O Ponto da Jandira
Às quatro e quarenta da manhã, minha mãe já estava no portão.
Vestia calça escura, camiseta branca e o avental verde dobrado sobre o braço. Trazia o caderno amarelo dentro de uma sacola. Eu saí prendendo o cabelo, ainda com gosto de pasta de dente na boca, e encontrei Jandira conferindo as chaves sob a luz da varanda.
— Café no terminal — disse.
— Eu podia ter tomado em casa.
— Ia sujar uma xícara.
Ela trancou a porta e seguiu pela calçada.
O Jardim do Cedro tinha outro som antes das cinco. Portões se abriam, torneiras enchiam baldes, rádios falavam baixo dentro das cozinhas. Um padeiro descarregava cestos de plástico diante da mercearia. Minha mãe o cumprimentou pelo nome e perguntou se o pão saíra no horário. Ele respondeu que sim e apontou dois cestos separados para o Ponto da Jandira.
— Na volta a gente pega — ela falou.
— Ele entrega no terminal?
— Entregava. Começou a cobrar.
— Quanto?
— O suficiente para eu buscar.
No caminho, Jandira me mostrou onde a calçada afundava, qual esquina ficava escura e a casa que mantinha um cachorro solto perto do amanhecer. Eu não precisava das instruções havia muitos anos. Recebi todas.
Entramos no terminal pela porta de serviço. O segurança ergueu a mão para minha mãe e pediu café. Ela prometeu levar depois da primeira garrafa. Ele olhou para mim, reconheceu alguma semelhança e evitou perguntar. A discrição talvez viesse de aviso prévio.
Jandira abriu a porta de metal, acendeu as luzes e colocou o avental. Eu esperei uma orientação.
— Lava as mãos — disse.
Lavei.
Ela apontou uma prateleira.
— Copos pequenos na primeira pilha. Grandes na segunda. Tampa do café aqui. Tampa do suco lá. Não mistura.
— Certo.
— Pão chega às cinco e dez. Leite às cinco e vinte. O motorista da linha quarenta e seis aparece antes dos outros e reclama do preço. Não abaixa.
— Ele vai tentar negociar comigo?
— Vai tentar negociar com qualquer pessoa que respire perto do caixa.
Minha mãe encheu duas panelas com água, mediu o pó e separou os filtros de pano. Não consultou receita, relógio ou marcação. Seus movimentos tinham ordem acumulada por anos. Enquanto a água aquecia, retirou produtos da geladeira e conferiu cada pote pelo cheiro, cor e data escrita nas tampas.
As datas eram números grandes feitos por ela.
— Você escreve tudo isso?
— Dia e mês.
— E os nomes?
— Cada coisa tem lugar.
— Se alguém trocar?
— Ninguém troca.
— E se trocar?
Ela abriu um pote, cheirou e me entregou.
— O que é?
— Frango desfiado.
— Então.
Voltei o pote para a bancada.
— Cheiro não identifica validade.
— A data está em cima.
— Você sabe qual pote é frango porque conhece a cozinha. Uma pessoa nova não saberia.
— Pessoa nova pergunta.
Jandira fechou a tampa e continuou.
Eu anotaria aquele diálogo se estivesse avaliando uma aula. Ali, diante da primeira garrafa de café, guardei as conclusões.
O pão chegou às cinco e oito. Minha mãe contou as unidades por fileira, encontrou duas amassadas e descontou antes de pagar. O entregador tentou justificar. Jandira mostrou os pães, refez a conta em voz alta e recebeu o valor exato.
Às cinco e vinte e três, a primeira leva de passageiros entrou no terminal. O Ponto da Jandira começou a funcionar sem aviso.
Minha mãe servia café com uma mão e recebia dinheiro com a outra. Perguntava destinos, informava atrasos, guardava encomendas de funcionários e indicava a plataforma correta quando alguém se confundia. Lia os números dos ônibus, os preços escritos em algarismos e as poucas palavras que reconhecia nas telas.
Percebi suas estratégias aos poucos.
Quando uma notificação chegava ao telefone, Jandira tocava no botão de áudio e ouvia. Quando precisava enviar resposta, gravava a voz. As mensagens escritas recebiam um dos três retornos decorados. Certo. Sim. Obrigada.
