Sábado sem Aula A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 14 de 23
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Sábado sem Aula

No sábado, Jandira fechou o balcão às duas da tarde e anunciou:

— Hoje não tem aula.

— Temos aula no domingo.

— Hoje também não tem conversa sobre a aula de domingo.

Ela tirou o avental, guardou a pochete e entregou a Diná uma sacola com pão, café e um pacote embrulhado em papel vermelho.

— Feliz aniversário.

Diná apertou o pacote.

— Posso abrir?

— Presente é seu.

Dentro havia uma bolsa preta com três divisões e um chaveiro de borracha preso ao zíper. Diná colocou no ombro, observou o tamanho no reflexo da vitrine e abriu cada compartimento.

— Cabe meu uniforme.

— E suas marmitas — disse Jandira.

— Não vou misturar.

— Por isso tem divisão.

Diná abraçou minha mãe. Depois me mostrou a etiqueta pendurada na alça.

— Quanto custou?

— Não sei — respondi.

— A professora não participou?

— Fui excluída da operação.

Jandira recolheu a etiqueta.

— Por perguntar demais.

Diná guardou o presente no armário e saiu para encontrar a família. Eu comecei a limpar o balcão.

— Larga isso — disse minha mãe.

— Ainda tem louça.

— O rapaz da noite limpa.

— O rapaz da noite existe?

— Existe desde que você parou de ir embora antes das quatro.

— Nunca vi.

— Por isso mesmo.

Jandira pegou minha bolsa e colocou no meu ombro.

— Vamos.

— Para onde?

— Você pergunta demais.

Saímos pela plataforma seis e atravessamos a passarela. Minha mãe não seguiu na direção de casa. Entrou num ônibus para o centro e pagou nossas passagens.

— É sequestro? — perguntei.

— Sequestro exige silêncio. Você não consegue.

Sentamos perto da janela. Jandira indicou lojas fechadas, uma praça reformada e o prédio onde funcionara meu primeiro curso de datilografia. Eu não lembrava das teclas duras nem das fileiras de máquinas. Ela lembrava do preço das mensalidades e do mês em que pedi para sair.

— Eu odiava aquilo?

— Odiava a professora bater na mesa.

— Por que me matriculou?

— Você disse que computador ia dar emprego.

— Eu tinha doze anos.

— Falava com certeza.

— Continuo fazendo isso.

— Eu percebi.

Descemos perto do Mercado Municipal. O sábado reunia barracas de roupas, utensílios, discos usados, temperos e peças de aparelhos antigos. Jandira caminhou direto até uma banca de rádios.

— Seu rádio quebrou? — perguntei.

— Faz dois meses.

— Por que não falou?

— Você conserta rádio?

— Posso comprar um.

— Eu também.

Ela examinou três aparelhos pequenos. Pediu ao vendedor que ligasse cada um, aumentasse o volume e testasse a entrada de energia. Escolheu o mais simples, azul-escuro, com antena curta e botões grandes.

— Quanto? — perguntou.

— Sessenta.

— Cinquenta.

— Cinquenta e oito.

— Cinquenta e dois, pago agora.

Fecharam em cinquenta e cinco.

— Você teria pago sessenta — disse quando saímos.

— Teria.

— Então por que discutiu?

— Para pagar cinquenta e cinco.

— Pergunta inútil.

— Finalmente aprendeu.

Jandira carregou a caixa debaixo do braço. Paramos numa barraca de discos. Ela procurou um cantor chamado Noel Santana, que eu desconhecia.

— Você escuta isso?

— Desde antes de você nascer.

— Nunca ouvi em casa.

— O rádio quebrou.

— Quero dizer quando eu morava lá.

— Você reclamava.

— Eu reclamava de tudo aos quinze.

— E aos trinta e um diminuiu pouco.

O vendedor encontrou uma coletânea. Jandira leu o primeiro nome na capa e identificou o cantor pela fotografia.

— Sem aula — avisou antes que eu dissesse qualquer coisa.

— Eu não ia falar.

— Seu rosto começou.

Ela comprou o disco mesmo sem ter aparelho para tocá-lo.

— O rádio não toca isso.

— Eu sei.

— Então por quê?

