O Caderno Amarelo A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 12 de 23
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O Caderno Amarelo

Na quinta-feira, Jandira arrancou seis páginas do caderno amarelo.

O som me levou até a cozinha. As folhas estavam empilhadas ao lado de uma régua, uma borracha, dois lápis e quatro tiras de papel recortadas de uma embalagem de arroz.

— O que aconteceu?

— Ficou ruim.

Peguei a primeira página retirada. Era a avaliação que eu preparara para nossa aula inicial. Havia perguntas, sinais vermelhos e palavras minhas ocupando os espaços em branco.

— Você vai jogar fora?

— Vou usar para lista de compra.

— E as anotações?

— São suas.

As outras páginas guardavam explicações sobre sílabas, exercícios com palavras escolhidas por mim e duas tabelas de acompanhamento. Eu registrara data, acertos, tentativas e observações em letras pequenas.

— Isso mostra seu progresso.

— Mostra você me medindo.

— Parei de fazer aquelas avaliações.

— A escrita continua aqui.

Ela abriu o caderno na primeira página preservada. JANDIRA e CÁSSIA ocupavam o alto. Abaixo, as palavras do cardápio apareciam com a letra de minha mãe.

— Daqui eu gosto.

Virou outra folha. Nela, eu explicara a diferença entre MARQUE e MARCA.

— Aqui você escreveu mais que eu.

— Posso passar a explicação para uma folha separada.

— Pode levar.

Sentei diante dela.

— O que pretende fazer?

Jandira alinhou as quatro tiras de papel.

— Dividir.

Na primeira, escreveu TRABALHO.

Na segunda, CURSO.

Na terceira, PERGUNTAS.

Na última, CONTAS.

— Quatro partes — disse.

— O caderno tem páginas suficientes?

— Contei.

Ela marcara quatro pontos na lateral das folhas restantes. Vinte páginas para trabalho, vinte para curso, doze para perguntas e oito para contas. Os espaços finais ficariam livres.

— Posso sugerir uma parte para textos?

— Pode.

— Uma página inteira precisa de lugar.

— Texto entra em curso.

— E quando você escrever algo fora do curso?

— Aí eu decido.

Assenti.

Jandira passou cola numa ponta das tiras e fixou cada uma numa página. As palavras formaram abas irregulares. TRABALHO aparecia primeiro. CONTAS quase se escondia no fim.

— Agora tem uma regra — disse.

— Qual?

Ela pegou a caneta e escreveu na parte interna da capa:

CÁSSIA ESCREVE EM FOLHA.

— Faltou “separada” — observei.

Minha mãe olhou para mim.

— A frase acabou?

Eu repetira o erro da Sala Três.

— Não.

Ela continuou:

CÁSSIA ESCREVE EM FOLHA SOLTA.

— Agora acabou.

— Está claro.

— Eu escrevo no caderno. Você escreve fora. Se eu quiser, copio.

— E as correções?

— Você fala.

— Algumas precisam ficar visíveis.

— Escreve na folha.

— Certo.

— Certo de verdade ou certo de professora?

— Certo de verdade.

Jandira empurrou as seis páginas retiradas para mim.

— Leva o que é seu.

A frase atingiu um lugar antigo. Aos dezessete anos, eu ouvira variações dela enquanto colocava roupas numa mochila grande demais. Leva os livros. Leva o casaco. Leva o que é seu. Minha mãe percebeu a mudança em meu rosto.

— São papéis — disse.

— Eu sei.

— Não estou mandando você embora.

— Eu sei.

Ela não suavizou a regra. Eu também não pedi.

Peguei uma pasta transparente no quarto e guardei as folhas. Na capa, escrevi MATERIAL DE APOIO. Quando voltei, Jandira já preenchia a seção TRABALHO.

Copiara as palavras do cardápio e acrescentara:

VALIDADE.

REFRIGERADO.

HIGIENE.

ALERGÊNICO.

Na última, faltava o segundo E. Coloquei uma folha solta ao lado e escrevi a palavra correta. Não apontei o erro.

Jandira comparou as duas. Acrescentou o E no caderno.

— Assim funciona — disse.

— Funciona.

Na parte CURSO, ela colou uma cópia reduzida do calendário. Escreveu PROVA ao lado do dia dezoito de novembro e APOIO dez dias antes. Depois registrou as seis palavras de comando.

Na seção PERGUNTAS, anotou:

POR QUE G MUDA DE SOM?

POR QUE H NÃO FALA?

COMO SABER ONDE TEM ACENTO?

— Essas três vão levar tempo — avisei.

— Tenho páginas.

— E oito semanas.

— Sete e quatro dias.

— Você está contando.

— Todo dia.

Na seção CONTAS, refez o caminho do troco de cinquenta para uma compra de trinta e sete. Abaixo, criou outro exemplo:

COMPRA 23.

PAGOU 100.

23 → 30 = 7.

30 → 100 = 70.

TROCO 77.

— Está certo? — perguntou.

— Quer que eu confira?

— Perguntei.

— Está certo.

Jandira colocou a data no alto da página.

— Agora quero copiar a lista da professora Joelma.

— Qual lista?

— As palavras da Sala Três.

Eu pegaria o caderno por hábito. Minha mão chegou à metade da mesa e parou. Retirei uma folha da pasta transparente.

— Dite as que lembra.

— Refrigerado. Desconto. Embarque. Contrata. Economia. Plataforma.

Escrevi as seis na folha solta. Jandira copiou uma por uma na parte CURSO. Em EMBARQUE, esqueceu o R. Comparou e corrigiu. Em ECONOMIA, trocou I e A no final, apagou e refez.

— Pode escrever menor — sugeri. — Assim cabem mais palavras.

— Minha letra cabe.

Ela tinha razão. A última palavra terminou antes da margem.

Depois do jantar, levou o caderno para a sala. Eu abri o computador na cozinha. Trabalhamos em cômodos diferentes por quase uma hora.

Jandira voltou com uma página preenchida.

— Lê.

Na seção PERGUNTAS, ela escrevera:

QUAIS PALAVRAS EU LEIO SEM AJUDA?

Abaixo, havia vinte e três itens. Café, leite, ovo, arroz, frango, suco, marque, leia, veja, prova, apoio, validade, trabalho, dinheiro, folha, colher, mãos, limpe, papel, secar, troco, data e geladeira.

— Você testou todas?

— Li para mim.

— Quer testar comigo?

— Amanhã.

Ela fechou o caderno e passou o elástico em volta da capa.

— Hoje eu queria organizar.

— Organizou.

— Amanhã você confere.

— Em folha solta.

— Está aprendendo.

Jandira guardou o caderno na bolsa usada para a Sala Três. A pasta com minhas páginas ficou sobre a mesa.

Antes de ir para o quarto, abriu a capa e releu a regra.

— Cássia escreve em folha solta.

— Eu ouvi.

— Estou treinando a leitura.

— Então leia outra vez.

Ela leu. Eu permaneci do lado de fora do caderno.

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