A Primeira Aula A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 4 de 23
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A Primeira Aula

Preparei a mesa da cozinha durante quase uma hora.

Afastei o açucareiro, limpei uma marca de copo e coloquei duas cadeiras lado a lado. Abri o caderno amarelo, separei folhas brancas, lápis, borracha e as canetas azuis. No computador, montei uma sequência curta para descobrir quais letras minha mãe reconhecia, quais sons associava a elas e quanto conseguia compreender de uma frase simples.

Usei fonte grande. Eliminei desenhos. Troquei exemplos infantis por palavras do balcão.

CAFÉ.

LEITE.

OVO.

ARROZ.

Ao terminar, contemplei o material com a satisfação de quem corrigira um erro antes que ele acontecesse.

Jandira entrou às duas e dez, carregando uma sacola de tomates e outra de cebolas. Colocou as compras sobre a pia, tirou os sapatos junto à porta e veio até a mesa.

— Isso tudo é para hoje?

— É uma avaliação inicial.

— Você falou que não faria prova.

— Não vale nota.

— Então é prova que não paga nem dá resultado.

— Preciso conhecer sua leitura.

Minha mãe retirou o avental, dobrou e pendurou no encosto de uma cadeira.

— Você me viu trabalhar ontem.

— Vi.

— Perguntou coisas.

— Ainda faltam informações.

Ela olhou para a tela do computador. As quatro palavras ocupavam quase toda a página.

— Senta um pouco — pedi.

— Vou guardar os tomates.

— Depois a gente guarda.

Jandira pegou as duas sacolas e levou para a despensa. Ouvi a porta do armário, o movimento das caixas plásticas e a torneira. Esperei cinco minutos. Quando ela voltou, trouxe um copo de água e sentou na cadeira mais distante da minha.

Mudei o computador de lugar.

— Quero começar com estas palavras.

— Café, leite, ovo e arroz.

— Certo.

— Acabou a avaliação?

— Como você identificou?

— Você pegou do meu cardápio.

— Leu alguma?

— Café.

— As outras?

— Sei a ordem que você colocou.

Virei o computador para mim, troquei as posições e devolvi.

Jandira localizou CAFÉ. Depois tocou em OVO.

— Esta é curta.

— Qual palavra?

— Ovo.

— Leu ou deduziu?

— Tem três letras. Das quatro, só ovo tem três.

— E estas?

Ela apontou ARROZ e LEITE.

— Uma começa igual ao meu nome? — perguntou.

— Nenhuma.

— Então não sei.

Anotei a resposta numa folha.

— O que escreveu?

— A estratégia que você usou.

— Escreve na minha frente.

Empurrei a folha para o centro.

— Jandira reconhece CAFÉ e identifica OVO pelo tamanho.

Minha mãe leu o próprio nome no início.

— O resto fala de mim?

— Fala.

— Eu devia saber o que diz.

— Acabei de explicar.

— Depois de escrever.

— Posso falar antes da próxima vez.

Ela bebeu água.

— Faça isso.

Prossegui com letras isoladas. Mostrei A, J, C, M, O e S. Jandira reconheceu J, A e O. Chamou C de “a letra de Cássia” e confundiu M com N.

— Olhe outra vez — falei, apontando o M. — Quantas pernas?

— Letra tem perna?

— É um jeito de observar o desenho.

— Então chama de risco. Perna me faz procurar pé.

Corrigi minha anotação.

Mostrei o N ao lado do M e expliquei a diferença. Minha mãe aproximou o rosto, comparou e repetiu os nomes. Quando afastei as letras, confundiu de novo.

— Vamos tentar com som.

Pronunciei M lentamente.

— Que som você ouve?

— Você está fazendo barulho de quem gostou de comida.

— É o som da letra.

— Sozinha?

— Sim.

— Quando escreve, ela fica sozinha?

— Às vezes.

— No meu cardápio fica?

— Em nenhuma dessas palavras.

Jandira encostou as costas na cadeira.

— Então me ensina junto.

— Preciso apresentar as letras.

— Você apresentou. Eu já esqueci duas.

Mantive a voz calma.

— Esquecer faz parte.

— Falar calmo desse jeito também faz parte?

— Desse jeito como?

— Separando tudo.

— Quero ser clara.

— Você fala diferente comigo desde a ligação.

Olhei para as folhas sobre a mesa. Minha mãe tocou a borda do caderno amarelo e esperou.

— Estou tentando evitar confusão — respondi.

— A confusão é minha.

— A aula é nossa.

— Então deixa eu entrar nela.

Minha preparação começou a ocupar espaço demais sobre a mesa. Fechei o computador e puxei o caderno.