As embalagens eram organizadas por cor e tamanho. O café tradicional tinha lugar distinto do descafeinado. O leite integral ficava à esquerda. O sem lactose, à direita, com um elástico azul em volta da caixa. Os temperos ocupavam potes transparentes. As etiquetas dos fornecedores permaneciam viradas para a parede.
Ela construíra um sistema completo.
— Pão com ovo e café — pediu um homem.
Jandira preparou.
— Quanto?
— Doze.
Ele entregou vinte. Minha mãe devolveu oito antes que eu alcançasse o caixa.
— Posso cuidar dos pagamentos — ofereci.
— Pode limpar as mesas.
Peguei o pano.
Durante duas horas, limpei mesas, lavei copos e levei café ao segurança. Jandira não me apresentou como professora. Dizia apenas “minha filha” quando alguém perguntava. Alguns clientes lembravam de mim criança. Outros conheciam uma versão montada por notícias esparsas.
— Mora longe, né?
— Mora — minha mãe respondia.
— Veio passear?
— Veio passar um tempo.
Ela encerrava ali.
Perto das oito, chegaram dois homens com coletes da empresa responsável pela reforma. Um carregava uma furadeira. O outro trazia uma prancheta e um rolo de adesivos.
— Vamos instalar o suporte da tela — explicou.
Jandira apontou a parede vazia perto do caixa.
— Disseram que seria depois das duas.
O homem consultou a prancheta.
— Aqui está oito horas.
Minha mãe olhou para o papel.
— Oito do dia vinte e seis?
— Oito horas do dia vinte e seis.
— Hoje é vinte e seis.
— Isso.
Ela abriu espaço. Não pediu que eu confirmasse. Acertara a informação pelos números e pela chegada da equipe.
Os homens começaram o trabalho no meio do movimento. O som da furadeira atravessou pedidos, anúncios e conversas. Jandira desviou a fila para o lado oposto, protegeu os alimentos e exigiu que recolhessem a poeira antes de sair.
O suporte sustentaria uma tela pequena voltada para os clientes. O cardápio digital exibiria nomes, preços, ingredientes principais e avisos sobre alergias. Minha mãe observou a demonstração com atenção.
— A senhora atualiza por este aplicativo — disse o instalador. — Produtos, estoque, preço e disponibilidade.
Ele tocava rápido demais no equipamento.
— Faz de novo — Jandira pediu.
O homem repetiu no mesmo ritmo.
— Mais devagar.
Na terceira tentativa, ela acompanhou cada botão. Pediu que ele mostrasse onde alteraria preço e onde marcaria produto esgotado. Decorou a posição dos ícones.
— Tem manual? — perguntei.
O instalador retirou um folheto da pasta e me entregou.
Minha mãe estendeu a mão antes que eu abrisse.
— É meu.
Dei o papel a ela.
Jandira dobrou o folheto e guardou junto do caderno amarelo.
Depois que os homens saíram, a tela permaneceu ligada com um cardápio provisório. Café aparecia com fotografia de cappuccino. O pão com ovo tinha o nome de sanduíche tradicional. O prato do dia estava escrito como refeição executiva.
— Isso não é meu cardápio — falou.
— É modelo. Vamos trocar.
— Hoje.
— Preciso conhecer todos os itens.
Ela puxou uma folha e começou a ditar.
Café pequeno. Café grande. Café com leite. Leite puro. Pão com manteiga. Pão com ovo. Cuscuz. Bolo de milho. Prato feito. Suco.
Escrevi os nomes e os preços. Jandira corrigiu dois valores antes que eu terminasse.
— Ingredientes principais — lembrei.
— Café tem café.
— O sistema pede.
— Então escreve café e água.
Continuamos.
Uma mulher com mochila vermelha se aproximou enquanto eu digitava. Trazia uma menina de uns oito anos pela mão.
— O bolo tem leite? — perguntou.
— Tem — Jandira respondeu.
— E amendoim?
— Não uso amendoim aqui.
— Na embalagem do fubá pode avisar contaminação?
Minha mãe olhou para mim.
O pedido foi discreto. Eu o entendi.
