A Sala Três A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 11 de 23
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A Sala Três

Na terça-feira seguinte, minha mãe deixou um crachá de visitante ao lado do meu prato.

— Joelma vai receber gente na turma hoje.

— Que gente?

— Uma pessoa de cada aluno.

— Para quê?

— Ver a aula.

Virei o crachá. Meu nome estava escrito por Jandira em letras grandes. O segundo S saía mais estreito que o primeiro.

— Você quer que eu vá?

— Se eu não quisesse, tinha escrito Diná.

— Posso perguntar diretamente.

— Já perguntou.

— E a resposta?

— Está no crachá.

Às sete da noite, entramos pela porta lateral do terminal. A Sala Três ficava depois do posto administrativo, num corredor que eu nunca visitara quando adolescente. Havia vinte cadeiras, um quadro branco, um armário de metal e duas janelas voltadas para as plataformas. Os ônibus apareciam entre as grades, acompanhados pelo ruído dos motores.

Jandira escolheu uma cadeira na terceira fileira. Apontou a última para mim.

— Visitante fica atrás.

— Foi a professora que disse?

— Fui eu.

Sentei.

Outras pessoas chegaram com filhos, companheiros, irmãs, vizinhos e colegas de trabalho. O homem que ocupara a cadeira de Jandira na primeira aula entrou com uma moça de uniforme de farmácia. Uma senhora chamada Dalva trouxe o neto adolescente. Diná apareceu às sete e dez, usando o crachá que minha mãe afirmara não ter escrito.

— Você chamou duas — falei quando ela passou por mim.

— Diná se convidou.

— Alguém precisa conferir a versão da chefe — disse Diná.

Joelma fechou a porta às sete e quinze. Era uma mulher baixa, de cabelos grisalhos presos na nuca e voz suficiente para atravessar o som das plataformas.

— Hoje ninguém veio assistir a uma apresentação — anunciou. — A turma vai trabalhar. Os visitantes podem acompanhar e participar quando forem chamados.

Ela distribuiu folhas de propaganda recolhidas no comércio do terminal. Cardápios, avisos de vaga, ofertas de farmácia, horários de ônibus e comunicados de manutenção passaram de mão em mão.

— Cada pessoa escolhe uma palavra que consegue ler e uma que deseja aprender.

Jandira recebeu um anúncio de supermercado. Leu OFERTA no alto e apontou REFRIGERADO na descrição de um produto.

— Esta eu quero — disse.

O homem ao lado escolheu FARMÁCIA e DESCONTO. Dalva leu ÔNIBUS e pediu ajuda com EMBARQUE. Joelma escreveu as palavras desejadas no quadro sem organizá-las por dificuldade.

REFRIGERADO.

DESCONTO.

EMBARQUE.

CONTRATA.

ECONOMIA.

PLATAFORMA.

Jandira dividiu sua palavra em partes com o lápis. RE. FRI. GE. RA. DO. Pronunciou cada uma. Em GE, usou o som de GATO e parou.

Joelma se aproximou.

— Qual palavra do seu trabalho termina igual?

Minha mãe consultou o anúncio.

— Gelado.

— Procure a parte.

Jandira escreveu GELADO numa margem. Comparou as duas palavras.

— Refrigerado.

— Leia outra vez.

— Refrigerado.

Joelma seguiu para outra mesa.

Eu anotei mentalmente a pergunta que ela fizera. Nenhuma explicação sobre o som do G. Nenhuma regra antes da necessidade. O próprio repertório de Jandira fornecera o caminho.

Na segunda atividade, os alunos formaram duplas. Cada um contaria uma situação em que usara leitura ou escrita durante a semana. O colega escreveria duas palavras retiradas do relato.

Jandira ficou com Dalva.

— Li dois folhetos de higiene — contou minha mãe.

Dalva escreveu FOLHETO e HIGIENE.

— Faltou o S de folhetos — falei do fundo da sala.

As duas olharam para mim.

Joelma continuou atendendo outra dupla. Dalva acrescentou o S.

— Eu tinha terminado? — perguntou a Jandira.

— Ainda estava escrevendo.

Meu rosto aqueceu.

— Desculpe.

Jandira virou a cadeira na minha direção.

— Visitante participa quando chamam.

— Eu ouvi a regra.

— Ouviu e não esperou.

— Tem razão.

Dalva apagou o S.

— Agora eu terminei — disse. — Pode devolver.

Jandira chamou:

— Cássia, falta o S?

— Falta.

Dalva acrescentou a letra novamente.

— Agora foi ajuda — concluiu minha mãe.

Ninguém riu de mim. Eu teria preferido algum riso.

Na terceira atividade, Joelma escreveu três preços no quadro:

R$ 18,00

R$ 23,00

R$ 37,00

— Uma compra custa trinta e sete. O cliente paga cinquenta. Quanto recebe?

Várias pessoas fizeram a subtração no papel. Jandira respondeu:

— Treze.

— Mostre o caminho.

Minha mãe foi ao quadro. Escreveu:

37 → 40 = 3

40 → 50 = 10

3 + 10 = 13

— Quem ensinou? — perguntou o homem da farmácia.

— O caixa.

— E quem colocou no papel? — perguntou Joelma.

Jandira apontou para mim.

— A visitante do fundo.

— Então hoje podemos usar as duas professoras.

Minha mãe balançou a cabeça.

— No troco, eu ensino. No papel, ela ajuda.

Joelma aceitou a correção.

Jandira mostrou o método a três colegas. Não usou os nomes técnicos que eu conhecia. Fez cada pessoa subir do valor da compra até o dinheiro entregue. Dalva errou a soma final, refez e chegou ao resultado.

— Funciona — disse.

— Trabalho com isso há trinta e dois anos — respondeu minha mãe.

Diná, ao meu lado, sussurrou:

— Trinta e quatro.

— Não corrige — falei.

— Estou aprendendo.

No fim da aula, cada aluno leu a palavra escolhida no início. Jandira aguardou sua vez.

— Refrigerado.

Joelma apontou outra palavra do quadro.

— Qual delas compartilha um pedaço?

Minha mãe encontrou ECONOMIA por causa do início E, descartou, passou por PLATAFORMA e voltou a uma palavra escrita numa atividade anterior: GELADEIRA.

— Esta tem “gera”?

— Compare.

Jandira aproximou as duas:

GELADEIRA.

REFRIGERADO.

— Tem “gera” aqui. Em geladeira é “gela”.

— Então são diferentes — disse Joelma.

— Um R troca o caminho.

A formulação vinha de uma aula nossa. Não precisei anunciar.

Quando as cadeiras começaram a ser empilhadas, ajudei Diná a recolher os papéis. Jandira permaneceu perto do quadro, copiando REFRIGERADO no caderno.

Joelma se aproximou de mim.

— Obrigada pela visita.

— Eu interrompi a Dalva.

— Interrompeu.

Esperei alguma orientação.

— Só isso?

— Jandira já explicou.

Do outro lado da sala, minha mãe fechou o caderno.

Voltamos para casa a pé. Diná seguiu até o ponto oposto, e ficamos sozinhas depois da farmácia.

— Gostou? — perguntou Jandira.

— Gostei.

— Aprendeu alguma palavra?

— Esperar.

— Essa você já sabia ler.

— Ler, sim.

Ela continuou andando.

— Joelma é boa professora — falei.

— É.

— Você também foi.

— No troco.

— No troco.

Jandira segurou meu braço antes de atravessarmos a avenida. Esperou o ônibus passar, soltou e seguiu até a outra calçada.

O crachá de visitante permaneceu preso à minha blusa durante todo o caminho.

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