A Bolsa A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 9 de 23
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A Bolsa

No sábado, encontrei minha mãe diante do terminal às quatro e quarenta da manhã.

Ela já levantara a porta metálica pela metade e tentava passar uma caixa de copos pelo vão. Peguei a outra ponta.

— Você chegou cedo — disse.

— Tenho caixa para abrir com cento e vinte e seis.

Jandira soltou a caixa no chão.

— Então lembrou.

— Trouxe a moeda.

Mostrei o dinheiro que ela me dera. Minha mãe abriu a pochete, colocou a moeda com a reserva e entregou a chave do caixa.

Trabalhamos sem discutir durante a primeira hora. Eu recebia os pagamentos e repetia o troco em voz alta. Jandira corrigiu uma soma, aprovou três e deixou que eu resolvesse a falta de notas pequenas com o jornaleiro.

Às seis, uma mulher de blazer azul parou diante do balcão.

— Professora Cássia?

Reconheci Sônia, orientadora da escola em que eu estudara. O cabelo estava mais curto e os óculos, presos por uma corrente vermelha.

— Faz muitos anos — falei.

— Soube que você voltou. Sua mãe contou que está trabalhando pela internet.

Jandira colocou café numa xícara.

— Ela fica doze semanas.

Sônia recebeu a bebida e sorriu para mim.

— Você sempre teve prazo para tudo. Até para aceitar aquela bolsa.

Minha mão parou sobre uma nota de cinco reais.

— Que bolsa? — perguntou Diná, do outro lado do balcão.

— A que levou Cássia para estudar no Colégio Horizonte — respondeu Sônia. — Integral, com moradia e alimentação. Uma oportunidade rara.

— Foi há muito tempo — falei.

— Sua mãe fez uma campanha para você aceitar.

Jandira empurrou a xícara na direção dela.

— O café esfria.

Sônia percebeu o corte e pagou. Antes de sair, tocou meu braço.

— Fico feliz que esteja aqui.

Assenti. Esperei que atravessasse o saguão.

— Campanha? — perguntei.

Minha mãe começou a alinhar as tampas dos copos.

— Ela fala demais.

— O que significa campanha?

— Significa que o café dela custa quatro reais e rendeu conversa para o dia inteiro.

— Jandira.

Diná olhou de uma para a outra.

— Vou buscar pão.

— Ainda temos pão — disse minha mãe.

— Vou conferir o que ainda temos.

Diná saiu pelo corredor do depósito.

— Você procurou Sônia para me convencer? — perguntei.

— A escola procurou você.

— Sônia disse que você fez campanha.

— Ela queria que você aceitasse.

— E você também.

— Queria.

— Sem perguntar se eu queria.

Jandira apertou o pacote de tampas até o plástico estalar.

— Você tinha dezessete anos.

— Idade suficiente para mudar de cidade.

— Idade suficiente para estudar.

— Não para escolher?

Um passageiro pediu café. Minha mãe serviu. Eu recebi o dinheiro, dei o troco e mantive a pergunta entre nós.

Quando o homem saiu, Jandira falou:

— Você queria a bolsa.

— Queria estudar. Também tinha medo.

— Todo mundo tinha.

— Você não falou que tinha.

— Isso ia ajudar?

— Ia me deixar saber que estava indo embora de uma casa onde alguém sentiria minha falta.

Ela pegou o pano e limpou uma gota de café.

— Eu senti.

— Você disse para eu partir sem olhar para trás.

— Eu lembro.

— Disse que o quarto ficaria livre para guardar mercadoria.

Jandira fechou os olhos por um instante.

— Eu lembro disso também.

— Ótimo. Então não preciso explicar por que passei seis anos achando que você preferia espaço para caixas.

— Você voltou nas férias.

— Nas duas primeiras.

— Depois parou.

— Porque cada vez que eu vinha você perguntava quando eu ia embora.

— Você tinha aula.

— Eu também tinha passagem de volta. Sabia a data.

— Eu precisava organizar a casa.

— Para guardar mercadoria?

Minha mãe jogou o pano dentro da pia.

— Para sobreviver.

A palavra elevou sua voz e silenciou o balcão. Duas pessoas na fila olharam. Jandira atendeu os pedidos sem me dirigir outra frase. Eu permaneci no caixa porque sair seria uma cena maior.

Durante uma hora, trabalhamos por gestos. Ela dizia os valores aos clientes. Eu contava o dinheiro. Diná voltou com um saco de pão que ninguém pedira e evitou perguntas.

