A Palavra Vergonha A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 13 de 23
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A Palavra Vergonha

Jandira escreveu VERGONHA na seção de perguntas e fechou o caderno antes que eu pudesse ler o restante.

Estávamos no balcão, depois do almoço. Diná lavava as últimas panelas. Eu conferia a soma das vendas em dinheiro. Minha mãe usava os vinte minutos de intervalo para preencher uma ficha da Sala Três.

— Precisa de ajuda? — perguntei.

— Já pedi.

— Quando?

— Agora.

Ela abriu novamente o caderno e apontou a palavra.

— Está certo?

— Está.

— Tem algum som escondido?

— O NH aparece inteiro. O G, diante do O, mantém o som de gato.

— Então está certo de verdade.

— Está.

Jandira copiou a palavra para a ficha. O enunciado dizia:

ESCREVA UMA PALAVRA SOBRE SUA EXPERIÊNCIA NA ESCOLA.

Havia espaço para quatro linhas. Minha mãe deixou as outras três vazias.

— Joelma pediu uma só? — perguntei.

— Pediu o que está escrito.

— Uma palavra.

— Eu escolhi.

Diná desligou a torneira.

— A minha seria merenda.

— Você gostava da escola — disse Jandira.

— Gostava da merenda.

— Dá na mesma para criança.

Diná enxugou as mãos e saiu para levar o lixo. Minha mãe guardou a ficha dentro do caderno.

— Quer conversar sobre a palavra? — perguntei.

— Você pergunta isso para seus alunos?

— Quando a atividade permite.

— E se eles não quiserem?

— Eu respeito.

— Então respeita.

Voltei ao caixa.

Naquela noite, Jandira deixou o caderno sobre a mesa da cozinha e foi tomar banho. A ficha estava guardada. Não toquei. Preparei duas xícaras de café e abri meu computador.

Ela voltou de chinelos, sentou e viu as xícaras.

— Aula?

— Trabalho meu.

— E o café?

— Café.

Jandira tomou um gole. Abriu o caderno na seção PERGUNTAS. Abaixo de VERGONHA, acrescentou:

POR QUE EU DECOREI?

— Isso é pergunta para mim? — falei.

— É para eu responder.

Ela escreveu durante alguns minutos. A ponta do lápis quebrou. Apontei o apontador sem sair da cadeira. Jandira refez a ponta e continuou.

Quando terminou, virou o caderno em minha direção.

EU DECOREI PORQUE A PROFESSORA MANDAVA LER EM VOZ ALTA.

— Quer que eu corrija? — perguntei.

— Depois.

— Quer ler?

— Já li enquanto escrevia.

Ela puxou o caderno de volta.

— Eu tinha nove anos. A professora colocava a turma para ler um pedaço de uma história. Cada criança pegava uma parte. Eu sabia quando minha vez chegava.

— Você decorava o trecho.

— Ouvia os outros. Guardava minha frase. Quando chegava em mim, repetia.

— Funcionava?

— Durante um tempo.

Jandira girou o lápis entre os dedos.

— Um dia ela mandou começar duas linhas antes.

— Você repetiu a parte decorada.

— Repeti.

— E o que aconteceu?

— Ela perguntou onde eu estava lendo. Eu apontei qualquer lugar. Ela pegou meu dedo e levou para a linha certa. Mandou ler de novo.

Minha mãe pronunciava cada frase no mesmo tom. A mão segurava o lápis com força.

— Você conseguiu?

— Fiquei quieta.

— A professora ajudou?

— Mandou a turma esperar.

— Só isso?

— Esperaram.

Eu conhecia o peso de uma sala em silêncio diante de alguém que não encontra uma palavra. Já vira adolescentes pedirem para ir ao banheiro, derrubarem estojos, fingirem tosse. Também já mantivera turmas esperando por acreditar que o tempo produziria coragem.

— Quanto durou?

— Para mim, muito.

— Alguém riu?

— Um menino no fundo. A professora mandou parar.

— E depois?

— Ela falou que eu precisava estudar em casa em vez de decorar os colegas.

— Na frente da turma?

— Todo mundo estava esperando.

Jandira abriu a ficha e tocou a palavra.

— Vergonha.

— Você voltou no dia seguinte?

— Voltei. Minha mãe não aceitava falta.

— Quando saiu da escola?

— Meses depois. Minha tia conseguiu serviço para mim numa casa. Precisavam de alguém para lavar roupa e olhar duas crianças.

— Aos nove anos?

— Eu já tinha feito dez.

— Isso não melhora.

— Não contei para melhorar.

Ela recolheu a ficha.

— A senhora saiu para trabalhar.

— Saí.

— Então a vergonha não fez você abandonar.

— Ajudou a não pedir para ficar.

A resposta encerrou a distinção que eu tentava construir.

— Sua mãe sabia que você não lia?

— Sabia que eu não acompanhava. Ela também não lia. Achava que o tempo resolvia.

— E a professora?

— Depois daquele dia, me deixava por último.

— Para dar mais tempo?

— Talvez.

— A senhora acha que ela queria ajudar?

Jandira passou a unha sobre a borda da ficha.

— Não sei o que ela queria. Sei o que aconteceu.

Eu costumava procurar intenção para organizar culpa. Minha mãe recusava esse caminho. O efeito permanecia, mesmo sem uma vilã completa dentro da lembrança.

— Foi por isso que não quis pedir apoio de leitura na prova? — perguntei.

— É diferente.

— Alguém lendo diante de outras pessoas pode trazer aquela sala de volta.

— O apoio é individual.

— Pode trazer mesmo assim.

— Pode.

— Ainda quer decidir só perto do prazo?

— Quero.

— Certo.

Jandira virou a ficha e escreveu no verso:

EU VOLTEI PORQUE QUERO LER PARA MIM.

Leu em voz baixa. Depois repetiu em volume normal.

— Essa é a correção da atividade? — perguntei.

— É outra resposta.

— Para qual pergunta?

— Por que voltou.

Ela passou a folha para mim.

— Agora corrige.

A frase estava correta. Apontei apenas o espaço excessivo entre duas palavras.

— Só isso?

— Só.

— Está com pena?

— Estou respeitando o que está escrito.

Jandira releu as duas frases. Copiou a segunda para a ficha, abaixo de VERGONHA. Ainda restavam duas linhas.

— Vai preencher tudo? — perguntei.

— Hoje, não.

Guardou a ficha na seção CURSO e manteve o caderno aberto.

— Amanhã quero aprender a escrever “coragem”.

— Por causa da atividade?

— Porque tem G antes de E.

— O som muda.

— Eu sei. Quero saber escrever.

Peguei uma folha solta e escrevi CORAGEM. Jandira copiou na seção PERGUNTAS, abaixo de VERGONHA.

As duas palavras ficaram uma sob a outra, sem seta, oposição ou explicação.

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