— Certo. O que você quer fazer?

— Você é a professora.

— Acabou de pedir para escolher.

— Pedi para participar.

Eu sabia explicar participação em qualquer reunião pedagógica. Diante de Jandira, a palavra perdeu utilidade.

— Vamos usar o cardápio inteiro — propus.

Abri a lista escrita no terminal. Minha mãe acompanhou cada linha.

— Aponte onde está café.

Ela apontou.

— Café grande.

Jandira procurou a palavra repetida e escolheu a linha certa.

— Café com leite.

Encontrou novamente.

— Agora leite puro.

O dedo desceu e parou em PÃO COM MANTEIGA.

— Leia o começo — pedi.

— Eu não sei.

— Tente pelo som.

— Qual som?

— O primeiro.

— Acabei de dizer que não sei.

— Errar ajuda a descobrir.

— Ajuda você a descobrir.

Ela retirou a mão da página.

— Estamos juntas nisso.

— Você sabe todas as respostas.

— Por isso posso ensinar.

— Por isso esquece que estou vendo a pergunta sem enxergar saída.

Eu me calei.

Jandira fechou o caderno.

— Chega por hoje.

— Faz vinte minutos.

— Para mim chegou.

— Você quer parar porque ficou difícil?

Minha mãe levantou.

— Quero parar porque você não escuta.

— Passei a aula inteira ouvindo.

— Ouviu para anotar.

— Estou tentando fazer direito.

— Direito para quem?

Ela pegou o copo vazio e levou à pia.

— Não precisa transformar tudo numa briga — falei.

Jandira abriu a torneira. Lavou o copo, colocou no escorredor e permaneceu de costas.

— Você trouxe uma escola inteira para minha cozinha.

— Trouxe quatro palavras.

— Trouxe esse jeito de olhar quando eu erro. Esse jeito de esperar. Essa voz baixa.

— Eu uso a mesma voz com meus alunos.

Ela se virou.

— Eu sou sua mãe.

A frase encerrou qualquer resposta fácil.

Jandira guardou os tomates num cesto e começou a separar as cebolas. O movimento tinha precisão, embora duas cebolas fossem para o lado errado e ela precisasse trocar.

— A aula acabou — repetiu.

Recolhi as folhas. Fechei as canetas e empilhei os materiais. Minha vontade era explicar que uma avaliação inicial evitaria perda de tempo, permitiria acompanhar progresso e ajudaria a escolher atividades adequadas. Eu conseguiria transformar a discussão numa justificativa impecável.

Guardei tudo na sacola.

— Amanhã eu tento de outro jeito.

— Amanhã eu tenho fornecedor depois do almoço.

— Quinta, então.

— Quinta é nosso dia.

Ela não cancelara a próxima aula. A pequena concessão me aliviou antes que eu pudesse impedir.

— Posso perguntar uma coisa sem anotar?

Jandira continuou separando cebolas.

— Pode.

— Como você aprendeu a reconhecer café?

— Na lata da minha avó.

— Alguém ensinou?

— Ela apontava quando mandava buscar. Depois apareceu no mercado, no saco, na placa, em todo lugar.

— E seu nome?

— Minha irmã mais velha escreveu até eu copiar.

— Que outras palavras você sabe?

Minha mãe fechou o cesto.

— Quinta-feira você pergunta.

Levou as verduras para a despensa. Voltei à mesa e abri o arquivo que preparara. Apaguei a sequência de letras isoladas. Mantive as quatro palavras do cardápio, sem ordem definida, e fechei o computador.

Na geladeira havia um papel preso por ímã com a lista de compras de Jandira. Tomate, cebola, alho, óleo, café, leite, ovos. A letra mudava de uma palavra para outra. Algumas tinham sido escritas por ela. Outras vinham da mão do rapaz da lotérica. Reconheci a diferença pela inclinação e pelo tamanho.

Minha mãe apareceu na porta da despensa.

— Vai mexer na lista?

— Só estou olhando.

— Sabe quais fui eu que escrevi?

— Acho que sim.

— Então a próxima prova é sua.

Ela retirou o papel da geladeira, dobrou uma vez e guardou no bolso. Depois colocou arroz no fogo e me entregou uma faca.

— Corta duas cebolas.

Fiz o que ela pediu. Jandira temperou o feijão sem consultar medida. Durante o preparo, não falamos de letras, prazos ou métodos. Ela provou o caldo, acrescentou sal e me deu outra colher.

— Agora está bom?

— Está.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Não quer anotar?

Olhei para ela. Minha mãe sustentou a seriedade durante dois segundos e começou a rir.

Eu ri também, ainda irritada, com os olhos ardendo por causa da cebola.

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