O Simulado A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 20 de 23
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O Simulado

Jandira colocou o relógio do rádio sobre a mesa e conferiu os minutos.

— Quarenta?

— A prova permite quarenta — respondi.

— E o apoio?

— Pode acrescentar vinte, se você solicitar tempo adicional.

— Hoje são quarenta.

Entreguei as vinte questões impressas. O formato repetia o material do curso: cinco perguntas diretas, cinco situações de cozinha, cinco itens com embalagens e cinco questões acompanhadas por imagens. Eu usara fonte do mesmo tamanho e palavras que apareciam nas apostilas.

Minha mãe escreveu o nome no alto da primeira página.

— Pode começar — falei.

Ela iniciou às sete e oito.

Na primeira questão, leu:

ASSINALE A TEMPERATURA CORRETA PARA MANTER ALIMENTOS QUENTES.

Marcou sessenta graus.

Na segunda, precisou escolher onde guardar carne crua dentro da geladeira. Observou as quatro imagens e assinalou a prateleira inferior.

Na terceira, encontrou uma palavra longa:

CONTAMINAÇÃO.

Jandira separou o início, perdeu a sílaba seguinte e voltou. O relógio avançou dois minutos antes que ela alcançasse a frase inteira.

Na quinta questão, leu CORRETA onde estava escrito INCORRETA. Marcou a alternativa segura.

Na sexta, o enunciado pedia:

MARQUE A OPÇÃO QUE NÃO DEVE SER FEITA ANTES DE PREPARAR ALIMENTOS.

Minha mãe leu a frase duas vezes. Circulou NÃO e escolheu lavar as mãos.

Continuei em silêncio.

Aos vinte minutos, ela estava na questão nove.

Na dez, uma embalagem informava validade, lote e conservação. Jandira identificou a data correta. Confundiu LOTE com LEITE e gastou mais três minutos relendo.

— Posso perguntar uma palavra? — disse.

— Pode.

— “Exceto”.

— Quer que eu leia a questão inteira?

— Só a palavra.

— Exceto.

— O que significa?

— A pergunta pede que você retire uma opção do conjunto.

— Então você respondeu.

— Respondi o significado.

— Na prova também explicam?

— Se você solicitar leitura oral, a pessoa lê. Explicar significado pode não ser permitido.

Jandira riscou a questão.

— Esta não conta.

— Podemos contar como erro.

— Conta como erro.

Ela seguiu.

Quando o relógio atingiu quarenta minutos, faltavam quatro questões. Minha mãe continuou lendo.

— O tempo acabou — avisei.

— Eu sei.

— Quer terminar?

— Quero saber quanto levo.

Concluiu a última em cinquenta e três minutos.

Retirei as folhas e corrigi diante dela. Jandira acertara doze questões. O curso exigia quatorze.

— Reprovei por duas — disse.

— Acertou doze de vinte.

— Reprovei por duas.

— No tempo oficial, faltariam quatro respostas. Sua pontuação seria menor.

— Quanto?

— Nove.

Ela anotou os dois resultados:

40 MINUTOS: 9.

53 MINUTOS: 12.

— Quero ver os erros.

Separei as questões.

Duas continham NÃO. Em ambas, Jandira escolhera uma prática correta quando a pergunta pedia a incorreta. Uma trazia EXCETO. Outra usava CONSERVAÇÃO, palavra que ela confundira com contaminação. Em duas, a leitura estava certa e a resposta errada. Nas restantes, ela conhecia o procedimento quando eu lia em voz alta.

— Então são três problemas — disse.

— Quais?

— Tempo. Palavra que muda a ordem. E duas coisas que eu não sei.

— Quais duas?

— Temperatura de alimento frio e tempo para trocar pano de limpeza.

— Ótimo diagnóstico.

Jandira levantou os olhos.

— Sem voz de palestra.

— Você separou leitura de conteúdo.

— Isso eu fiz.

— Fez.

Ela agrupou as folhas em três pilhas. Na primeira, colocou questões que acertara. Na segunda, erros de leitura. Na terceira, erros de conteúdo.

— Qual estudamos? — perguntei.

— As duas de conteúdo eu pergunto no curso. Com você, quero as palavras que viram a questão.

Escrevi numa folha solta:

NÃO.

INCORRETA.

EXCETO.

APENAS.

TODAS.

NENHUMA.

Jandira leu as quatro primeiras. Em NENHUMA, encontrou NH. Em TODAS, reconheceu a palavra sem separar.

— Isso cabe em três dias? — perguntei.

— Tem que caber?

— O prazo para solicitar apoio termina em três dias.

Ela consultou o calendário.

— Quero fazer outro simulado depois de amanhã.

— Ainda terá um dia para decidir.

— Sim.

— Quer repetir quarenta minutos?

— Quero sessenta.

— Então já está testando o tempo adicional.

— Estou testando se ajuda.

Na quinta-feira, apliquei outro conjunto de vinte questões. Jandira usou cinquenta e sete minutos. Circulou palavras de negação e comando antes de ler as alternativas. Acertou quinze.

Uma das questões corretas tinha EXCETO.

— Passou — falei.

— Com tempo.

— Com tempo.

— Sem leitura de outra pessoa.

— Sem leitura.

Ela comparou os dois resultados. Não comemorou. Abriu o formulário de apoio.

As opções vinham acompanhadas por quadrados:

LEITURA ORAL.

TEMPO ADICIONAL.

FONTE AMPLIADA.

AUXÍLIO NO SISTEMA.

Jandira marcou TEMPO ADICIONAL.

— Quer fonte ampliada? — perguntei.

— Enxergo a letra.

— Leitura oral pode ficar disponível sem uso obrigatório.

— Se eu marcar, alguém senta perto?

— Provavelmente.

— Não quero alguém esperando eu falhar.

— Certo.

Ela assinou.

No dia seguinte, entregou o formulário à coordenadora e pediu uma cópia. Leu o protocolo antes de guardar.

O curso concedeu vinte minutos adicionais.

Na volta para o balcão, Jandira colocou o papel na seção CURSO.

— Agora você tem sessenta minutos — falei.

— Tenho vinte questões.

— E duas semanas.

— Dez dias.

— Você continua contando.

— Continuei o tempo todo.

Ela colocou as duas provas simuladas lado a lado. Nove respostas no primeiro limite. Quinze no segundo.

— Qual guardo? — perguntou.

— As duas.

— Por quê?

— Uma mostra o problema. A outra mostra que a solução escolhida ajuda.

Jandira guardou ambas.

— Isso foi voz de professora?

— Um pouco.

— Hoje pode.

Fechou o caderno e voltou ao balcão. Na seção CURSO, as duas provas ficaram atrás da cópia do protocolo: nove respostas em quarenta minutos; quinze em cinquenta e sete.

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