Sábado sem Aula
No sábado, Jandira fechou o balcão às duas da tarde e anunciou:
— Hoje não tem aula.
— Temos aula no domingo.
— Hoje também não tem conversa sobre a aula de domingo.
Ela tirou o avental, guardou a pochete e entregou a Diná uma sacola com pão, café e um pacote embrulhado em papel vermelho.
— Feliz aniversário.
Diná apertou o pacote.
— Posso abrir?
— Presente é seu.
Dentro havia uma bolsa preta com três divisões e um chaveiro de borracha preso ao zíper. Diná colocou no ombro, observou o tamanho no reflexo da vitrine e abriu cada compartimento.
— Cabe meu uniforme.
— E suas marmitas — disse Jandira.
— Não vou misturar.
— Por isso tem divisão.
Diná abraçou minha mãe. Depois me mostrou a etiqueta pendurada na alça.
— Quanto custou?
— Não sei — respondi.
— A professora não participou?
— Fui excluída da operação.
Jandira recolheu a etiqueta.
— Por perguntar demais.
Diná guardou o presente no armário e saiu para encontrar a família. Eu comecei a limpar o balcão.
— Larga isso — disse minha mãe.
— Ainda tem louça.
— O rapaz da noite limpa.
— O rapaz da noite existe?
— Existe desde que você parou de ir embora antes das quatro.
— Nunca vi.
— Por isso mesmo.
Jandira pegou minha bolsa e colocou no meu ombro.
— Vamos.
— Para onde?
— Você pergunta demais.
Saímos pela plataforma seis e atravessamos a passarela. Minha mãe não seguiu na direção de casa. Entrou num ônibus para o centro e pagou nossas passagens.
— É sequestro? — perguntei.
— Sequestro exige silêncio. Você não consegue.
Sentamos perto da janela. Jandira indicou lojas fechadas, uma praça reformada e o prédio onde funcionara meu primeiro curso de datilografia. Eu não lembrava das teclas duras nem das fileiras de máquinas. Ela lembrava do preço das mensalidades e do mês em que pedi para sair.
— Eu odiava aquilo?
— Odiava a professora bater na mesa.
— Por que me matriculou?
— Você disse que computador ia dar emprego.
— Eu tinha doze anos.
— Falava com certeza.
— Continuo fazendo isso.
— Eu percebi.
Descemos perto do Mercado Municipal. O sábado reunia barracas de roupas, utensílios, discos usados, temperos e peças de aparelhos antigos. Jandira caminhou direto até uma banca de rádios.
— Seu rádio quebrou? — perguntei.
— Faz dois meses.
— Por que não falou?
— Você conserta rádio?
— Posso comprar um.
— Eu também.
Ela examinou três aparelhos pequenos. Pediu ao vendedor que ligasse cada um, aumentasse o volume e testasse a entrada de energia. Escolheu o mais simples, azul-escuro, com antena curta e botões grandes.
— Quanto? — perguntou.
— Sessenta.
— Cinquenta.
— Cinquenta e oito.
— Cinquenta e dois, pago agora.
Fecharam em cinquenta e cinco.
— Você teria pago sessenta — disse quando saímos.
— Teria.
— Então por que discutiu?
— Para pagar cinquenta e cinco.
— Pergunta inútil.
— Finalmente aprendeu.
Jandira carregou a caixa debaixo do braço. Paramos numa barraca de discos. Ela procurou um cantor chamado Noel Santana, que eu desconhecia.
— Você escuta isso?
— Desde antes de você nascer.
— Nunca ouvi em casa.
— O rádio quebrou.
— Quero dizer quando eu morava lá.
— Você reclamava.
— Eu reclamava de tudo aos quinze.
— E aos trinta e um diminuiu pouco.
O vendedor encontrou uma coletânea. Jandira leu o primeiro nome na capa e identificou o cantor pela fotografia.
— Sem aula — avisou antes que eu dissesse qualquer coisa.
— Eu não ia falar.
— Seu rosto começou.
Ela comprou o disco mesmo sem ter aparelho para tocá-lo.
— O rádio não toca isso.
— Eu sei.
— Então por quê?
— Gosto da capa.