Às oito e meia, Jandira colocou um prato com pão e ovo perto de mim.

— Come.

— Não estou com fome.

— Você está desde quatro e meia no caixa.

— Consigo decidir.

Ela retirou o prato.

— Consegue.

O movimento caiu perto das dez. Diná assumiu o balcão, e minha mãe foi para a área de serviço. Esperei cinco minutos antes de segui-la.

Jandira separava panos limpos por tamanho.

— Eu não quero terminar a conversa daquele jeito — falei.

— Então termina de outro.

— Você me mandou embora.

— Eu mandei você estudar.

— Usou palavras que me tiraram de casa.

— Você tinha uma bolsa.

— Bolsa paga escola. Não diz o que uma mãe sente.

Jandira dobrou outro pano.

— Eu não sabia dizer.

— Sabia dizer para eu não olhar para trás.

— Isso eu sabia.

— Por quê?

Ela apertou a dobra com a palma.

— Porque olhar para trás prende a pessoa.

— Quem ensinou isso?

— Minha vida.

— Funcionou comigo. Fiquei presa seis anos naquela frase.

Jandira largou o pano.

— E eu fiquei seis anos esperando você telefonar sem pressa.

— Você podia ter ligado.

— Liguei.

— Para perguntar do trabalho, do aluguel, da passagem de Natal.

— Eu não sabia perguntar outra coisa.

— Está perguntando agora.

— Agora eu precisei.

Aquilo me feriu antes que eu entendesse.

— Então é só por causa do curso?

— Eu não falei isso.

— Falou que precisou.

— Precisei chamar. Precisava antes e fiquei quieta.

Minha vontade era exigir a frase completa. Perguntar do que ela precisara durante os seis anos, por que escondera, por que ainda fazia cada resposta chegar pela metade. Em vez disso, sentei sobre uma caixa fechada de guardanapos.

— Quando recebi a notícia da bolsa, você já sabia? — perguntei.

— A diretora me chamou dois dias antes.

— Ela leu os termos para você?

Jandira virou o rosto.

— Leu.

— Foi assim que soube da moradia e da alimentação.

— Foi.

— Por que não me contou que precisou de ajuda?

— Porque a bolsa era sua.

— Isso não responde.

— Eu ia começar sua partida dizendo que não conseguia ler o papel que mudava sua vida?

Permaneci sentada.

Minha mãe recolheu os panos e os colocou numa prateleira.

— Sônia disse que a senhora fez campanha.

Jandira respirou fundo.

— Seu uniforme precisava de sapato. A bolsa não pagava. Vendi almoço por duas semanas antes de o curso começar.

— Eu achei que a escola tivesse dado.

— Eu deixei achar.

— Por quê?

— Porque você quase recusou quando viu o preço.

— Eu podia ter trabalhado.

— Você tinha dezessete anos.

— Outra vez isso.

— Outra vez. Eu queria que você estudasse.

— E eu queria saber de você.

— Sabia o bastante.

Levantei.

— Não sabia.

Ela concordou com um movimento curto da cabeça.

— Está sabendo agora.

— Uma parte.

— É o que consigo falar hoje.

Eu poderia ter insistido. Tínhamos chegado perto de uma explicação, e minha profissão me ensinara a fazer perguntas até completar uma ideia. Minha mãe, diante de mim, estabelecia o limite de outra maneira. Não fugia da conversa. Também não entregava tudo porque eu exigira.

— Certo — falei. — Uma parte.

Voltamos ao balcão.

Às onze, Sônia passou novamente a caminho da saída. Parou longe da fila e ergueu a mão. Jandira respondeu com um aceno. Eu fiz o mesmo.

Minha mãe aproximou a pochete.

— Quanto tem?

Contei as notas e as moedas.

— Quinhentos e seis.

— Começamos com cento e vinte e seis. Vendas em dinheiro?

Somei as folhas.

— Trezentos e oitenta.

— Fecha.

— Fecha.

Ela guardou o dinheiro.

— Sua bolsa ainda existe?

— A mochila?

— Aquela marrom que você levou.

— Existe. Uso para carregar livros.

— Era grande demais para você.

— Você comprou grande demais.

— Precisava caber tudo.

— Coube.

Jandira trancou a pochete e devolveu a chave do caixa.

— Amanhã, cento e vinte e seis de novo.

— Eu venho.

Dessa vez, nenhuma de nós transformou a resposta num prazo.

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