A Receita Impressa A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 15 de 23
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A Receita Impressa

A ficha chegou dobrada dentro da pasta do curso.

Jandira abriu sobre a mesa da cozinha e alisou as marcas com a régua. No alto, havia uma fotografia de quadrados dourados servidos numa bandeja.

TORTA DE LEGUMES.

RENDIMENTO: DEZ PORÇÕES.

TEMPO DE PREPARO: CINQUENTA MINUTOS.

Minha mãe leu o título, o rendimento e o tempo sem pedir ajuda.

— Dez porções não pagam o forno — disse.

— Pode ser uma atividade para casa.

— É atividade para vender.

Ela apontou o rodapé. Joelma escrevera a orientação à mão:

ESCOLHA UMA RECEITA. LEIA. PREPARE. ANOTE O QUE MUDOU.

— Escolheu esta por quê?

— Tinha as palavras que eu queria.

— Quais?

— Rendimento. Preparo. Ingredientes. Misture. Acrescente. Despeje.

— Muitas palavras novas.

— Receita repete.

Jandira virou a ficha. O verso trazia os ingredientes em duas colunas.

DUAS XÍCARAS DE FARINHA DE TRIGO.

DUAS XÍCARAS DE LEITE.

TRÊS OVOS.

MEIA XÍCARA DE ÓLEO.

UMA COLHER DE FERMENTO.

UMA CENOURA.

UMA ABOBRINHA.

MEIA CEBOLA.

SAL.

Ela leu item por item. Em FARINHA, identificou NH pelo estudo anterior. FERMENTO exigiu três tentativas. ABOBRINHA saiu depois que encontrou ABÓBORA na memória e percebeu a mudança no fim.

— Já fez essa torta? — perguntei.

— Faço outra.

— Qual a diferença?

— A minha leva queijo e o legume entra refogado.

— Esta não manda refogar?

— Ainda não li.

O modo de preparo tinha seis etapas numeradas. Jandira colocou uma folha solta ao meu lado.

— Escreve só se eu perguntar.

— Certo.

Ela começou.

Na primeira etapa, leu LAVE E CORTE OS LEGUMES. Na segunda, encontrou BATA OS OVOS, O LEITE E O ÓLEO. Em seguida, a frase mandava acrescentar farinha e sal. Jandira separou ACRESCENTE, reconheceu o início parecido com outra palavra de comando e chegou ao final.

Na quarta etapa, MISTURE OS LEGUMES À MASSA. Na quinta, ADICIONE O FERMENTO. A última dizia:

DESPEJE EM FORMA UNTADA E ASSE POR TRINTA MINUTOS.

— Cinquenta minutos no alto e trinta no forno — observou.

— Os vinte restantes incluem corte e mistura.

— Para quem corta devagar.

— A ficha precisa considerar pessoas diferentes.

— Então devia falar “até cinquenta”.

Ela escreveu na parte PERGUNTAS do caderno:

TEMPO DE PREPARO CONTA O FORNO?

— Quer a resposta?

— Quero perguntar no curso.

Fechou o caderno.

— Amanhã fazemos trinta porções.

— Vai triplicar tudo?

— Vou fazer três formas. Uma receita em cada.

— Por que não uma massa grande?

— Quero saber se fica igual.

Na manhã seguinte, cheguei ao terminal às quatro e encontrei três grupos de ingredientes sobre o balcão. Jandira separara farinha, leite, ovos, óleo, fermento e legumes em conjuntos. Diná cortava cenouras.

— A professora chegou — anunciou.

— Hoje eu sou ajudante.

Minha mãe entregou a ficha.

— Leia a primeira etapa.

— Você pode ler.

— Estou com a mão molhada.

— Diná pode segurar.

Diná pegou o papel pela ponta. Jandira secou as mãos.

— Lave e corte os legumes.

— Já fizemos — disse Diná.

— Segunda.

Minha mãe leu a instrução e começou a bater os ovos. Seguiu cada etapa, comparando o texto com o que acontecia nas tigelas. Quando a ficha mandou acrescentar farinha de uma vez, ela dividiu em três partes.

— Mudou a receita — falei.

— Vou anotar.

— Por quê?

— Para não empelotar.

Na segunda forma, refogou metade dos legumes.