Seguimos até uma lanchonete do mercado. Minha mãe pediu dois pastéis de queijo e caldo de cana.
— Você não come pastel no terminal? — perguntei.
— Trabalho no terminal.
— Pastel daqui é diferente?
— Eu não preciso levantar para atender ninguém.
Sentamos numa mesa de plástico perto da rua. Jandira abriu o guardanapo sobre o colo e mordeu o pastel pela ponta.
— O que você faz no sábado na sua cidade? — perguntou.
— Mercado, arrumo a casa, trabalho quando acumula.
— Com quem?
— Geralmente sozinha.
— Tem amigos?
— Tenho.
— Nome.
— Renata, Paulo, Ione.
— Nunca falou deles.
— Você nunca perguntou.
Jandira bebeu o caldo.
— Estou perguntando.
Contei que Renata ensinava história na mesma escola em que eu dera aulas, que Paulo dividira apartamento comigo durante a faculdade e que Ione era minha vizinha. Falei do grupo de mensagens que passava semanas em silêncio e voltava a funcionar quando alguém precisava mudar de casa. Minha mãe quis saber quem tinha filhos, quem cozinhava e quem possuía carro.
— Isso define amizade? — perguntei.
— Define quem consegue ajudar numa mudança.
— Paulo tem carro.
— Então cuida dele.
— Ele mora com o namorado.
— Cuida dos dois. Mais gente para carregar móvel.
Perguntei pelos amigos dela. Jandira listou Diná, o jornaleiro, a farmacêutica, duas antigas vizinhas e um motorista aposentado que telefonava todo mês para pedir notícias do terminal.
— Isso é muita gente.
— Eu fiquei no mesmo lugar.
— Eu também poderia ter mantido contato.
— Poderia.
O assunto parou ali. O sábado tinha uma regra, e nenhuma de nós usou o afastamento para quebrá-la.
Depois do lanche, caminhamos até a praça. Jandira comprou um pacote de milho para os pombos. Eu disse que alimentar aves podia ser proibido. Ela guardou o pacote antes de abrir.
— Estragou.
— Tem uma placa.
— Sem aula.
— É uma multa, não uma aula.
— Pior ainda.
Usamos o milho para fazer pipoca numa barraca que aceitava o grão como parte do pagamento. O vendedor cobrou três reais pelo óleo, sal e trabalho. Minha mãe negociou para dois. Ele aceitou com a condição de ficar com metade.
Sentamos num banco e dividimos o restante.
Uma banda começou a tocar perto do coreto. Outro cantor ocupava o palco. Jandira sabia duas músicas e cantou trechos baixos, sem acompanhar as notas mais altas. Eu gravei dez segundos no telefone.
— Apaga.
— Por quê?
— Minha voz saiu ruim.
— Nem ouvi ainda.
— Eu ouvi ao vivo.
Apaguei diante dela.
— Sem cópia?
— Sem cópia.
— Obrigada.
Ela voltou a cantar quando começou outra música.
Pegamos o ônibus de volta no fim da tarde. Jandira colocou a caixa do rádio entre nós. Eu carregava o disco.
— Gostou do seu sábado? — perguntou.
— Gostei.
— Alguma reclamação?
— O rádio não toca o disco.
— Segunda-feira eu vou à casa da farmacêutica. Ela tem aparelho.
— Então a compra fazia sentido.
— Não precisava.
Em casa, ligamos o rádio na tomada da cozinha. Jandira encontrou uma estação de músicas antigas. O locutor falava depressa entre uma canção e outra. Minha mãe aumentou o volume.
Preparei o jantar. Ela cortou os tomates. Nenhuma palavra foi separada em sílabas. Nenhum erro recebeu correção.
Quando a música de Noel Santana começou, Jandira reconheceu nos primeiros acordes.
— Essa está no disco.
— Quer que eu grave?
— A música, pode. Eu, não.
Coloquei o telefone perto do rádio. Minha mãe cantou do outro lado da cozinha, fora do enquadramento e fora do alcance do microfone.
O sábado terminou com o arroz no fogo e o rádio sobre a geladeira. O caderno amarelo permaneceu dentro da bolsa.