A Falta A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 17 de 23
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A Falta

Na sexta-feira, Jandira não atendeu ao encontro do curso.

O telefone tocou às dez, apoiado perto do caixa. Ela leu o nome da coordenadora na tela, silenciou a chamada e continuou cortando frango.

— Vai retornar depois? — perguntei.

— Não.

— É parte do curso.

— Eu sei.

— Pode pedir para remarcar.

— Eu sei.

Diná entrou no depósito antes que a conversa crescesse.

— A prova continua marcada — falei.

— Eu sei.

— Quer que eu pare?

— Quero.

Parei.

Naquela noite, Jandira não abriu o caderno amarelo. Ligou o rádio enquanto preparava o jantar. Eu trabalhei no quarto.

No sábado, ela abriu o balcão no horário habitual. Duas pessoas mencionaram o vídeo. Uma pediu desculpas antes de perguntar sobre a torta. A outra contou que a avó também não sabia ler. Minha mãe respondeu somente ao pedido de comida.

O cartão dos alergênicos continuava exposto.

À tarde, coloquei uma folha solta sobre a mesa da cozinha. Tinha preparado seis frases curtas com palavras do curso. Jandira encontrou a página e a trouxe até mim.

— O que é?

— Material para quando quiser voltar.

— Eu pedi?

— Não precisa usar agora.

— Pedi para parar.

— Parei a aula. A folha fica disponível.

Ela rasgou a página uma vez, no meio, e colocou as duas partes sobre meu computador.

— Parar inclui não preparar.

— Eu faço isso para todos os meus alunos.

— Eu não sou todos.

— Eu sei.

— Então demonstra.

Recolhi os pedaços e joguei no lixo.

Na terça-feira, Jandira vestiu a roupa usada para a Sala Três. Guardou o caderno na bolsa, prendeu o cabelo e saiu de casa às seis e meia. Pensei que a interrupção terminara.

Às sete e dez, encontrei-a no balcão.

— O que aconteceu?

— Nada.

— A aula começou.

— Eu não fui.

— Você saiu com o caderno.

— Vim trabalhar.

O rapaz da noite estava do lado de dentro. Jandira pedira que ele trocasse o turno. Duas panelas aqueciam no fogão para o movimento dos ônibus noturnos.

— Por que se arrumou para a aula?

— Porque eu quis.

— Chegou até aqui e desistiu?

— Cássia.

— Só quero entender.

— Então entende em silêncio.

Fiquei no terminal durante meia hora. Nenhum cliente apareceu. Jandira organizou sachês e conferiu datas nas caixas. Eu me sentei numa mesa, distante do balcão, até ela colocar um café diante de mim.

— Volta para casa — disse.

— Posso esperar.

— Não estou pedindo companhia.

Peguei minha bolsa.

— Joelma vai perguntar.

— Ela pergunta para mim.

— Se a senhora falar com ela.

— Ela sabe onde trabalho.

Saí.

Joelma não apareceu naquela noite. Também não telefonou para mim. Eu tinha seu contato no grupo aberto da turma e escrevi uma mensagem sem enviar:

“Jandira faltou por causa do vídeo. Existe alguma atividade que ela possa fazer em casa?”

Li duas vezes. Apaguei.

Na quarta-feira, minha mãe trabalhou, ouviu o rádio e foi à farmácia buscar o disco. À noite, colocou a coletânea para tocar na casa da farmacêutica. Voltou contando que o aparelho pulava a terceira música. Não mencionou a turma.

Na quinta, recusou nossa aula particular.

— Quer usar o horário para outra coisa? — perguntei.

— Quero descansar.

— Posso fazer jantar.

— Pode.

Cozinhei arroz, feijão e abobrinha. Jandira comeu, agradeceu e lavou os pratos. Conseguimos atravessar a noite sem transformar comida em exercício.

Na sexta, o telefone do curso tocou novamente. Minha mãe atendeu.

— Bom dia.

Ouvi apenas as respostas dela.

— Não participei.

— Recebi.

— Ainda não decidi.

— Eu ligo.

Encerrou.

— Era a coordenadora?

— Era.

— O que ainda não decidiu?

— Se continuo.

— No curso?

— No curso, na Sala Três, nas aulas aqui.

— Tudo?

— Tudo que fez gente aparecer no meu balcão para olhar minha boca.

— O vídeo fez isso.

— O vídeo só tinha assunto porque eu estava aprendendo.

— Então vai abrir mão do que queria por causa deles?

Jandira colocou o telefone na prateleira.

— Não use essa voz.

— Que voz?

— A que conta minha vida no fim de uma palestra.

Reconheci o tom que eu empregava com estudantes perto de desistir. Eu pretendia devolver força. Diante de minha mãe, a frase transformava a decisão dela numa prova de caráter.

— Desculpe.

— Você sempre quer que eu continue.

— Quero.

— Eu quero poder parar.

— Pode.

A resposta doeu ao sair.

— Então acabou? — perguntei.

— Eu não disse isso.

— Preciso saber como agir.

— Não age.

— Por quanto tempo?

— Até eu pedir.

Respeitei durante três dias.

No quarto, continuei trabalhando. No terminal, ajudava no caixa somente quando Jandira chamava. Em casa, falávamos de compras, horários, comida e rádio. Nenhuma folha apareceu sobre a mesa.

Na terça seguinte, ela voltou a vestir a roupa da Sala Três. Colocou o caderno na bolsa e saiu no horário.

Esperei até as nove.

Jandira chegou às nove e vinte. O caderno continuava preso pelo elástico. A ficha de presença, que a turma recebia na entrada, não estava em sua mão.

— Faltou de novo? — perguntei.

— Fiquei no banco perto da plataforma.

— Durante duas horas?

— Durante duas horas.

— Por quê?

— Porque consegui chegar até lá.

— E entrar?

— Não.

— Alguém viu?

— Muita gente passa no terminal.

— Alguém do vídeo?

— Não sei.

Ela retirou o caderno da bolsa e guardou na gaveta da cozinha.

— Posso ajudar em alguma coisa?

— Pode não transformar hoje em avanço.

— Certo.

Jandira abriu a geladeira, bebeu água e permaneceu de costas para mim.

— E eu? — perguntei.

— O que tem você?

— Ainda quer que eu fique?

Ela colocou o copo na pia.

— Você veio por doze semanas.

— Isso é o acordo.

— É o que consigo responder.

— E as aulas?

— Não temos aula.

— Até quando?

— Cássia.

Esperei.

— Se ficar, fica sem me ensinar.

— Eu fico.

Jandira ligou o rádio. A terceira música do disco tocava na estação, inteira e sem falhas. Sentamos em lados opostos da cozinha até ela terminar.

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