A Frase que Faltava
Na noite do segundo simulado, contei a Jandira sobre a entrevista.
Ela separava feijão para o jantar. Eu havia recebido a confirmação durante a tarde e guardara a notícia até encontrarmos tempo sem curso, clientes ou rádio.
— Uma editora educacional abriu vaga numa cidade a quarenta minutos daqui — falei.
— Qual cidade?
— Santa Rita do Vale.
— Nunca fui.
— Eu fui duas vezes. Tem uma equipe pequena e o trabalho é presencial três dias por semana.
— Pagam bem?
— Mais que a apostila.
— Então qual o problema?
— A entrevista é segunda.
— Isso é compromisso, não problema.
— Se aceitar, vou precisar mudar.
Jandira continuou separando os grãos.
— Você já mora longe.
— Santa Rita fica perto daqui.
Ela retirou uma pedra pequena e colocou na borda do prato.
— Perto quanto?
— Quarenta minutos de ônibus.
— Você procurou vaga perto de mim?
— Procurei uma vaga que queria. A localização entrou na escolha.
— Entrou quanto?
— Não sei medir.
— Tenta.
Sentei à frente dela.
— Eu não quero voltar para minha cidade e fingir que estas doze semanas cabem numa visita de Natal.
— Então vai ficar por minha causa.
— Não.
— Acabou de falar.
— Falei que quero uma vida em que a senhora faça parte. Não quero morar nesta casa, trabalhar no balcão ou decidir sua rotina.
— Qual a diferença?
— Eu teria meu emprego, meu endereço e meus horários. Viria porque quero.
— Até cansar.
— Talvez. Relação nenhuma vem com garantia.
Jandira juntou os grãos numa tigela.
— Você já foi embora uma vez.
— A senhora mandou.
— Voltamos para isso.
— Nunca saímos.
Ela levou a tigela até a pia, encheu de água e mexeu o feijão com a mão.
— Eu queria que você aceitasse a bolsa.
— Eu aceitei.
— Depois quase desistiu.
— Porque estava com medo.
— Porque viu o preço do sapato.
— Também.
Jandira escorreu a água.
— Se eu dissesse que precisava de você, você ficava.
— Precisava?
Ela colocou a tigela sobre a bancada.
— Precisava.
A palavra chegou baixa.
— Então por que falou do quarto e das caixas?
— Para você entender que não tinha lugar guardado.
— Eu entendi.
— Era para entender que sua vida estava na frente.
— Entendi que minha vida não cabia mais aqui.
— Você tinha dezessete anos.
— E precisava de uma casa para voltar.
Jandira secou as mãos.
— A casa estava aqui.
— A senhora nunca disse.
— Precisava dizer?
— Precisava.
Ela apoiou o pano na pia.
— Eu não sabia.
— Sabia dizer o contrário.
— Sabia.
Ficamos em silêncio. O feijão repousava na água nova. Um carro de som passou na rua anunciando gás e desapareceu depois da esquina.
— O que queria que eu tivesse dito? — perguntou.
— Que sentiria minha falta.
— Eu senti.
— Que eu podia voltar.
— Podia.
— Que o quarto ainda era meu.
— O quarto virou depósito.
— Eu sei.
— Então essa parte eu não podia dizer.
— Podia dizer que havia lugar para mim, mesmo sem o quarto.
Jandira puxou a cadeira e sentou.
— Eu passei duas semanas vendendo almoço para comprar seu sapato. Quando chegou o dia, achei que se falasse uma coisa mole você ia olhar para mim e ficar.
— Uma coisa mole?
— “Vou sentir saudade.” “Volta logo.” “Não sei ficar sem você.”
— Alguma era verdadeira?
— Todas.
— E preferiu dizer que precisava do espaço.
— Preferi fazer você ir.
— Conseguiu.
— Consegui demais.
Minha mãe colocou as mãos sobre a mesa.
— Nos primeiros meses, eu ligava no orelhão perto do colégio e desligava quando alguém atendia.
— Por quê?
— Não sabia se era você. Não queria pedir seu nome.
— Podia falar com a funcionária.
— Eu tinha acabado de mandar você não olhar para trás. Ia ligar para dizer o quê?
— A frase que faltou.
Jandira me olhou.
— Qual?
— Que queria que eu voltasse.
Ela desviou para a janela.
— Eu queria.
— Agora é fácil.
— Agora eu sei a frase.
— A senhora sabia as palavras.
— Não juntas.
Eu podia aceitar aquela explicação como encerramento. Não aceitei.
— A senhora também podia ter ligado durante os seis anos.
— Podia.
— Eu passei aniversários esperando.
— Eu também.
— E usou orgulho.
— Usei.
— Eu usei raiva.
— Usou.
— Às vezes nem era raiva. Era uma forma de não descobrir que talvez a senhora estivesse bem sem mim.
Jandira puxou a tigela de feijão para perto.
— Eu não estava bem sem você.
— Estava vivendo.
— As duas coisas podem acontecer.
— Eu também vivi.
— Eu sei.
— Não sabe tudo.
— Então conta.
Falei do primeiro apartamento, onde o chuveiro queimava toda semana. Do emprego em que fiquei quatro meses e pedi demissão no banheiro. De Paulo me levando ao hospital durante uma crise de pedra nos rins. De Renata dormindo no sofá quando eu não queria ficar sozinha. Da escola em que dei minha primeira aula. Das vezes em que quase liguei.
Jandira ouviu sem separar os feijões.
— Por que não ligou? — perguntou.
— Queria que a senhora ligasse antes.
— Então somos duas teimosas.
— Isso não divide a responsabilidade igualmente.
— Não.
— A senhora era minha mãe.
— Ainda sou.
— Por isso doeu mais.
— Eu sei agora.
— Sabe porque eu falei.
— Sei porque você falou.
Jandira levantou e acendeu o fogo. Colocou a panela de pressão sobre a chama.
— Se conseguir o trabalho, vai morar em Santa Rita?
— Vou procurar apartamento.
— Nesta casa não cabe?
— Cabe por um tempo. Não quero voltar a morar aqui.
— Por quê?
— Quero chegar para almoçar e poder ir embora.
Minha mãe encaixou a tampa da panela.
— Eu também quero poder fechar a porta.
— Então concordamos.
— Uma vez.
— Já é alguma coisa.
O vapor começou a se formar. Jandira reduziu o fogo.
— Cássia.
— O quê?
— Eu queria que você voltasse.
A frase não recuperou seis anos. Não devolveu telefonemas, aniversários ou férias. Também não exigiu que eu fingisse.
— Eu queria ter voltado antes — respondi.
Minha mãe assentiu.
Preparei o arroz enquanto ela temperava o feijão. Quando o jantar ficou pronto, levamos os pratos para a mesa.
— Segunda é a entrevista? — perguntou.
— Às dez.
— Quer que eu deseje sorte?
— Quero.
— Sorte.
— Obrigada.
Jandira começou a comer.
— Santa Rita tem terminal?
— Tem.
— Depois você me mostra.
— Mostro.