A Falta
Na sexta-feira, Jandira não atendeu ao encontro do curso.
O telefone tocou às dez, apoiado perto do caixa. Ela leu o nome da coordenadora na tela, silenciou a chamada e continuou cortando frango.
— Vai retornar depois? — perguntei.
— Não.
— É parte do curso.
— Eu sei.
— Pode pedir para remarcar.
— Eu sei.
Diná entrou no depósito antes que a conversa crescesse.
— A prova continua marcada — falei.
— Eu sei.
— Quer que eu pare?
— Quero.
Parei.
Naquela noite, Jandira não abriu o caderno amarelo. Ligou o rádio enquanto preparava o jantar. Eu trabalhei no quarto.
No sábado, ela abriu o balcão no horário habitual. Duas pessoas mencionaram o vídeo. Uma pediu desculpas antes de perguntar sobre a torta. A outra contou que a avó também não sabia ler. Minha mãe respondeu somente ao pedido de comida.
O cartão dos alergênicos continuava exposto.
À tarde, coloquei uma folha solta sobre a mesa da cozinha. Tinha preparado seis frases curtas com palavras do curso. Jandira encontrou a página e a trouxe até mim.
— O que é?
— Material para quando quiser voltar.
— Eu pedi?
— Não precisa usar agora.
— Pedi para parar.
— Parei a aula. A folha fica disponível.
Ela rasgou a página uma vez, no meio, e colocou as duas partes sobre meu computador.
— Parar inclui não preparar.
— Eu faço isso para todos os meus alunos.
— Eu não sou todos.
— Eu sei.
— Então demonstra.
Recolhi os pedaços e joguei no lixo.
Na terça-feira, Jandira vestiu a roupa usada para a Sala Três. Guardou o caderno na bolsa, prendeu o cabelo e saiu de casa às seis e meia. Pensei que a interrupção terminara.
Às sete e dez, encontrei-a no balcão.
— O que aconteceu?
— Nada.
— A aula começou.
— Eu não fui.
— Você saiu com o caderno.
— Vim trabalhar.
O rapaz da noite estava do lado de dentro. Jandira pedira que ele trocasse o turno. Duas panelas aqueciam no fogão para o movimento dos ônibus noturnos.
— Por que se arrumou para a aula?
— Porque eu quis.
— Chegou até aqui e desistiu?
— Cássia.
— Só quero entender.
— Então entende em silêncio.
Fiquei no terminal durante meia hora. Nenhum cliente apareceu. Jandira organizou sachês e conferiu datas nas caixas. Eu me sentei numa mesa, distante do balcão, até ela colocar um café diante de mim.
— Volta para casa — disse.
— Posso esperar.
— Não estou pedindo companhia.
Peguei minha bolsa.
— Joelma vai perguntar.
— Ela pergunta para mim.
— Se a senhora falar com ela.
— Ela sabe onde trabalho.
Saí.
Joelma não apareceu naquela noite. Também não telefonou para mim. Eu tinha seu contato no grupo aberto da turma e escrevi uma mensagem sem enviar:
“Jandira faltou por causa do vídeo. Existe alguma atividade que ela possa fazer em casa?”
Li duas vezes. Apaguei.
Na quarta-feira, minha mãe trabalhou, ouviu o rádio e foi à farmácia buscar o disco. À noite, colocou a coletânea para tocar na casa da farmacêutica. Voltou contando que o aparelho pulava a terceira música. Não mencionou a turma.
Na quinta, recusou nossa aula particular.
— Quer usar o horário para outra coisa? — perguntei.
— Quero descansar.
— Posso fazer jantar.
— Pode.
Cozinhei arroz, feijão e abobrinha. Jandira comeu, agradeceu e lavou os pratos. Conseguimos atravessar a noite sem transformar comida em exercício.
Na sexta, o telefone do curso tocou novamente. Minha mãe atendeu.
— Bom dia.
Ouvi apenas as respostas dela.
— Não participei.
— Recebi.
— Ainda não decidi.
— Eu ligo.
Encerrou.
— Era a coordenadora?
— Era.
— O que ainda não decidiu?
— Se continuo.
— No curso?
— No curso, na Sala Três, nas aulas aqui.
— Tudo?
— Tudo que fez gente aparecer no meu balcão para olhar minha boca.
— O vídeo fez isso.
— O vídeo só tinha assunto porque eu estava aprendendo.
— Então vai abrir mão do que queria por causa deles?
Jandira colocou o telefone na prateleira.
— Não use essa voz.
— Que voz?
— A que conta minha vida no fim de uma palestra.
Reconheci o tom que eu empregava com estudantes perto de desistir. Eu pretendia devolver força. Diante de minha mãe, a frase transformava a decisão dela numa prova de caráter.
— Desculpe.
— Você sempre quer que eu continue.
— Quero.
— Eu quero poder parar.
— Pode.
A resposta doeu ao sair.
— Então acabou? — perguntei.
— Eu não disse isso.
— Preciso saber como agir.
— Não age.
— Por quanto tempo?
— Até eu pedir.
Respeitei durante três dias.
No quarto, continuei trabalhando. No terminal, ajudava no caixa somente quando Jandira chamava. Em casa, falávamos de compras, horários, comida e rádio. Nenhuma folha apareceu sobre a mesa.
Na terça seguinte, ela voltou a vestir a roupa da Sala Três. Colocou o caderno na bolsa e saiu no horário.
Esperei até as nove.
Jandira chegou às nove e vinte. O caderno continuava preso pelo elástico. A ficha de presença, que a turma recebia na entrada, não estava em sua mão.
— Faltou de novo? — perguntei.
— Fiquei no banco perto da plataforma.
— Durante duas horas?
— Durante duas horas.
— Por quê?
— Porque consegui chegar até lá.
— E entrar?
— Não.
— Alguém viu?
— Muita gente passa no terminal.
— Alguém do vídeo?
— Não sei.
Ela retirou o caderno da bolsa e guardou na gaveta da cozinha.
— Posso ajudar em alguma coisa?
— Pode não transformar hoje em avanço.
— Certo.
Jandira abriu a geladeira, bebeu água e permaneceu de costas para mim.
— E eu? — perguntei.
— O que tem você?
— Ainda quer que eu fique?
Ela colocou o copo na pia.
— Você veio por doze semanas.
— Isso é o acordo.
— É o que consigo responder.
— E as aulas?
— Não temos aula.
— Até quando?
— Cássia.
Esperei.
— Se ficar, fica sem me ensinar.
— Eu fico.
Jandira ligou o rádio. A terceira música do disco tocava na estação, inteira e sem falhas. Sentamos em lados opostos da cozinha até ela terminar.