O Simulado
Jandira colocou o relógio do rádio sobre a mesa e conferiu os minutos.
— Quarenta?
— A prova permite quarenta — respondi.
— E o apoio?
— Pode acrescentar vinte, se você solicitar tempo adicional.
— Hoje são quarenta.
Entreguei as vinte questões impressas. O formato repetia o material do curso: cinco perguntas diretas, cinco situações de cozinha, cinco itens com embalagens e cinco questões acompanhadas por imagens. Eu usara fonte do mesmo tamanho e palavras que apareciam nas apostilas.
Minha mãe escreveu o nome no alto da primeira página.
— Pode começar — falei.
Ela iniciou às sete e oito.
Na primeira questão, leu:
ASSINALE A TEMPERATURA CORRETA PARA MANTER ALIMENTOS QUENTES.
Marcou sessenta graus.
Na segunda, precisou escolher onde guardar carne crua dentro da geladeira. Observou as quatro imagens e assinalou a prateleira inferior.
Na terceira, encontrou uma palavra longa:
CONTAMINAÇÃO.
Jandira separou o início, perdeu a sílaba seguinte e voltou. O relógio avançou dois minutos antes que ela alcançasse a frase inteira.
Na quinta questão, leu CORRETA onde estava escrito INCORRETA. Marcou a alternativa segura.
Na sexta, o enunciado pedia:
MARQUE A OPÇÃO QUE NÃO DEVE SER FEITA ANTES DE PREPARAR ALIMENTOS.
Minha mãe leu a frase duas vezes. Circulou NÃO e escolheu lavar as mãos.
Continuei em silêncio.
Aos vinte minutos, ela estava na questão nove.
Na dez, uma embalagem informava validade, lote e conservação. Jandira identificou a data correta. Confundiu LOTE com LEITE e gastou mais três minutos relendo.
— Posso perguntar uma palavra? — disse.
— Pode.
— “Exceto”.
— Quer que eu leia a questão inteira?
— Só a palavra.
— Exceto.
— O que significa?
— A pergunta pede que você retire uma opção do conjunto.
— Então você respondeu.
— Respondi o significado.
— Na prova também explicam?
— Se você solicitar leitura oral, a pessoa lê. Explicar significado pode não ser permitido.
Jandira riscou a questão.
— Esta não conta.
— Podemos contar como erro.
— Conta como erro.
Ela seguiu.
Quando o relógio atingiu quarenta minutos, faltavam quatro questões. Minha mãe continuou lendo.
— O tempo acabou — avisei.
— Eu sei.
— Quer terminar?
— Quero saber quanto levo.
Concluiu a última em cinquenta e três minutos.
Retirei as folhas e corrigi diante dela. Jandira acertara doze questões. O curso exigia quatorze.
— Reprovei por duas — disse.
— Acertou doze de vinte.
— Reprovei por duas.
— No tempo oficial, faltariam quatro respostas. Sua pontuação seria menor.
— Quanto?
— Nove.
Ela anotou os dois resultados:
40 MINUTOS: 9.
53 MINUTOS: 12.
— Quero ver os erros.
Separei as questões.
Duas continham NÃO. Em ambas, Jandira escolhera uma prática correta quando a pergunta pedia a incorreta. Uma trazia EXCETO. Outra usava CONSERVAÇÃO, palavra que ela confundira com contaminação. Em duas, a leitura estava certa e a resposta errada. Nas restantes, ela conhecia o procedimento quando eu lia em voz alta.
— Então são três problemas — disse.
— Quais?
— Tempo. Palavra que muda a ordem. E duas coisas que eu não sei.
— Quais duas?
— Temperatura de alimento frio e tempo para trocar pano de limpeza.
— Ótimo diagnóstico.
Jandira levantou os olhos.
— Sem voz de palestra.
— Você separou leitura de conteúdo.
— Isso eu fiz.
— Fez.
Ela agrupou as folhas em três pilhas. Na primeira, colocou questões que acertara. Na segunda, erros de leitura. Na terceira, erros de conteúdo.
— Qual estudamos? — perguntei.
— As duas de conteúdo eu pergunto no curso. Com você, quero as palavras que viram a questão.
Escrevi numa folha solta:
NÃO.
INCORRETA.
EXCETO.
APENAS.
TODAS.
NENHUMA.
Jandira leu as quatro primeiras. Em NENHUMA, encontrou NH. Em TODAS, reconheceu a palavra sem separar.
— Isso cabe em três dias? — perguntei.
— Tem que caber?
— O prazo para solicitar apoio termina em três dias.
Ela consultou o calendário.
— Quero fazer outro simulado depois de amanhã.
— Ainda terá um dia para decidir.
— Sim.
— Quer repetir quarenta minutos?
— Quero sessenta.
— Então já está testando o tempo adicional.
— Estou testando se ajuda.
Na quinta-feira, apliquei outro conjunto de vinte questões. Jandira usou cinquenta e sete minutos. Circulou palavras de negação e comando antes de ler as alternativas. Acertou quinze.
Uma das questões corretas tinha EXCETO.
— Passou — falei.
— Com tempo.
— Com tempo.
— Sem leitura de outra pessoa.
— Sem leitura.
Ela comparou os dois resultados. Não comemorou. Abriu o formulário de apoio.
As opções vinham acompanhadas por quadrados:
LEITURA ORAL.
TEMPO ADICIONAL.
FONTE AMPLIADA.
AUXÍLIO NO SISTEMA.
Jandira marcou TEMPO ADICIONAL.
— Quer fonte ampliada? — perguntei.
— Enxergo a letra.
— Leitura oral pode ficar disponível sem uso obrigatório.
— Se eu marcar, alguém senta perto?
— Provavelmente.
— Não quero alguém esperando eu falhar.
— Certo.
Ela assinou.
No dia seguinte, entregou o formulário à coordenadora e pediu uma cópia. Leu o protocolo antes de guardar.
O curso concedeu vinte minutos adicionais.
Na volta para o balcão, Jandira colocou o papel na seção CURSO.
— Agora você tem sessenta minutos — falei.
— Tenho vinte questões.
— E duas semanas.
— Dez dias.
— Você continua contando.
— Continuei o tempo todo.
Ela colocou as duas provas simuladas lado a lado. Nove respostas no primeiro limite. Quinze no segundo.
— Qual guardo? — perguntou.
— As duas.
— Por quê?
— Uma mostra o problema. A outra mostra que a solução escolhida ajuda.
Jandira guardou ambas.
— Isso foi voz de professora?
— Um pouco.
— Hoje pode.
Fechou o caderno e voltou ao balcão. Na seção CURSO, as duas provas ficaram atrás da cópia do protocolo: nove respostas em quarenta minutos; quinze em cinquenta e sete.