Vinte e Seis Letras A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 7 de 23
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Vinte e Seis Letras

Jandira voltou da primeira aula na Sala Três com uma faixa de papel enrolada dentro da bolsa.

Chegou às nove e vinte da noite, aqueceu o jantar e comeu em silêncio. Eu trabalhava na mesa da cozinha, revisando exercícios para uma apostila. Esperei que ela contasse. Minha mãe terminou o arroz, lavou o prato e só então retirou o papel.

Desenrolou uma sequência de letras impressas.

A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z.

— Vinte e seis — disse.

— Sim.

— A professora Joelma falou que são vinte e seis.

Era a primeira vez que mencionava o nome da professora da turma.

— Gostou dela?

— Ainda não conheço.

— Como foi a aula?

— Tinha dezenove pessoas. Uma chegou atrasada. Um homem sentou na minha cadeira e mudou quando eu pedi. A professora não falou com voz de criança.

Recebi a última informação sem comentar.

Jandira alisou a faixa sobre a mesa.

— Quero saber o nome de todas.

— Podemos trabalhar aos poucos.

— São vinte e seis. Eu já sei algumas.

— Saber o nome da letra não garante leitura.

— Eu sei. Quero saber mesmo assim.

Fechei o computador.

— Agora?

— Você está acordada.

— Você trabalhou e foi à aula.

— Continuo acordada.

Minha mãe prendeu as pontas da faixa com o açucareiro e o pote de guardanapos. Sentou à minha frente e apontou A, B e C.

— A eu sei. B é de banheiro. C é de Cássia.

— B e C são os nomes.

— Eu falei de onde conheço.

Seguimos.

Jandira reconheceu D por causa de Diná e dinheiro. Conhecia E das placas de entrada. Chamou F de “a letra do frango”. G confundiu com C. H conhecia pelo símbolo do hospital, embora não soubesse o nome. I estava em saída. J abria Jandira.

Parou no K.

— Para que serve esta?

— Aparece em palavras de outras línguas, nomes e marcas.

— Tem no ketchup.

— Tem.

— Então escreve ketchup.

Escrevi acima da faixa. Jandira reconheceu o desenho da palavra visto nas embalagens do balcão. Nunca tentara separar as letras.

— Ketchup começa e termina com som diferente do nome da letra — falou.

— Acontece com várias.

— Isso é falta de organização.

— A língua cresceu antes de alguém organizar.

— E deixaram assim?

— Deixaram pior em alguns lugares.

Ela riu e continuou.

L estava no leite. M e N ainda se confundiam quando apareciam isolados. O era ovo. P surgia em pare, promoção e ponto. Q fazia parte de que e marque. R estava no arroz. S, na saída e no suco. T aparecia no tomate. U estava no suco.

Jandira chegou ao V e identificou pela palavra validade.

— Onde aprendeu?

— Nas caixas. O rapaz que entrega leite escreve V perto da data quando falta pouco.

W foi reconhecido por uma marca de biscoito. X, pelo símbolo que ela fazia ao lado de contas pagas. Y apareceu num nome de passageira que encomendava almoço às sextas. Z encerrou arroz.

— Quantas eu soube?

— Vinte e duas com alguma referência.

— E as outras?

— Você confundiu G com C, M com N e precisou de ajuda no K e no W.

— K e W eu achei nas embalagens.

— Encontrou depois da explicação.

— Então vinte e quatro.

— Referência não significa domínio.

— Nem explicação significa que você tem razão na conta.

Peguei uma folha e escrevi as vinte e seis letras fora de ordem.

— Vamos conferir.

Jandira observou a página.

— Você fez isso para me pegar.

— Para retirar a ajuda da ordem alfabética.

— Eu ainda não sei a ordem.

— Melhor para o teste.

— Você gosta demais dessa palavra.

— Podemos chamar de jogo.

— Piorou.

— Conferência.

Ela aceitou.

Começou pelo J, depois C, A, O, S, P e D. Identificou dezessete sem ajuda. Confundiu cinco. Em quatro, disse que não sabia.

— Dezessete — informei.

— De vinte e seis.

— Sim.

— Mais da metade.

— Bem mais.

Minha mãe pegou a caneta e circulou as nove letras que faltavam.

— Quero colocar palavras nelas.

— Uma palavra para cada?

— Uma que eu use.

Construímos a lista.

B virou BOLO.

G virou GÁS.

H virou HIGIENE.

