainda não.

Ela espalhou os cinco sobre a mesa.

— Quero saber o que muda por dentro.

Abri cada um. Havia folhas pautadas, quadriculadas, sem pauta, papel mais grosso, papel fino. Jandira passou a mão pelas páginas, comparou o tamanho das linhas e testou a abertura das capas.

Escolheu o amarelo.

— Por quê?

— Abre inteiro e não fecha na minha mão.

Colocou os outros de lado.

Peguei uma das canetas que trouxera e entreguei a ela. Jandira fez um risco no fim da página, apertou a ponta de novo e escreveu a data. Os algarismos saíram regulares.

— E agora? — perguntou.

Eu olhei para o relógio. Eram seis e vinte.

— Agora você descansa. Amanhã, às cinco, eu conheço o balcão.

Ela fechou o caderno.

— Quatro e quarenta.

— Você disse cinco.

— Às cinco o café precisa estar pronto.

Jandira levou o caderno amarelo para o quarto. O calendário ficou aberto sobre a mesa, preenchido até novembro. Na manhã seguinte, nossa primeira aula começaria antes de o dia clarear.

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