O Caderno Amarelo
Na quinta-feira, Jandira arrancou seis páginas do caderno amarelo.
O som me levou até a cozinha. As folhas estavam empilhadas ao lado de uma régua, uma borracha, dois lápis e quatro tiras de papel recortadas de uma embalagem de arroz.
— O que aconteceu?
— Ficou ruim.
Peguei a primeira página retirada. Era a avaliação que eu preparara para nossa aula inicial. Havia perguntas, sinais vermelhos e palavras minhas ocupando os espaços em branco.
— Você vai jogar fora?
— Vou usar para lista de compra.
— E as anotações?
— São suas.
As outras páginas guardavam explicações sobre sílabas, exercícios com palavras escolhidas por mim e duas tabelas de acompanhamento. Eu registrara data, acertos, tentativas e observações em letras pequenas.
— Isso mostra seu progresso.
— Mostra você me medindo.
— Parei de fazer aquelas avaliações.
— A escrita continua aqui.
Ela abriu o caderno na primeira página preservada. JANDIRA e CÁSSIA ocupavam o alto. Abaixo, as palavras do cardápio apareciam com a letra de minha mãe.
— Daqui eu gosto.
Virou outra folha. Nela, eu explicara a diferença entre MARQUE e MARCA.
— Aqui você escreveu mais que eu.
— Posso passar a explicação para uma folha separada.
— Pode levar.
Sentei diante dela.
— O que pretende fazer?
Jandira alinhou as quatro tiras de papel.
— Dividir.
Na primeira, escreveu TRABALHO.
Na segunda, CURSO.
Na terceira, PERGUNTAS.
Na última, CONTAS.
— Quatro partes — disse.
— O caderno tem páginas suficientes?
— Contei.
Ela marcara quatro pontos na lateral das folhas restantes. Vinte páginas para trabalho, vinte para curso, doze para perguntas e oito para contas. Os espaços finais ficariam livres.
— Posso sugerir uma parte para textos?
— Pode.
— Uma página inteira precisa de lugar.
— Texto entra em curso.
— E quando você escrever algo fora do curso?
— Aí eu decido.
Assenti.
Jandira passou cola numa ponta das tiras e fixou cada uma numa página. As palavras formaram abas irregulares. TRABALHO aparecia primeiro. CONTAS quase se escondia no fim.
— Agora tem uma regra — disse.
— Qual?
Ela pegou a caneta e escreveu na parte interna da capa:
CÁSSIA ESCREVE EM FOLHA.
— Faltou “separada” — observei.
Minha mãe olhou para mim.
— A frase acabou?
Eu repetira o erro da Sala Três.
— Não.
Ela continuou:
CÁSSIA ESCREVE EM FOLHA SOLTA.
— Agora acabou.
— Está claro.
— Eu escrevo no caderno. Você escreve fora. Se eu quiser, copio.
— E as correções?
— Você fala.
— Algumas precisam ficar visíveis.
— Escreve na folha.
— Certo.
— Certo de verdade ou certo de professora?
— Certo de verdade.
Jandira empurrou as seis páginas retiradas para mim.
— Leva o que é seu.
A frase atingiu um lugar antigo. Aos dezessete anos, eu ouvira variações dela enquanto colocava roupas numa mochila grande demais. Leva os livros. Leva o casaco. Leva o que é seu. Minha mãe percebeu a mudança em meu rosto.
— São papéis — disse.
— Eu sei.
— Não estou mandando você embora.
— Eu sei.
Ela não suavizou a regra. Eu também não pedi.
Peguei uma pasta transparente no quarto e guardei as folhas. Na capa, escrevi MATERIAL DE APOIO. Quando voltei, Jandira já preenchia a seção TRABALHO.
Copiara as palavras do cardápio e acrescentara:
VALIDADE.
REFRIGERADO.
HIGIENE.
ALERGÊNICO.
Na última, faltava o segundo E. Coloquei uma folha solta ao lado e escrevi a palavra correta. Não apontei o erro.
Jandira comparou as duas. Acrescentou o E no caderno.
— Assim funciona — disse.
— Funciona.
Na parte CURSO, ela colou uma cópia reduzida do calendário. Escreveu PROVA ao lado do dia dezoito de novembro e APOIO dez dias antes. Depois registrou as seis palavras de comando.
Na seção PERGUNTAS, anotou:
POR QUE G MUDA DE SOM?
POR QUE H NÃO FALA?
COMO SABER ONDE TEM ACENTO?
— Essas três vão levar tempo — avisei.
— Tenho páginas.
— E oito semanas.
— Sete e quatro dias.
— Você está contando.
— Todo dia.
Na seção CONTAS, refez o caminho do troco de cinquenta para uma compra de trinta e sete. Abaixo, criou outro exemplo:
COMPRA 23.
PAGOU 100.
23 → 30 = 7.
30 → 100 = 70.
TROCO 77.
— Está certo? — perguntou.
— Quer que eu confira?
— Perguntei.
— Está certo.
Jandira colocou a data no alto da página.
— Agora quero copiar a lista da professora Joelma.
— Qual lista?
— As palavras da Sala Três.
Eu pegaria o caderno por hábito. Minha mão chegou à metade da mesa e parou. Retirei uma folha da pasta transparente.
— Dite as que lembra.
— Refrigerado. Desconto. Embarque. Contrata. Economia. Plataforma.
Escrevi as seis na folha solta. Jandira copiou uma por uma na parte CURSO. Em EMBARQUE, esqueceu o R. Comparou e corrigiu. Em ECONOMIA, trocou I e A no final, apagou e refez.
— Pode escrever menor — sugeri. — Assim cabem mais palavras.
— Minha letra cabe.
Ela tinha razão. A última palavra terminou antes da margem.
Depois do jantar, levou o caderno para a sala. Eu abri o computador na cozinha. Trabalhamos em cômodos diferentes por quase uma hora.
Jandira voltou com uma página preenchida.
— Lê.
Na seção PERGUNTAS, ela escrevera:
QUAIS PALAVRAS EU LEIO SEM AJUDA?
Abaixo, havia vinte e três itens. Café, leite, ovo, arroz, frango, suco, marque, leia, veja, prova, apoio, validade, trabalho, dinheiro, folha, colher, mãos, limpe, papel, secar, troco, data e geladeira.
— Você testou todas?
— Li para mim.
— Quer testar comigo?
— Amanhã.
Ela fechou o caderno e passou o elástico em volta da capa.
— Hoje eu queria organizar.
— Organizou.
— Amanhã você confere.
— Em folha solta.
— Está aprendendo.
Jandira guardou o caderno na bolsa usada para a Sala Três. A pasta com minhas páginas ficou sobre a mesa.
Antes de ir para o quarto, abriu a capa e releu a regra.
— Cássia escreve em folha solta.
— Eu ouvi.
— Estou treinando a leitura.
— Então leia outra vez.
Ela leu. Eu permaneci do lado de fora do caderno.