Vinte e Seis Letras
Jandira voltou da primeira aula na Sala Três com uma faixa de papel enrolada dentro da bolsa.
Chegou às nove e vinte da noite, aqueceu o jantar e comeu em silêncio. Eu trabalhava na mesa da cozinha, revisando exercícios para uma apostila. Esperei que ela contasse. Minha mãe terminou o arroz, lavou o prato e só então retirou o papel.
Desenrolou uma sequência de letras impressas.
A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z.
— Vinte e seis — disse.
— Sim.
— A professora Joelma falou que são vinte e seis.
Era a primeira vez que mencionava o nome da professora da turma.
— Gostou dela?
— Ainda não conheço.
— Como foi a aula?
— Tinha dezenove pessoas. Uma chegou atrasada. Um homem sentou na minha cadeira e mudou quando eu pedi. A professora não falou com voz de criança.
Recebi a última informação sem comentar.
Jandira alisou a faixa sobre a mesa.
— Quero saber o nome de todas.
— Podemos trabalhar aos poucos.
— São vinte e seis. Eu já sei algumas.
— Saber o nome da letra não garante leitura.
— Eu sei. Quero saber mesmo assim.
Fechei o computador.
— Agora?
— Você está acordada.
— Você trabalhou e foi à aula.
— Continuo acordada.
Minha mãe prendeu as pontas da faixa com o açucareiro e o pote de guardanapos. Sentou à minha frente e apontou A, B e C.
— A eu sei. B é de banheiro. C é de Cássia.
— B e C são os nomes.
— Eu falei de onde conheço.
Seguimos.
Jandira reconheceu D por causa de Diná e dinheiro. Conhecia E das placas de entrada. Chamou F de “a letra do frango”. G confundiu com C. H conhecia pelo símbolo do hospital, embora não soubesse o nome. I estava em saída. J abria Jandira.
Parou no K.
— Para que serve esta?
— Aparece em palavras de outras línguas, nomes e marcas.
— Tem no ketchup.
— Tem.
— Então escreve ketchup.
Escrevi acima da faixa. Jandira reconheceu o desenho da palavra visto nas embalagens do balcão. Nunca tentara separar as letras.
— Ketchup começa e termina com som diferente do nome da letra — falou.
— Acontece com várias.
— Isso é falta de organização.
— A língua cresceu antes de alguém organizar.
— E deixaram assim?
— Deixaram pior em alguns lugares.
Ela riu e continuou.
L estava no leite. M e N ainda se confundiam quando apareciam isolados. O era ovo. P surgia em pare, promoção e ponto. Q fazia parte de que e marque. R estava no arroz. S, na saída e no suco. T aparecia no tomate. U estava no suco.
Jandira chegou ao V e identificou pela palavra validade.
— Onde aprendeu?
— Nas caixas. O rapaz que entrega leite escreve V perto da data quando falta pouco.
W foi reconhecido por uma marca de biscoito. X, pelo símbolo que ela fazia ao lado de contas pagas. Y apareceu num nome de passageira que encomendava almoço às sextas. Z encerrou arroz.
— Quantas eu soube?
— Vinte e duas com alguma referência.
— E as outras?
— Você confundiu G com C, M com N e precisou de ajuda no K e no W.
— K e W eu achei nas embalagens.
— Encontrou depois da explicação.
— Então vinte e quatro.
— Referência não significa domínio.
— Nem explicação significa que você tem razão na conta.
Peguei uma folha e escrevi as vinte e seis letras fora de ordem.
— Vamos conferir.
Jandira observou a página.
— Você fez isso para me pegar.
— Para retirar a ajuda da ordem alfabética.
— Eu ainda não sei a ordem.
— Melhor para o teste.
— Você gosta demais dessa palavra.
— Podemos chamar de jogo.
— Piorou.
— Conferência.
Ela aceitou.
Começou pelo J, depois C, A, O, S, P e D. Identificou dezessete sem ajuda. Confundiu cinco. Em quatro, disse que não sabia.
— Dezessete — informei.
— De vinte e seis.
— Sim.
— Mais da metade.
— Bem mais.
Minha mãe pegou a caneta e circulou as nove letras que faltavam.
— Quero colocar palavras nelas.
— Uma palavra para cada?
— Uma que eu use.
Construímos a lista.
B virou BOLO.
G virou GÁS.
H virou HIGIENE.
K permaneceu KETCHUP.
