Uma Página Inteira A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 10 de 23
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Uma Página Inteira

Três semanas depois da reunião do curso, Jandira começou a esconder os folhetos que já conseguia ler.

Não escondia de vergonha. Escondia de mim.

Eu descobri numa terça-feira, ao procurar sacos de lixo no armário da área de serviço. Entre dois pacotes fechados, havia uma folha dobrada com marcas de caneta. O título dizia CUIDADOS COM AS MÃOS. Quatro frases estavam separadas por linhas. Algumas palavras tinham círculos. Outras, pequenos pontos sob cada sílaba.

Devolvi a folha ao lugar.

Naquela noite, durante a aula, minha mãe pediu para revisar palavras com LH.

— Folha, colher, alho, molho e trabalho — listou.

— Onde encontrou trabalho?

— No mundo.

— E numa folha guardada perto dos sacos de lixo?

Jandira apoiou a caneta.

— Você mexeu nas minhas coisas.

— Procurei um saco.

— E leu.

— Li o título.

— Leu rápido?

— Muito.

— Exibida.

Ela foi até a área de serviço e voltou com o papel. Colocou-o virado para baixo sobre a mesa.

— Joelma entregou na semana passada.

— Por que guardou ali?

— Porque quero ler antes de você explicar.

— Conseguiu?

— Se tivesse conseguido, não estaria escondido.

— Posso ajudar nas palavras que faltam.

— Ainda não.

Minha primeira reação foi calcular quantos dias ela perderia insistindo sozinha. Guardei a conta.

— O que quer fazer hoje?

— LH.

Trabalhamos com as cinco palavras escolhidas. Jandira leu FOLHA e ALHO. Em COLHER, pronunciou o início e confundiu o final com LEITE. Cobriu as duas últimas sílabas, tentou outra vez e chegou à palavra inteira. MOLHO saiu depois de comparar com ALHO.

TRABALHO exigiu mais tempo.

— Conheço TRABALHA — disse. — Está num aviso do curso.

— Qual?

— “Quem trabalha com alimento precisa cuidar.” Tem uma foto de avental.

— Então localize a parte igual.

Jandira escreveu TRABALHA e TRABALHO uma abaixo da outra. Circulou TRABALH.

— Muda o fim.

— Sim.

— Trabalho é a coisa. Trabalha é o que a pessoa faz.

— Nessa frase, sim.

— Em outra muda?

— Pode mudar a função.

— Deixa para depois.

Ela escreveu TRABALHO três vezes, cada uma com uma letra menor que a anterior, até a palavra caber numa linha do caderno.

O papel permaneceu virado para baixo.

Na quinta-feira, estudamos NH. Jandira trouxe BANHO, TAMANHO, MANHÃ e DINHEIRO. Leu três. Em TAMANHO, trocou a ordem das sílabas. Recomeçou sem me consultar.

Na sexta, vi o folheto dentro de sua bolsa de trabalho.

No domingo, ele apareceu sobre a cômoda da sala.

Eu obedeci ao limite. Não perguntei.

Na terça seguinte, Jandira chegou da Sala Três às nove e dez, colocou água para ferver e retirou o folheto da bolsa.

— Hoje.

— Hoje o quê?

— Vou ler.

— Quer que eu acompanhe?

— Quero que fique aqui.

— Posso corrigir?

— Só quando eu terminar.

Ela pôs a folha diante de si. Eu me sentei do outro lado da mesa. O papel trazia um título e quatro orientações:

CUIDADOS COM AS MÃOS

LAVE AS MÃOS ANTES DE COMEÇAR O TRABALHO.

RETIRE ANÉIS, PULSEIRAS E RELÓGIO.

LIMPE AS UNHAS E LAVE ENTRE OS DEDOS.

USE PAPEL LIMPO PARA SECAR.

Minha mãe segurou a borda da página.

Começou pelo título. Leu CUIDADOS em três tentativas, separando CUI de DADOS. MÃOS saiu inteira.

Na primeira orientação, reconheceu LAVE, AS, MÃOS, ANTES e DE. Parou em COMEÇAR. Tocou a cedilha, pronunciou o início e repetiu a palavra até ouvir algo conhecido.

— Começar.

Seguiu para O TRABALHO. O exercício da semana anterior sustentou o final.

Na segunda linha, RETIRE já aparecera entre as palavras de comando. ANÉIS exigiu duas tentativas. Jandira acertou PULSEIRAS porque conhecia a palavra falada e encontrou PUL no início. Em RELÓGIO, leu RE, depois LÓ, depois GIO com o G duro.

Ela franziu a testa.

— Conhece essa palavra — falei antes de me conter.

Jandira ergueu a mão.

Fiquei quieta.

