Uma Página Inteira
Três semanas depois da reunião do curso, Jandira começou a esconder os folhetos que já conseguia ler.
Não escondia de vergonha. Escondia de mim.
Eu descobri numa terça-feira, ao procurar sacos de lixo no armário da área de serviço. Entre dois pacotes fechados, havia uma folha dobrada com marcas de caneta. O título dizia CUIDADOS COM AS MÃOS. Quatro frases estavam separadas por linhas. Algumas palavras tinham círculos. Outras, pequenos pontos sob cada sílaba.
Devolvi a folha ao lugar.
Naquela noite, durante a aula, minha mãe pediu para revisar palavras com LH.
— Folha, colher, alho, molho e trabalho — listou.
— Onde encontrou trabalho?
— No mundo.
— E numa folha guardada perto dos sacos de lixo?
Jandira apoiou a caneta.
— Você mexeu nas minhas coisas.
— Procurei um saco.
— E leu.
— Li o título.
— Leu rápido?
— Muito.
— Exibida.
Ela foi até a área de serviço e voltou com o papel. Colocou-o virado para baixo sobre a mesa.
— Joelma entregou na semana passada.
— Por que guardou ali?
— Porque quero ler antes de você explicar.
— Conseguiu?
— Se tivesse conseguido, não estaria escondido.
— Posso ajudar nas palavras que faltam.
— Ainda não.
Minha primeira reação foi calcular quantos dias ela perderia insistindo sozinha. Guardei a conta.
— O que quer fazer hoje?
— LH.
Trabalhamos com as cinco palavras escolhidas. Jandira leu FOLHA e ALHO. Em COLHER, pronunciou o início e confundiu o final com LEITE. Cobriu as duas últimas sílabas, tentou outra vez e chegou à palavra inteira. MOLHO saiu depois de comparar com ALHO.
TRABALHO exigiu mais tempo.
— Conheço TRABALHA — disse. — Está num aviso do curso.
— Qual?
— “Quem trabalha com alimento precisa cuidar.” Tem uma foto de avental.
— Então localize a parte igual.
Jandira escreveu TRABALHA e TRABALHO uma abaixo da outra. Circulou TRABALH.
— Muda o fim.
— Sim.
— Trabalho é a coisa. Trabalha é o que a pessoa faz.
— Nessa frase, sim.
— Em outra muda?
— Pode mudar a função.
— Deixa para depois.
Ela escreveu TRABALHO três vezes, cada uma com uma letra menor que a anterior, até a palavra caber numa linha do caderno.
O papel permaneceu virado para baixo.
Na quinta-feira, estudamos NH. Jandira trouxe BANHO, TAMANHO, MANHÃ e DINHEIRO. Leu três. Em TAMANHO, trocou a ordem das sílabas. Recomeçou sem me consultar.
Na sexta, vi o folheto dentro de sua bolsa de trabalho.
No domingo, ele apareceu sobre a cômoda da sala.
Eu obedeci ao limite. Não perguntei.
Na terça seguinte, Jandira chegou da Sala Três às nove e dez, colocou água para ferver e retirou o folheto da bolsa.
— Hoje.
— Hoje o quê?
— Vou ler.
— Quer que eu acompanhe?
— Quero que fique aqui.
— Posso corrigir?
— Só quando eu terminar.
Ela pôs a folha diante de si. Eu me sentei do outro lado da mesa. O papel trazia um título e quatro orientações:
CUIDADOS COM AS MÃOS
LAVE AS MÃOS ANTES DE COMEÇAR O TRABALHO.
RETIRE ANÉIS, PULSEIRAS E RELÓGIO.
LIMPE AS UNHAS E LAVE ENTRE OS DEDOS.
USE PAPEL LIMPO PARA SECAR.
Minha mãe segurou a borda da página.
Começou pelo título. Leu CUIDADOS em três tentativas, separando CUI de DADOS. MÃOS saiu inteira.
Na primeira orientação, reconheceu LAVE, AS, MÃOS, ANTES e DE. Parou em COMEÇAR. Tocou a cedilha, pronunciou o início e repetiu a palavra até ouvir algo conhecido.
— Começar.
Seguiu para O TRABALHO. O exercício da semana anterior sustentou o final.
Na segunda linha, RETIRE já aparecera entre as palavras de comando. ANÉIS exigiu duas tentativas. Jandira acertou PULSEIRAS porque conhecia a palavra falada e encontrou PUL no início. Em RELÓGIO, leu RE, depois LÓ, depois GIO com o G duro.
Ela franziu a testa.
— Conhece essa palavra — falei antes de me conter.
Jandira ergueu a mão.
Fiquei quieta.
Ela voltou ao início. Leu RE-LÓ-JIO.