K permaneceu KETCHUP.

M virou MANTEIGA.

N virou NOTA.

W ficou ligado à marca de biscoito.

X virou PIX.

Y manteve o nome da passageira.

— O H de higiene não faz som — expliquei.

— Então colocaram para quê?

— A história da palavra trouxe.

— História atrapalha até escrita.

Jandira tentou ler HIGIENE. Começou pelo I, encontrou G e parou.

— Esse G tem qual som?

— Aqui soa como J.

— Então podia ser J.

— Poderia soar do mesmo jeito. A escrita correta usa G.

— Quem decidiu?

— Muita gente durante muito tempo.

— Ninguém perguntou para quem ia aprender aos cinquenta e seis.

Não encontrei resposta útil. Escrevi HIGIENE e JANELA uma abaixo da outra. Mostrei que G e J podiam produzir o mesmo som diante de I.

— E diante de A?

Escrevi GATO e JATO.

Jandira leu as duas depois que pronunciei os inícios.

— Uma letra muda de voz. A outra fica igual.

— Neste caso, sim.

— Vou começar pela que fica.

Ela circulou J.

— Justo.

Voltamos às letras. Minha mãe criou exemplos próprios, muitos ligados ao terminal. B de bilhete. G de guichê. M de motorista. N de número. H de horário. K de ketchup. W da marca. X de PIX. Y da passageira.

— Horário tem H sem som também — percebeu.

— Tem.

— Duas palavras do curso começam com letra muda.

— Horário e higiene.

Ela copiou as duas.

Na manhã seguinte, encontrei a faixa do alfabeto presa dentro da porta da despensa. Jandira escolhera um lugar que podia abrir durante o preparo e fechar quando houvesse visita. Sobre nove letras, colara pequenos papéis com as palavras escolhidas.

Às quatro e meia da tarde, chegou do terminal com outra lista.

— A professora pediu para levar palavras de trabalho — explicou.

Mostrou o caderno amarelo. Havia dezesseis itens escritos por ela e quatro espaços vazios.

— Quer ajuda?

— Quero achar quatro que começam com letras diferentes.

Sentamos no quintal, onde o sol já não atingia a mesa. Jandira abriu a bolsa de trabalho e retirou objetos: uma colher de plástico, um sachê de sal, um recibo, uma tampa de garrafa, um pacote de guardanapos e uma touca descartável.

— Colher, sal, recibo, tampa, guardanapo e touca — falei.

— Já tenho C, S, R, T e G.

— Falta qual?

— Alguma com F.

— Faca.

— Não trouxe faca na bolsa.

— Ainda bem.

Ela olhou em volta e apontou uma folha caída no quintal.

— Folha.

— Serve.

Jandira escreveu FOLHA. Consultou a faixa apenas para o H.

Faltavam três letras distintas. Escolheu V de vassoura, P de portão e Q de quintal. Ao escrever QUINTAL, reconheceu QUE no começo e percebeu que a sequência mudava diante do I.

— O U está aqui e eu quase não escuto.

— Nesta palavra, ele participa da escrita e não ganha voz própria.

— Outra letra quieta.

— Outra.

Ela fez um ponto abaixo do U.

— Vou marcar as que ficam quietas.

— Pode ajudar durante o estudo. Depois retiramos as marcas.

— Eu decido quando.

— Você decide.

Jandira terminou a lista. Vinte palavras de trabalho, cada uma iniciada por letra identificada. Leu quatorze sem ajuda. Nas outras, usou o objeto, o contexto ou uma pista minha.

— Levo assim amanhã — disse.

— A professora pediu que escrevesse sozinha?

— Pediu palavras. Não disse que precisava sofrer sem ajuda.

Guardou o caderno e os objetos na bolsa.

Antes do jantar, abriu a porta da despensa e apontou as letras uma por uma. Disse vinte e quatro nomes corretos. Trocou M e N. Chamou W pelo nome da marca de biscoito.

— Esse ainda não vale — falei.

— Dábliu.

— Agora vale.

Ela repetiu desde o início. Na segunda passagem, acertou M e N. Chegou ao fim sem usar as palavras coladas.

— Vinte e seis — disse.

— Vinte e seis.

Jandira retirou o açucareiro do armário e fechou a porta da despensa. A faixa desapareceu.

— Amanhã eu abro de novo.

Foi preparar o jantar repetindo os nomes das letras do G ao M, intervalo em que ainda precisava reduzir a velocidade.

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