M virou MANTEIGA.
N virou NOTA.
W ficou ligado à marca de biscoito.
X virou PIX.
Y manteve o nome da passageira.
— O H de higiene não faz som — expliquei.
— Então colocaram para quê?
— A história da palavra trouxe.
— História atrapalha até escrita.
Jandira tentou ler HIGIENE. Começou pelo I, encontrou G e parou.
— Esse G tem qual som?
— Aqui soa como J.
— Então podia ser J.
— Poderia soar do mesmo jeito. A escrita correta usa G.
— Quem decidiu?
— Muita gente durante muito tempo.
— Ninguém perguntou para quem ia aprender aos cinquenta e seis.
Não encontrei resposta útil. Escrevi HIGIENE e JANELA uma abaixo da outra. Mostrei que G e J podiam produzir o mesmo som diante de I.
— E diante de A?
Escrevi GATO e JATO.
Jandira leu as duas depois que pronunciei os inícios.
— Uma letra muda de voz. A outra fica igual.
— Neste caso, sim.
— Vou começar pela que fica.
Ela circulou J.
— Justo.
Voltamos às letras. Minha mãe criou exemplos próprios, muitos ligados ao terminal. B de bilhete. G de guichê. M de motorista. N de número. H de horário. K de ketchup. W da marca. X de PIX. Y da passageira.
— Horário tem H sem som também — percebeu.
— Tem.
— Duas palavras do curso começam com letra muda.
— Horário e higiene.
Ela copiou as duas.
Na manhã seguinte, encontrei a faixa do alfabeto presa dentro da porta da despensa. Jandira escolhera um lugar que podia abrir durante o preparo e fechar quando houvesse visita. Sobre nove letras, colara pequenos papéis com as palavras escolhidas.
Às quatro e meia da tarde, chegou do terminal com outra lista.
— A professora pediu para levar palavras de trabalho — explicou.
Mostrou o caderno amarelo. Havia dezesseis itens escritos por ela e quatro espaços vazios.
— Quer ajuda?
— Quero achar quatro que começam com letras diferentes.
Sentamos no quintal, onde o sol já não atingia a mesa. Jandira abriu a bolsa de trabalho e retirou objetos: uma colher de plástico, um sachê de sal, um recibo, uma tampa de garrafa, um pacote de guardanapos e uma touca descartável.
— Colher, sal, recibo, tampa, guardanapo e touca — falei.
— Já tenho C, S, R, T e G.
— Falta qual?
— Alguma com F.
— Faca.
— Não trouxe faca na bolsa.
— Ainda bem.
Ela olhou em volta e apontou uma folha caída no quintal.
— Folha.
— Serve.
Jandira escreveu FOLHA. Consultou a faixa apenas para o H.
Faltavam três letras distintas. Escolheu V de vassoura, P de portão e Q de quintal. Ao escrever QUINTAL, reconheceu QUE no começo e percebeu que a sequência mudava diante do I.
— O U está aqui e eu quase não escuto.
— Nesta palavra, ele participa da escrita e não ganha voz própria.
— Outra letra quieta.
— Outra.
Ela fez um ponto abaixo do U.
— Vou marcar as que ficam quietas.
— Pode ajudar durante o estudo. Depois retiramos as marcas.
— Eu decido quando.
— Você decide.
Jandira terminou a lista. Vinte palavras de trabalho, cada uma iniciada por letra identificada. Leu quatorze sem ajuda. Nas outras, usou o objeto, o contexto ou uma pista minha.
— Levo assim amanhã — disse.
— A professora pediu que escrevesse sozinha?
— Pediu palavras. Não disse que precisava sofrer sem ajuda.
Guardou o caderno e os objetos na bolsa.
Antes do jantar, abriu a porta da despensa e apontou as letras uma por uma. Disse vinte e quatro nomes corretos. Trocou M e N. Chamou W pelo nome da marca de biscoito.
— Esse ainda não vale — falei.
— Dábliu.
— Agora vale.
Ela repetiu desde o início. Na segunda passagem, acertou M e N. Chegou ao fim sem usar as palavras coladas.
— Vinte e seis — disse.
— Vinte e seis.
Jandira retirou o açucareiro do armário e fechou a porta da despensa. A faixa desapareceu.
— Amanhã eu abro de novo.
Foi preparar o jantar repetindo os nomes das letras do G ao M, intervalo em que ainda precisava reduzir a velocidade.