A Prova de Novembro A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 6 de 23
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A Prova de Novembro

Na segunda-feira, o terminal fechou duas plataformas para a reunião do curso.

Trinta e duas pessoas ocuparam cadeiras de plástico diante de uma tela montada perto das bilheterias. Havia cozinheiras, balconistas, auxiliares de limpeza, vendedores, dois gerentes de lanchonete e um homem que empurrava um carrinho de salgados entre os ônibus. Cada participante recebeu uma pasta, um crachá e um folheto com o calendário das doze semanas.

Minha mãe sentou na segunda fila.

Eu fiquei perto da lotérica, fora do grupo. Jandira aceitara minha presença desde que eu não me aproximasse sem ser chamada. Levei o computador e fingi trabalhar numa mesa de metal. Daquela distância, conseguia vê-la abrir a pasta, comparar o crachá com a lista do calendário e guardar o folheto sem pedir ajuda.

A coordenadora do curso se apresentou, explicou os encontros presenciais e mostrou a plataforma digital. Falava ao microfone, acompanhada por slides cheios de frases pequenas. Minha mãe mantinha os olhos na tela. Quando os demais riam, ela ria depois. Quando pediam que localizassem alguma informação no folheto, Jandira observava o movimento das mãos ao redor antes de abrir na página certa.

Ninguém demonstrou notar.

Na metade da reunião, a coordenadora anunciou a avaliação final.

— Será no dia dezoito de novembro, às nove horas, aqui no terminal. Teremos vinte questões e uma atividade prática.

Jandira retirou uma caneta do bolso e circulou a data no calendário.

— Quem precisar de apoio de leitura, mobilidade ou uso do sistema pode solicitar atendimento individual. O pedido fica reservado com a equipe do curso.

Minha mãe parou de escrever.

A coordenadora explicou que o apoio poderia incluir leitura oral das questões, tempo adicional, fonte ampliada e auxílio para navegar na tela. Bastava assinalar uma opção no formulário de cadastro.

Vi quando Jandira encontrou a folha. Segurou o papel por alguns segundos e o virou para baixo.

Depois da apresentação, formou-se uma fila perto da mesa da equipe. Alguns participantes entregaram documentos. Outros perguntaram sobre horários. Minha mãe permaneceu sentada até o corredor abrir. Guardou a pasta na sacola e voltou ao balcão.

Esperei vinte minutos antes de me aproximar.

— Quer café? — perguntou.

— Quero.

Ela serviu uma xícara pequena.

— Como foi?

— Você estava olhando.

— Não ouvi tudo.

— Doze semanas. Terça de manhã pelo telefone, sexta aqui. Prova dia dezoito.

— E o apoio?

Jandira colocou a garrafa no lugar.

— Que apoio?

— Leitura das questões.

— Ouvi.

— Você vai solicitar?

— Não.

— Por quê?

Ela cobrou o café de um passageiro, devolveu troco e esperou que ele saísse.

— Quero fazer a prova.

— Continua sendo sua prova se alguém ler.

— A voz será de outra pessoa.

— Isso não muda seu conhecimento sobre alimentos.

— Eu sei o que conheço. Quero ler o que perguntarem.

— Doze semanas podem não ser suficientes para vinte questões.

Minha mãe apoiou as mãos no balcão.

— Você veio porque eu disse doze.

— Vim para ensinar. Não prometi um resultado específico.

— Eu também não prometi passar.

A resposta retirou parte da minha urgência. Jandira pegou o folheto e colocou diante de mim.

— Lê esta parte.

O trecho descrevia o formato da avaliação. Quinze questões de escolha única, cinco situações com embalagens, temperaturas, armazenamento e contaminação cruzada. A atividade prática avaliaria higiene das mãos, separação de utensílios e conferência de validade.

— A parte prática você domina — falei.

— Algumas perguntas também.

— Como sabe?

Ela virou a página. Havia três exemplos.

O primeiro mostrava quatro temperaturas e perguntava qual era adequada para manter alimentos quentes. Minha mãe identificou os números, apontou sessenta graus e explicou que abaixo disso a comida perdia segurança.

O segundo exibia duas prateleiras de geladeira. Ela escolheu a imagem que mantinha carne crua abaixo dos alimentos prontos.

O terceiro não tinha ilustração:

ASSINALE A ALTERNATIVA QUE APRESENTA UM ALERGÊNICO DE DECLARAÇÃO OBRIGATÓRIA.

Jandira tocou a frase.

