A Sala Três
Na terça-feira seguinte, minha mãe deixou um crachá de visitante ao lado do meu prato.
— Joelma vai receber gente na turma hoje.
— Que gente?
— Uma pessoa de cada aluno.
— Para quê?
— Ver a aula.
Virei o crachá. Meu nome estava escrito por Jandira em letras grandes. O segundo S saía mais estreito que o primeiro.
— Você quer que eu vá?
— Se eu não quisesse, tinha escrito Diná.
— Posso perguntar diretamente.
— Já perguntou.
— E a resposta?
— Está no crachá.
Às sete da noite, entramos pela porta lateral do terminal. A Sala Três ficava depois do posto administrativo, num corredor que eu nunca visitara quando adolescente. Havia vinte cadeiras, um quadro branco, um armário de metal e duas janelas voltadas para as plataformas. Os ônibus apareciam entre as grades, acompanhados pelo ruído dos motores.
Jandira escolheu uma cadeira na terceira fileira. Apontou a última para mim.
— Visitante fica atrás.
— Foi a professora que disse?
— Fui eu.
Sentei.
Outras pessoas chegaram com filhos, companheiros, irmãs, vizinhos e colegas de trabalho. O homem que ocupara a cadeira de Jandira na primeira aula entrou com uma moça de uniforme de farmácia. Uma senhora chamada Dalva trouxe o neto adolescente. Diná apareceu às sete e dez, usando o crachá que minha mãe afirmara não ter escrito.
— Você chamou duas — falei quando ela passou por mim.
— Diná se convidou.
— Alguém precisa conferir a versão da chefe — disse Diná.
Joelma fechou a porta às sete e quinze. Era uma mulher baixa, de cabelos grisalhos presos na nuca e voz suficiente para atravessar o som das plataformas.
— Hoje ninguém veio assistir a uma apresentação — anunciou. — A turma vai trabalhar. Os visitantes podem acompanhar e participar quando forem chamados.
Ela distribuiu folhas de propaganda recolhidas no comércio do terminal. Cardápios, avisos de vaga, ofertas de farmácia, horários de ônibus e comunicados de manutenção passaram de mão em mão.
— Cada pessoa escolhe uma palavra que consegue ler e uma que deseja aprender.
Jandira recebeu um anúncio de supermercado. Leu OFERTA no alto e apontou REFRIGERADO na descrição de um produto.
— Esta eu quero — disse.
O homem ao lado escolheu FARMÁCIA e DESCONTO. Dalva leu ÔNIBUS e pediu ajuda com EMBARQUE. Joelma escreveu as palavras desejadas no quadro sem organizá-las por dificuldade.
REFRIGERADO.
DESCONTO.
EMBARQUE.
CONTRATA.
ECONOMIA.
PLATAFORMA.
Jandira dividiu sua palavra em partes com o lápis. RE. FRI. GE. RA. DO. Pronunciou cada uma. Em GE, usou o som de GATO e parou.
Joelma se aproximou.
— Qual palavra do seu trabalho termina igual?
Minha mãe consultou o anúncio.
— Gelado.
— Procure a parte.
Jandira escreveu GELADO numa margem. Comparou as duas palavras.
— Refrigerado.
— Leia outra vez.
— Refrigerado.
Joelma seguiu para outra mesa.
Eu anotei mentalmente a pergunta que ela fizera. Nenhuma explicação sobre o som do G. Nenhuma regra antes da necessidade. O próprio repertório de Jandira fornecera o caminho.
Na segunda atividade, os alunos formaram duplas. Cada um contaria uma situação em que usara leitura ou escrita durante a semana. O colega escreveria duas palavras retiradas do relato.
Jandira ficou com Dalva.
— Li dois folhetos de higiene — contou minha mãe.
Dalva escreveu FOLHETO e HIGIENE.
— Faltou o S de folhetos — falei do fundo da sala.
As duas olharam para mim.
Joelma continuou atendendo outra dupla. Dalva acrescentou o S.
— Eu tinha terminado? — perguntou a Jandira.
— Ainda estava escrevendo.
Meu rosto aqueceu.
— Desculpe.
Jandira virou a cadeira na minha direção.
— Visitante participa quando chamam.
— Eu ouvi a regra.
— Ouviu e não esperou.
— Tem razão.
Dalva apagou o S.
— Agora eu terminei — disse. — Pode devolver.
Jandira chamou:
— Cássia, falta o S?
— Falta.
Dalva acrescentou a letra novamente.
— Agora foi ajuda — concluiu minha mãe.
Ninguém riu de mim. Eu teria preferido algum riso.
Na terceira atividade, Joelma escreveu três preços no quadro:
R$ 18,00
R$ 23,00
R$ 37,00
— Uma compra custa trinta e sete. O cliente paga cinquenta. Quanto recebe?
Várias pessoas fizeram a subtração no papel. Jandira respondeu:
— Treze.
— Mostre o caminho.
Minha mãe foi ao quadro. Escreveu:
37 → 40 = 3
40 → 50 = 10
3 + 10 = 13
— Quem ensinou? — perguntou o homem da farmácia.
— O caixa.
— E quem colocou no papel? — perguntou Joelma.
Jandira apontou para mim.
— A visitante do fundo.
— Então hoje podemos usar as duas professoras.
Minha mãe balançou a cabeça.
— No troco, eu ensino. No papel, ela ajuda.
Joelma aceitou a correção.
Jandira mostrou o método a três colegas. Não usou os nomes técnicos que eu conhecia. Fez cada pessoa subir do valor da compra até o dinheiro entregue. Dalva errou a soma final, refez e chegou ao resultado.
— Funciona — disse.
— Trabalho com isso há trinta e dois anos — respondeu minha mãe.
Diná, ao meu lado, sussurrou:
— Trinta e quatro.
— Não corrige — falei.
— Estou aprendendo.
No fim da aula, cada aluno leu a palavra escolhida no início. Jandira aguardou sua vez.
— Refrigerado.
Joelma apontou outra palavra do quadro.
— Qual delas compartilha um pedaço?
Minha mãe encontrou ECONOMIA por causa do início E, descartou, passou por PLATAFORMA e voltou a uma palavra escrita numa atividade anterior: GELADEIRA.
— Esta tem “gera”?
— Compare.
Jandira aproximou as duas:
GELADEIRA.
REFRIGERADO.
— Tem “gera” aqui. Em geladeira é “gela”.
— Então são diferentes — disse Joelma.
— Um R troca o caminho.
A formulação vinha de uma aula nossa. Não precisei anunciar.
Quando as cadeiras começaram a ser empilhadas, ajudei Diná a recolher os papéis. Jandira permaneceu perto do quadro, copiando REFRIGERADO no caderno.
Joelma se aproximou de mim.
— Obrigada pela visita.
— Eu interrompi a Dalva.
— Interrompeu.
Esperei alguma orientação.
— Só isso?
— Jandira já explicou.
Do outro lado da sala, minha mãe fechou o caderno.
Voltamos para casa a pé. Diná seguiu até o ponto oposto, e ficamos sozinhas depois da farmácia.
— Gostou? — perguntou Jandira.
— Gostei.
— Aprendeu alguma palavra?
— Esperar.
— Essa você já sabia ler.
— Ler, sim.
Ela continuou andando.
— Joelma é boa professora — falei.
— É.
— Você também foi.
— No troco.
— No troco.
Jandira segurou meu braço antes de atravessarmos a avenida. Esperou o ônibus passar, soltou e seguiu até a outra calçada.
O crachá de visitante permaneceu preso à minha blusa durante todo o caminho.