— Outra mudança?

— Quero comparar.

Na terceira, usou os legumes crus conforme o papel, acrescentando menos sal.

— A receita não dá quantidade de sal — disse.

— “Sal a gosto” — respondeu Diná.

— O gosto de quem?

— De quem cozinha.

Jandira registrou a pergunta no verso da ficha.

As três formas entraram no forno em horários separados. Minha mãe escreveu os minutos numa folha presa à parede:

FORMA 1: 5:10.

FORMA 2: 5:18.

FORMA 3: 5:26.

Às cinco e quarenta, retirou a primeira. O centro ainda cedia quando ela tocava a assadeira.

— A ficha diz trinta minutos — falei.

— Meu forno diz que falta.

Voltou a forma por mais oito minutos e anotou a diferença.

Quando todas estavam prontas, cortamos a primeira em dez pedaços. Eram grandes para o balcão. Jandira dividiu cada forma em doze.

— Trinta e seis porções — calculou.

— Mudou o rendimento.

— Outra anotação.

Provamos as três antes de abrir. Diná preferiu os legumes refogados. Eu escolhi a primeira, com legumes crus e farinha acrescentada aos poucos. Jandira considerou a terceira menos salgada.

— Qual vai vender? — perguntei.

— As três. Quero ouvir quem paga.

Ela escreveu num cartão:

TORTA DE LEGUMES: R$ 7

CONTÉM LEITE, OVO E TRIGO.

— Falta o plural em ovo — falei.

Jandira consultou a ficha.

— A informação fala do ingrediente, não da quantidade.

— Pode usar singular. Está correto.

— Então não falta.

— Não falta.

Ela colocou o cartão diante da bandeja.

O primeiro cliente perguntou se havia queijo.

Jandira olhou a lista de ingredientes.

— Não leva queijo. Leva leite.

— Tem carne?

— Não.

— Me dá uma.

Ela serviu um pedaço da segunda forma e marcou um traço ao lado do número dois. A cada venda, registrava de qual forma saíra a porção. Diná anotava comentários espontâneos: bem temperada, podia ter queijo, boa para viagem, pedaço pequeno, pedaço grande.

Às nove, restavam quatro porções. A segunda forma vendera primeiro.

— Diná ganhou — falei.

— Quem pagou escolheu — respondeu Jandira.

Ela somou as vendas, descontou os ingredientes e calculou o resultado. Depois abriu a ficha na parte reservada às mudanças.

Escreveu:

FIZ TRÊS FORMAS.

COLOQUEI A FARINHA AOS POUCOS.

REFOGUEI OS LEGUMES DA FORMA 2.

ASSEI POR 38 MINUTOS.

CORTEI 12 PORÇÕES.

A FORMA 2 VENDEU PRIMEIRO.

Em REFOGUEI, pediu ajuda com o G. Em POUCOS, trocou U e C, comparou com minha folha solta e corrigiu. Leu o registro completo para Diná.

— Vai levar isso para a professora? — perguntou a colega.

— Vou.

— Ela não vai reclamar que você mudou quase tudo?

— A atividade manda anotar.

Jandira colocou a ficha dentro de uma capa plástica para protegê-la da gordura.

— E se ela disser para seguir igual? — perguntei.

— Eu segui uma forma igual. Foi a que vendeu por último.

Antes do almoço, o gerente do terminal parou no balcão. Viu o cartão dos alergênicos e perguntou quem preparara.

— Eu — respondeu minha mãe.

— E a informação?

— Eu conferi na receita.

Ele pediu uma cópia da ficha para incluir o item no cardápio digital da semana seguinte.

Jandira não olhou para mim.

— Eu preparo a cópia — disse.

No fim do expediente, levou a ficha até a papelaria do saguão, pediu uma reprodução e conferiu cada lado antes de pagar. Entregou a cópia ao gerente e guardou a original na seção TRABALHO do caderno amarelo.

Na volta para casa, carregava a capa plástica junto ao peito para não dobrar.

— O que mudou? — perguntei.

— Na receita?

— No trabalho.

— Amanhã vendo torta de novo.

— Foi isso que quis dizer?

— Foi o que aconteceu.

Jandira seguiu até a esquina, ainda carregando a ficha dentro da capa plástica.

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