— Gosto da capa.

Seguimos até uma lanchonete do mercado. Minha mãe pediu dois pastéis de queijo e caldo de cana.

— Você não come pastel no terminal? — perguntei.

— Trabalho no terminal.

— Pastel daqui é diferente?

— Eu não preciso levantar para atender ninguém.

Sentamos numa mesa de plástico perto da rua. Jandira abriu o guardanapo sobre o colo e mordeu o pastel pela ponta.

— O que você faz no sábado na sua cidade? — perguntou.

— Mercado, arrumo a casa, trabalho quando acumula.

— Com quem?

— Geralmente sozinha.

— Tem amigos?

— Tenho.

— Nome.

— Renata, Paulo, Ione.

— Nunca falou deles.

— Você nunca perguntou.

Jandira bebeu o caldo.

— Estou perguntando.

Contei que Renata ensinava história na mesma escola em que eu dera aulas, que Paulo dividira apartamento comigo durante a faculdade e que Ione era minha vizinha. Falei do grupo de mensagens que passava semanas em silêncio e voltava a funcionar quando alguém precisava mudar de casa. Minha mãe quis saber quem tinha filhos, quem cozinhava e quem possuía carro.

— Isso define amizade? — perguntei.

— Define quem consegue ajudar numa mudança.

— Paulo tem carro.

— Então cuida dele.

— Ele mora com o namorado.

— Cuida dos dois. Mais gente para carregar móvel.

Perguntei pelos amigos dela. Jandira listou Diná, o jornaleiro, a farmacêutica, duas antigas vizinhas e um motorista aposentado que telefonava todo mês para pedir notícias do terminal.

— Isso é muita gente.

— Eu fiquei no mesmo lugar.

— Eu também poderia ter mantido contato.

— Poderia.

O assunto parou ali. O sábado tinha uma regra, e nenhuma de nós usou o afastamento para quebrá-la.

Depois do lanche, caminhamos até a praça. Jandira comprou um pacote de milho para os pombos. Eu disse que alimentar aves podia ser proibido. Ela guardou o pacote antes de abrir.

— Estragou.

— Tem uma placa.

— Sem aula.

— É uma multa, não uma aula.

— Pior ainda.

Usamos o milho para fazer pipoca numa barraca que aceitava o grão como parte do pagamento. O vendedor cobrou três reais pelo óleo, sal e trabalho. Minha mãe negociou para dois. Ele aceitou com a condição de ficar com metade.

Sentamos num banco e dividimos o restante.

Uma banda começou a tocar perto do coreto. Outro cantor ocupava o palco. Jandira sabia duas músicas e cantou trechos baixos, sem acompanhar as notas mais altas. Eu gravei dez segundos no telefone.

— Apaga.

— Por quê?

— Minha voz saiu ruim.

— Nem ouvi ainda.

— Eu ouvi ao vivo.

Apaguei diante dela.

— Sem cópia?

— Sem cópia.

— Obrigada.

Ela voltou a cantar quando começou outra música.

Pegamos o ônibus de volta no fim da tarde. Jandira colocou a caixa do rádio entre nós. Eu carregava o disco.

— Gostou do seu sábado? — perguntou.

— Gostei.

— Alguma reclamação?

— O rádio não toca o disco.

— Segunda-feira eu vou à casa da farmacêutica. Ela tem aparelho.

— Então a compra fazia sentido.

— Não precisava.

Em casa, ligamos o rádio na tomada da cozinha. Jandira encontrou uma estação de músicas antigas. O locutor falava depressa entre uma canção e outra. Minha mãe aumentou o volume.

Preparei o jantar. Ela cortou os tomates. Nenhuma palavra foi separada em sílabas. Nenhum erro recebeu correção.

Quando a música de Noel Santana começou, Jandira reconheceu nos primeiros acordes.

— Essa está no disco.

— Quer que eu grave?

— A música, pode. Eu, não.

Coloquei o telefone perto do rádio. Minha mãe cantou do outro lado da cozinha, fora do enquadramento e fora do alcance do microfone.

O sábado terminou com o arroz no fogo e o rádio sobre a geladeira. O caderno amarelo permaneceu dentro da bolsa.

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