Ela buscou o pacote no armário e colocou sobre o balcão com o verso voltado para nós. Procurei a lista de ingredientes e o aviso.
— Pode conter traços de soja — li. — Não cita amendoim. A fábrica processa derivados de leite.
Jandira repetiu a informação para a cliente. A mulher agradeceu e escolheu pão com ovo para a menina depois de conferir os demais ingredientes.
Quando se afastaram, minha mãe pegou a embalagem.
— Onde está “pode conter”?
Apontei a linha.
— E “contém”?
Apontei outra.
— Qual é a diferença na prática?
Expliquei que “contém” indicava ingrediente presente. “Pode conter” avisava sobre contato possível durante a fabricação. Jandira ouviu, aproximou o pacote dos olhos e localizou as duas expressões pela posição.
— Escreve para mim.
Peguei uma folha.
— No caderno amarelo.
Ela retirou o caderno da sacola, abriu na primeira página depois da data e empurrou na minha direção.
Escrevi em letras grandes:
CONTÉM
PODE CONTER
Jandira puxou o caderno de volta.
— Você escreveu com acento.
— Sim.
— O acento muda o som?
— Muda a sílaba mais forte. A gente chega nisso depois.
— Chega agora.
O movimento diminuíra. Havia dois clientes nas mesas e ninguém esperando. Minha mãe tocou a primeira palavra com o indicador.
— Lê.
— Contém.
Ela repetiu.
— Contém.
Toquei a segunda.
— Pode conter.
Jandira repetiu devagar, separando as duas palavras. Depois apontou a embalagem e procurou as expressões. Levou alguns segundos. Encontrou primeiro “contém”. Na segunda busca, confundiu uma linha. Voltou ao caderno, comparou o tamanho e tentou outra vez.
— Aqui — disse.
O dedo estava no lugar certo.
— Isso.
Ela fechou o caderno quando um motorista se aproximou.
— Café grande, dona Jandira.
Minha mãe guardou o pacote, serviu o café e recebeu uma nota de cinquenta. O troco saiu correto.
Na hora do almoço, a fila ocupou o corredor. Jandira montou pratos, respondeu pedidos e acompanhou a tela digital que eu atualizava. Quando o cuscuz acabou, apontou o ícone sem pedir ajuda. O item desapareceu do cardápio. Ela viu o resultado e fez um movimento satisfeito com a cabeça.
Às duas e vinte, fechamos as panelas.
Eu estava com dor nas pernas e cheiro de comida no cabelo. Minha mãe ainda conferiu estoque, listou compras e separou dinheiro do fornecedor.
— Você faz isso todos os dias? — perguntei.
— De segunda a sábado.
— Sozinha?
— Uma moça ajuda na quinta e na sexta.
— E todos acham que você lê?
Jandira guardou as notas.
— Todos acham o que precisam para comprar café.
— O sistema vai tornar mais difícil esconder.
— Eu não quero esconder no sistema.
Ela abriu o caderno amarelo na primeira página. As duas expressões permaneciam ali, escritas pela minha mão.
— Quero copiar.
Entreguei a caneta.
Jandira apoiou o antebraço no balcão e começou por CONTÉM. Fez o C grande, parou diante do O e consultou o modelo. Escreveu cada letra com força suficiente para marcar a folha de baixo. O acento ficou distante do E. Ela observou, riscou uma vez e escreveu de novo.
Na segunda tentativa, o acento ocupou o lugar certo.
Um ônibus anunciou partida na plataforma seis. Minha mãe continuou escrevendo.
Quando terminou PODE CONTER, comparou as duas linhas e circulou a palavra repetida. Depois virou a embalagem do fubá, encontrou o aviso e leu em voz baixa.
— Pode conter.
Não me olhou em busca de confirmação. Guardou o pacote na prateleira, arrancou a folha torta onde eu listara o cardápio e colocou diante de mim.
— Amanhã você me ensina a ler meus preços.
— Você já lê os preços.
— Eu leio os números. Quero ler o que estou vendendo.
Jandira pegou o pano e começou a limpar o balcão. Eu abri uma página nova no caderno amarelo e copiei os dez itens do cardápio, deixando espaço entre as linhas.
Nossa primeira aula tinha começado antes de qualquer uma das duas decidir chamá-la assim.