A Primeira Aula
Preparei a mesa da cozinha durante quase uma hora.
Afastei o açucareiro, limpei uma marca de copo e coloquei duas cadeiras lado a lado. Abri o caderno amarelo, separei folhas brancas, lápis, borracha e as canetas azuis. No computador, montei uma sequência curta para descobrir quais letras minha mãe reconhecia, quais sons associava a elas e quanto conseguia compreender de uma frase simples.
Usei fonte grande. Eliminei desenhos. Troquei exemplos infantis por palavras do balcão.
CAFÉ.
LEITE.
OVO.
ARROZ.
Ao terminar, contemplei o material com a satisfação de quem corrigira um erro antes que ele acontecesse.
Jandira entrou às duas e dez, carregando uma sacola de tomates e outra de cebolas. Colocou as compras sobre a pia, tirou os sapatos junto à porta e veio até a mesa.
— Isso tudo é para hoje?
— É uma avaliação inicial.
— Você falou que não faria prova.
— Não vale nota.
— Então é prova que não paga nem dá resultado.
— Preciso conhecer sua leitura.
Minha mãe retirou o avental, dobrou e pendurou no encosto de uma cadeira.
— Você me viu trabalhar ontem.
— Vi.
— Perguntou coisas.
— Ainda faltam informações.
Ela olhou para a tela do computador. As quatro palavras ocupavam quase toda a página.
— Senta um pouco — pedi.
— Vou guardar os tomates.
— Depois a gente guarda.
Jandira pegou as duas sacolas e levou para a despensa. Ouvi a porta do armário, o movimento das caixas plásticas e a torneira. Esperei cinco minutos. Quando ela voltou, trouxe um copo de água e sentou na cadeira mais distante da minha.
Mudei o computador de lugar.
— Quero começar com estas palavras.
— Café, leite, ovo e arroz.
— Certo.
— Acabou a avaliação?
— Como você identificou?
— Você pegou do meu cardápio.
— Leu alguma?
— Café.
— As outras?
— Sei a ordem que você colocou.
Virei o computador para mim, troquei as posições e devolvi.
Jandira localizou CAFÉ. Depois tocou em OVO.
— Esta é curta.
— Qual palavra?
— Ovo.
— Leu ou deduziu?
— Tem três letras. Das quatro, só ovo tem três.
— E estas?
Ela apontou ARROZ e LEITE.
— Uma começa igual ao meu nome? — perguntou.
— Nenhuma.
— Então não sei.
Anotei a resposta numa folha.
— O que escreveu?
— A estratégia que você usou.
— Escreve na minha frente.
Empurrei a folha para o centro.
— Jandira reconhece CAFÉ e identifica OVO pelo tamanho.
Minha mãe leu o próprio nome no início.
— O resto fala de mim?
— Fala.
— Eu devia saber o que diz.
— Acabei de explicar.
— Depois de escrever.
— Posso falar antes da próxima vez.
Ela bebeu água.
— Faça isso.
Prossegui com letras isoladas. Mostrei A, J, C, M, O e S. Jandira reconheceu J, A e O. Chamou C de “a letra de Cássia” e confundiu M com N.
— Olhe outra vez — falei, apontando o M. — Quantas pernas?
— Letra tem perna?
— É um jeito de observar o desenho.
— Então chama de risco. Perna me faz procurar pé.
Corrigi minha anotação.
Mostrei o N ao lado do M e expliquei a diferença. Minha mãe aproximou o rosto, comparou e repetiu os nomes. Quando afastei as letras, confundiu de novo.
— Vamos tentar com som.
Pronunciei M lentamente.
— Que som você ouve?
— Você está fazendo barulho de quem gostou de comida.
— É o som da letra.
— Sozinha?
— Sim.
— Quando escreve, ela fica sozinha?
— Às vezes.
— No meu cardápio fica?
— Em nenhuma dessas palavras.
Jandira encostou as costas na cadeira.
— Então me ensina junto.
— Preciso apresentar as letras.
— Você apresentou. Eu já esqueci duas.
Mantive a voz calma.
— Esquecer faz parte.
— Falar calmo desse jeito também faz parte?
— Desse jeito como?
— Separando tudo.
— Quero ser clara.
— Você fala diferente comigo desde a ligação.
Olhei para as folhas sobre a mesa. Minha mãe tocou a borda do caderno amarelo e esperou.
— Estou tentando evitar confusão — respondi.
— A confusão é minha.
— A aula é nossa.
— Então deixa eu entrar nela.
Minha preparação começou a ocupar espaço demais sobre a mesa. Fechei o computador e puxei o caderno.
— Certo. O que você quer fazer?