Ela voltou ao início. Leu RE-LÓ-JIO.

— Relógio.

Não corrigi o som separado. Ela chegara à palavra.

A terceira orientação levou mais tempo. LIMPE e LAVE já estavam na lista do balcão. UNHAS veio do estudo de NH. ENTRE, OS e DEDOS foram lidas sem ajuda. Jandira retornou ao início da frase e pronunciou tudo junto.

Na última linha, USE e PAPEL saíram de imediato. LIMPO apareceu depois de uma comparação silenciosa com LIMPE. PARA e SECAR encerraram a página.

Minha mãe leu a última frase outra vez.

Depois voltou ao título.

— Acabei.

— Acabou.

— Li tudo?

— Leu.

— Errei relógio.

— Você corrigiu.

— E você falou no meio.

— Falei.

— Eu mandei esperar.

— Mandou.

— Então não li sem ajuda.

Ela empurrou a folha para longe.

— Minha fala não deu a resposta.

— Disse que eu conhecia.

— Você já sabia disso.

— Eu também sabia que queria silêncio.

O impulso de defender minha interferência quase venceu. Eu tinha dito apenas três palavras. Nenhuma delas revelava a leitura. Ainda assim, o acordo era claro.

— Quer tentar outra vez amanhã?

— Quero tentar agora.

— A mesma página?

— Outra.

— Onde vamos encontrar?

Jandira abriu a bolsa e retirou um segundo folheto.

— Joelma me deu dois.

Colocou a nova folha sobre a mesa. O título era CUIDADOS COM OS ALIMENTOS. Havia cinco orientações, algumas mais longas que as anteriores.

— Esta é mais difícil — observei.

— Eu sei contar linhas.

— Fico em silêncio.

— Até o fim.

Assenti.

Jandira começou:

— Cuidados com os alimentos.

A primeira linha orientava a conferir a data de validade. DATA e VALIDADE pertenciam ao cotidiano do balcão. CONFERIR exigiu que ela separasse as partes e voltasse ao início.

A segunda mandava guardar leite e outros produtos na geladeira. Ela reconheceu LEITE e GUARDE, palavra estudada na semana anterior. PRODUTOS saiu com lentidão. GELADEIRA precisou de quatro tentativas.

A terceira falava em separar carne crua de comida pronta. Jandira leu CARNE, CRUA, COMIDA e PRONTA. Travou em SEPARE. Cobriu o fim com o dedo, descobriu letra por letra e recuperou a ordem da frase.

A quarta orientação pedia uma colher limpa para provar a comida. COLHER e LIMPA fizeram minha mãe sorrir. PROVAR foi confundida com PROVA. Ela apontou o R adicional, refez o som e seguiu.

A última linha dizia:

NÃO USE PRODUTO FORA DA VALIDADE.

Jandira leu sem interromper.

Chegou ao ponto final e manteve os olhos na página. Eu esperei.

— Agora você pode falar.

— Você leu uma página inteira.

— Duas.

— Na primeira, eu interrompi.

— Então uma e quase outra.

— Uma e quase outra.

Ela alinhou os dois folhetos.

— Onde errei?

Mostrei RELÓGIO, GELADEIRA e PRODUTOS. Em todas, ela havia alcançado a palavra correta, embora alguns sons ainda saíssem separados ou imprecisos. Jandira anotou as três no caderno.

— Acabou a aula? — perguntei.

— Acabou.

— Podemos comemorar?

— Você quer fazer o quê?

— Ainda não sei.

— Então não podemos.

— Posso comprar alguma coisa.

— Tem comida em casa.

— Posso abrir o refrigerante guardado para domingo.

— Hoje é terça.

— Podemos comprar outro até domingo.

Ela avaliou a proposta.

— Metade de um copo.

Peguei a garrafa na geladeira. Jandira trouxe dois copos baixos, os mesmos usados para visitas. Servi metade em cada um.

— Precisa falar alguma coisa? — perguntou.

— Não.

— Ainda bem.

Batemos um copo no outro e bebemos.

Minha mãe levou os folhetos até a porta da despensa. Retirou a faixa do alfabeto e prendeu as duas páginas no lugar.

— Não precisa mais das letras? — perguntei.

— Preciso. Estão na página.

Dobrou a faixa e guardou na gaveta dos talheres.

Antes de fechar a porta, leu a última orientação outra vez:

— Não use produto fora da validade.

Abriu a geladeira, pegou a garrafa do refrigerante e conferiu a data.

— Até janeiro.

— Então pode ficar para domingo.

Jandira guardou a garrafa e lavou os dois copos. Eu sequei. Nenhuma de nós chamou aquilo de reconciliação.

Era uma terça-feira, e minha mãe tinha lido uma página inteira.

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