— Aqui eu paro.

— Reconhece alguma palavra?

— Um. A. Que.

— Mais alguma?

Ela procurou.

— Tem “de” aqui?

— Tem.

— Então quatro.

— E o que a questão pede?

— Não sei.

Li em voz alta. As alternativas traziam leite, água, sal e açúcar. Minha mãe marcou leite.

— Acertou.

— Porque você leu.

— E porque sabe a resposta.

— Na prova preciso das duas partes.

Ela guardou o papel.

— O que quer aprender primeiro?

— As palavras que mandam fazer alguma coisa. Assinale. Marque. Escolha. Leia. Veja. Escreva.

— Ótimo.

— Ótimo por quê?

— Você identificou uma categoria útil.

— Categoria é um nome comprido para lista?

— Neste caso, quase isso.

Jandira serviu outro cliente. Quando voltou, trouxe o caderno amarelo.

— Escreve as seis.

Escrevi uma palavra por linha:

ASSINALE

MARQUE

ESCOLHA

LEIA

VEJA

ESCREVA

Minha mãe leu as duas que já reconhecia: LEIA e VEJA. Confundiu MARQUE com MARCA, palavra vista em embalagens. Pedi que procurasse o início repetido. Ela cobriu as últimas letras com o dedo.

— Mar.

— Continue.

— Mar-que.

— Marque.

Jandira repetiu e circulou QUE.

— É o mesmo “que” da pergunta.

— Exato.

— Então essa palavra tem uma palavra dentro.

— Tem uma sequência igual. O som muda de função.

Ela olhou para mim.

— Você consegue explicar depois sem estragar agora?

— Consigo.

— Então deixa eu usar o que encontrei.

Concordei.

Jandira procurou QUE em outras palavras. Encontrou no fim de MARQUE e no meio de qualquer, impressa numa propaganda do outro lado do corredor. Errou ao apontar uma sequência parecida em QUENTE, percebeu a troca e corrigiu.

— O N entrou no lugar do quê?

— Não entrou no lugar. A palavra segue outro caminho depois do E.

— Caminho eu entendo.

Ela copiou MARQUE duas vezes. Na terceira, escreveu sem consultar.

— Marque — leu.

Um motorista pediu almoço. Jandira fechou o caderno e começou a montar o prato. A reunião terminara, e os participantes voltavam aos seus postos carregando pastas iguais. Alguns comentavam que a prova seria fácil. Outros reclamavam do aplicativo.

— A coordenadora fica até as quatro — avisei. — Você pode pedir apoio e cancelar depois.

Minha mãe colocou frango no prato.

— Se em novembro eu não conseguir ler, peço antes do prazo.

— Qual prazo?

— Está no papel.

— Você sabe a data?

— Ainda não.

— Então precisamos conferir.

Ela entregou o prato ao motorista e retirou o calendário da pasta. Localizamos a informação: solicitações até dez dias antes da prova.

Jandira contou os dias no calendário e desenhou um quadrado.

— Aqui eu decido.

— Podemos acompanhar seu progresso até lá.

— Podemos. A decisão continua minha.

— Continua.

Minha mãe escreveu APOIO ao lado do quadrado. Pediu ajuda para o I. Depois escreveu PROVA no dia dezoito sem consultar.

— Já sabia essa palavra?

— Vi em boletim a vida toda.

— E nunca colocou na lista.

— A lista é das palavras que quero usar. Prova eu queria esquecer.

Fechou a pasta e voltou ao trabalho.

Naquela noite, encontrei o calendário aberto na mesa da cozinha. Jandira fizera uma cópia das seis palavras de comando numa folha e marcara MARQUE com um círculo. Ao lado, escrevera LEITE em letras grandes.

MARQUE LEITE.

A frase não correspondia a nenhuma questão. Cumpria a ordem que ela já conseguia ler.

Peguei uma caneta e acrescentei quatro opções abaixo: ÁGUA, SAL, LEITE, AÇÚCAR. Não assinalei a resposta.

Jandira apareceu no corredor, já de camisola.

— Está fazendo prova para mim?

— Uma questão.

Ela sentou, leu MARQUE devagar e percorreu as opções. Reconheceu LEITE. Fez um X ao lado.

— Passei?

— Nessa, sim.

— Então falta dezenove.

— Faltam doze semanas.

Minha mãe corrigiu:

— Onze semanas e seis dias.

Pegou o calendário, contou outra vez e levou a questão para o quarto.

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