Sem Lição A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 18 de 23
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Sem Lição

Passei dois dias procurando um pedido de desculpas que não carregasse uma tarefa escondida.

Todas as frases que me ocorriam terminavam no futuro. Eu vou esperar. Eu vou respeitar. Eu vou fazer diferente. Eram promessas e, ao mesmo tempo, instruções sobre o que deveria acontecer depois.

Jandira não pedira depois.

Na quinta-feira, encontrei minha mãe sentada no quintal, retirando folhas secas de um vaso de manjericão. O rádio tocava na janela da cozinha. Sentei no degrau perto da porta.

— Posso falar?

— Já começou.

— Posso continuar?

Ela retirou outra folha.

— Pode.

— Eu deixei exercício na mesa depois que a senhora pediu para parar.

Jandira manteve os olhos no vaso.

— Deixou.

— Eu disse que era para quando quisesse voltar. Ainda era uma aula colocada na sua frente sem pedido.

— Era.

— Também usei aquela voz no balcão.

— Usou.

— Falei da sua decisão do jeito que falo com aluno que está desistindo. Fiz o seu direito de parar soar como fraqueza.

Minha mãe soltou a folha dentro de uma bacia.

— Acabou?

— Falta uma coisa.

— Então fala.

— Eu transformei sua aprendizagem num trabalho meu. Quando o vídeo apareceu, fiquei preocupada com a exposição e também com o que ela faria com tudo que eu estava ajudando a construir.

Jandira levantou o rosto.

— Tudo que você estava construindo?

— Foi assim que pensei. É o problema.

Ela esperou.

— A leitura é sua. O curso é seu. A interrupção também é sua. Desculpe por agir como dona de qualquer parte disso.

O rádio mudou de música. Minha mãe recolheu as folhas da bacia e apertou entre as mãos.

— Eu ouvi.

— Não precisa responder.

— Já respondi.

— Certo.

— E não pergunta se vou voltar.

— Não vou perguntar.

— Nem prepara papel.

— Não preparo.

— Nem fica contando dia.

Essa exigência me custou mais.

— O prazo da prova continua existindo.

— Eu sei contar.

— Certo.

— Certo de verdade?

— Certo de verdade.

Jandira apontou para o vaso.

— Segura.

Levei o manjericão até a mesa de madeira. Ela retirou a planta do recipiente e mostrou raízes ocupando todo o espaço.

— Precisa de vaso maior — disse.

— Temos?

— No fundo do quintal.

Busquei um balde antigo com furos na base. Jandira misturou terra e composto. Eu segurei a planta enquanto ela soltava as raízes com os dedos.

— Vai morrer? — perguntei.

— Se quebrar demais.

— Estou segurando certo?

— Está.

Não procurei uma comparação.

Transferimos o manjericão. Jandira completou as laterais com terra e pediu água. Reguei até o excesso escorrer pelos furos.

— Chega — disse.

Parei.

Naquela tarde, fui ao terminal para ajudá-la a mover duas caixas de óleo. Não levei o computador, o caderno ou folhas. Diná me entregou uma lista de compras.

— Lê para mim? — pediu.

Olhei para Jandira.

— Diná pediu para você — disse minha mãe.

Li os itens em voz alta. Faltavam cebola, detergente, café e guardanapos. Jandira anotou as quantidades sem me solicitar correção.

— Mais alguma coisa? — perguntei.

— Batata — respondeu.

Diná acrescentou.

Trabalhamos até o fim do movimento. Jandira me chamou para o caixa duas vezes. Na terceira, resolveu a fila sozinha. Eu limpei mesas.

Às sete, o rapaz da noite chegou. Minha mãe fechou a pochete e me entregou uma sacola.

— Leva.

Havia seis batatas, duas cebolas e um pacote de arroz.

— Para quê?

— Jantar.

— Eu faço.

— Por isso está levando.

Em casa, descasquei as batatas. Jandira cortou cebola. O rádio permanecia baixo. Depois de alguns minutos, ela falou:

— Seu trabalho termina quando?

— O contrato da apostila acaba em dezembro.

— E depois?

— A editora ofereceu outro projeto.

— Onde?

— Posso fazer de qualquer cidade.

— Vai aceitar?

— Ainda não decidi.

— Por quê?

— O pagamento é melhor. O projeto ocupa noites e fins de semana.

— Você quer?

— Quero o dinheiro. Não sei se quero o trabalho.

Jandira colocou as cebolas na panela.

— Então decide.

— Só isso?

— Você queria lição?

— Hoje, não.

Ela mexeu a panela.

— Eu também não.

Comemos na cozinha. Jandira contou que o gerente queria manter a torta às quartas e sextas. Eu contei que Renata mandara três mensagens e ameaçara aparecer para me buscar caso eu não respondesse.

— Responde — disse minha mãe.

— Depois do jantar.

— Ela tem carro?

— Não. Paulo tem.

— Então a ameaça depende dele.

Rimos.

Depois, liguei para Renata na sala. Jandira ouviu parte da conversa enquanto guardava a comida. Não perguntou sobre aula, prova ou prazo. Eu também não.

Antes de dormir, passei pelo quintal. O manjericão estava inclinado no vaso novo. Coloquei a mão no balde para endireitar.

— Deixa — disse Jandira da porta. — Amanhã ele procura o lado dele.

Retirei a mão.

— Certo.

— Não transforma em lição.

— Eu não falei nada.

— Seu rosto começou.

Entramos. O manjericão ficou inclinado.

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