— Você é a professora.
— Acabou de pedir para escolher.
— Pedi para participar.
Eu sabia explicar participação em qualquer reunião pedagógica. Diante de Jandira, a palavra perdeu utilidade.
— Vamos usar o cardápio inteiro — propus.
Abri a lista escrita no terminal. Minha mãe acompanhou cada linha.
— Aponte onde está café.
Ela apontou.
— Café grande.
Jandira procurou a palavra repetida e escolheu a linha certa.
— Café com leite.
Encontrou novamente.
— Agora leite puro.
O dedo desceu e parou em PÃO COM MANTEIGA.
— Leia o começo — pedi.
— Eu não sei.
— Tente pelo som.
— Qual som?
— O primeiro.
— Acabei de dizer que não sei.
— Errar ajuda a descobrir.
— Ajuda você a descobrir.
Ela retirou a mão da página.
— Estamos juntas nisso.
— Você sabe todas as respostas.
— Por isso posso ensinar.
— Por isso esquece que estou vendo a pergunta sem enxergar saída.
Eu me calei.
Jandira fechou o caderno.
— Chega por hoje.
— Faz vinte minutos.
— Para mim chegou.
— Você quer parar porque ficou difícil?
Minha mãe levantou.
— Quero parar porque você não escuta.
— Passei a aula inteira ouvindo.
— Ouviu para anotar.
— Estou tentando fazer direito.
— Direito para quem?
Ela pegou o copo vazio e levou à pia.
— Não precisa transformar tudo numa briga — falei.
Jandira abriu a torneira. Lavou o copo, colocou no escorredor e permaneceu de costas.
— Você trouxe uma escola inteira para minha cozinha.
— Trouxe quatro palavras.
— Trouxe esse jeito de olhar quando eu erro. Esse jeito de esperar. Essa voz baixa.
— Eu uso a mesma voz com meus alunos.
Ela se virou.
— Eu sou sua mãe.
A frase encerrou qualquer resposta fácil.
Jandira guardou os tomates num cesto e começou a separar as cebolas. O movimento tinha precisão, embora duas cebolas fossem para o lado errado e ela precisasse trocar.
— A aula acabou — repetiu.
Recolhi as folhas. Fechei as canetas e empilhei os materiais. Minha vontade era explicar que uma avaliação inicial evitaria perda de tempo, permitiria acompanhar progresso e ajudaria a escolher atividades adequadas. Eu conseguiria transformar a discussão numa justificativa impecável.
Guardei tudo na sacola.
— Amanhã eu tento de outro jeito.
— Amanhã eu tenho fornecedor depois do almoço.
— Quinta, então.
— Quinta é nosso dia.
Ela não cancelara a próxima aula. A pequena concessão me aliviou antes que eu pudesse impedir.
— Posso perguntar uma coisa sem anotar?
Jandira continuou separando cebolas.
— Pode.
— Como você aprendeu a reconhecer café?
— Na lata da minha avó.
— Alguém ensinou?
— Ela apontava quando mandava buscar. Depois apareceu no mercado, no saco, na placa, em todo lugar.
— E seu nome?
— Minha irmã mais velha escreveu até eu copiar.
— Que outras palavras você sabe?
Minha mãe fechou o cesto.
— Quinta-feira você pergunta.
Levou as verduras para a despensa. Voltei à mesa e abri o arquivo que preparara. Apaguei a sequência de letras isoladas. Mantive as quatro palavras do cardápio, sem ordem definida, e fechei o computador.
Na geladeira havia um papel preso por ímã com a lista de compras de Jandira. Tomate, cebola, alho, óleo, café, leite, ovos. A letra mudava de uma palavra para outra. Algumas tinham sido escritas por ela. Outras vinham da mão do rapaz da lotérica. Reconheci a diferença pela inclinação e pelo tamanho.
Minha mãe apareceu na porta da despensa.
— Vai mexer na lista?
— Só estou olhando.
— Sabe quais fui eu que escrevi?
— Acho que sim.
— Então a próxima prova é sua.
Ela retirou o papel da geladeira, dobrou uma vez e guardou no bolso. Depois colocou arroz no fogo e me entregou uma faca.
— Corta duas cebolas.
Fiz o que ela pediu. Jandira temperou o feijão sem consultar medida. Durante o preparo, não falamos de letras, prazos ou métodos. Ela provou o caldo, acrescentou sal e me deu outra colher.
— Agora está bom?
— Está.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Não quer anotar?
Olhei para ela. Minha mãe sustentou a seriedade durante dois segundos e começou a rir.
Eu ri também, ainda irritada, com os olhos ardendo por causa da cebola.