— Relógio.
Não corrigi o som separado. Ela chegara à palavra.
A terceira orientação levou mais tempo. LIMPE e LAVE já estavam na lista do balcão. UNHAS veio do estudo de NH. ENTRE, OS e DEDOS foram lidas sem ajuda. Jandira retornou ao início da frase e pronunciou tudo junto.
Na última linha, USE e PAPEL saíram de imediato. LIMPO apareceu depois de uma comparação silenciosa com LIMPE. PARA e SECAR encerraram a página.
Minha mãe leu a última frase outra vez.
Depois voltou ao título.
— Acabei.
— Acabou.
— Li tudo?
— Leu.
— Errei relógio.
— Você corrigiu.
— E você falou no meio.
— Falei.
— Eu mandei esperar.
— Mandou.
— Então não li sem ajuda.
Ela empurrou a folha para longe.
— Minha fala não deu a resposta.
— Disse que eu conhecia.
— Você já sabia disso.
— Eu também sabia que queria silêncio.
O impulso de defender minha interferência quase venceu. Eu tinha dito apenas três palavras. Nenhuma delas revelava a leitura. Ainda assim, o acordo era claro.
— Quer tentar outra vez amanhã?
— Quero tentar agora.
— A mesma página?
— Outra.
— Onde vamos encontrar?
Jandira abriu a bolsa e retirou um segundo folheto.
— Joelma me deu dois.
Colocou a nova folha sobre a mesa. O título era CUIDADOS COM OS ALIMENTOS. Havia cinco orientações, algumas mais longas que as anteriores.
— Esta é mais difícil — observei.
— Eu sei contar linhas.
— Fico em silêncio.
— Até o fim.
Assenti.
Jandira começou:
— Cuidados com os alimentos.
A primeira linha orientava a conferir a data de validade. DATA e VALIDADE pertenciam ao cotidiano do balcão. CONFERIR exigiu que ela separasse as partes e voltasse ao início.
A segunda mandava guardar leite e outros produtos na geladeira. Ela reconheceu LEITE e GUARDE, palavra estudada na semana anterior. PRODUTOS saiu com lentidão. GELADEIRA precisou de quatro tentativas.
A terceira falava em separar carne crua de comida pronta. Jandira leu CARNE, CRUA, COMIDA e PRONTA. Travou em SEPARE. Cobriu o fim com o dedo, descobriu letra por letra e recuperou a ordem da frase.
A quarta orientação pedia uma colher limpa para provar a comida. COLHER e LIMPA fizeram minha mãe sorrir. PROVAR foi confundida com PROVA. Ela apontou o R adicional, refez o som e seguiu.
A última linha dizia:
NÃO USE PRODUTO FORA DA VALIDADE.
Jandira leu sem interromper.
Chegou ao ponto final e manteve os olhos na página. Eu esperei.
— Agora você pode falar.
— Você leu uma página inteira.
— Duas.
— Na primeira, eu interrompi.
— Então uma e quase outra.
— Uma e quase outra.
Ela alinhou os dois folhetos.
— Onde errei?
Mostrei RELÓGIO, GELADEIRA e PRODUTOS. Em todas, ela havia alcançado a palavra correta, embora alguns sons ainda saíssem separados ou imprecisos. Jandira anotou as três no caderno.
— Acabou a aula? — perguntei.
— Acabou.
— Podemos comemorar?
— Você quer fazer o quê?
— Ainda não sei.
— Então não podemos.
— Posso comprar alguma coisa.
— Tem comida em casa.
— Posso abrir o refrigerante guardado para domingo.
— Hoje é terça.
— Podemos comprar outro até domingo.
Ela avaliou a proposta.
— Metade de um copo.
Peguei a garrafa na geladeira. Jandira trouxe dois copos baixos, os mesmos usados para visitas. Servi metade em cada um.
— Precisa falar alguma coisa? — perguntou.
— Não.
— Ainda bem.
Batemos um copo no outro e bebemos.
Minha mãe levou os folhetos até a porta da despensa. Retirou a faixa do alfabeto e prendeu as duas páginas no lugar.
— Não precisa mais das letras? — perguntei.
— Preciso. Estão na página.
Dobrou a faixa e guardou na gaveta dos talheres.
Antes de fechar a porta, leu a última orientação outra vez:
— Não use produto fora da validade.
Abriu a geladeira, pegou a garrafa do refrigerante e conferiu a data.
— Até janeiro.
— Então pode ficar para domingo.
Jandira guardou a garrafa e lavou os dois copos. Eu sequei. Nenhuma de nós chamou aquilo de reconciliação.
Era uma terça-feira, e minha mãe tinha lido uma página inteira.