As Palavras que Ela Já Sabe A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 5 de 23
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As Palavras que Ela Já Sabe

Na quinta-feira, encontrei o caderno amarelo aberto sobre a mesa e nenhum outro material à vista.

Jandira chegara do terminal, tomara banho e trocara o avental por um vestido leve. O cabelo molhado deixava pequenas marcas nos ombros. Havia café fresco na garrafa e duas fatias de queijo num prato. Minha mãe sentou, colocou a lista de compras entre nós e alisou a dobra.

— Hoje você faz a prova — disse.

— Combinamos que não seria prova.

— A sua pode.

Aceitei o papel.

Sete itens apareciam na lista. Tomate, cebola, alho, óleo, café, leite e ovos. As letras variavam em tamanho, pressão e inclinação.

— Você escreveu café — falei.

— Como sabe?

— É a palavra que reconhece melhor.

— Pode ter sido o rapaz.

— O C está igual ao C de Cássia que você fez no caderno.

Ela concordou com um movimento curto.

— Escreveu ovos também.

— Por quê?

— As letras estão separadas. Você parou entre uma e outra.

— Isso prova que fui eu?

— É uma hipótese.

— Professora chama palpite de hipótese.

— Quando tem motivo, sim.

Jandira apontou leite.

— E esta?

— O rapaz da lotérica.

— Errou.

Olhei outra vez.

— Você escreveu?

— Minha vizinha.

— Não conheço a letra dela.

— Então não podia saber.

Minha mãe recolheu o papel com satisfação.

— A prova terminou empatada — declarou.

— Qual era a pontuação?

— Eu decido depois.

Ela colocou a lista ao lado e abriu o caderno.

— Pode perguntar.

Eu preparara outra aula no computador. Deixei o aparelho fechado.

— Quero descobrir as palavras que você reconhece em qualquer lugar.

— Café.

— Já temos uma.

— Jandira. Cássia. Saída. Banheiro. Dinheiro.

— Dinheiro?

— Está escrito na lotérica.

— Mostra quando formos lá.

— Você acha que estou inventando?

— Quero ver como identifica.

Ela aceitou a explicação.

— Aberto e fechado — continuou. — Masculino e feminino. Entrada. Plataforma. Ônibus. Perigo. Promoção.

— Você sabe bastante.

— Eu falei desde o começo.

— Sabe ler essas palavras ou reconhece onde costumam aparecer?

Jandira pensou.

— Algumas eu leio. Outras estão sempre no mesmo lugar.

— Vamos separar.

— Sem letras soltas.

— Sem letras soltas.

Saímos de casa levando caderno e caneta. Minha mãe escolhera fazer a aula no bairro, decisão que não estava no meu planejamento. Caminhamos em direção ao terminal.

Na primeira esquina, havia uma placa de PARE presa ao poste.

— Esta eu sei — disse.

— Como?

— Todo motorista sabe.

— Você não dirige.

— Todo pedestre que não quer morrer também.

Pedi que escrevesse. Jandira apoiou o caderno no muro baixo de uma casa e copiou PARE. O P saiu grande. O R ficou apertado contra o E.

— Leia sem olhar a placa.

Ela virou o corpo.

— Pare.

Seguimos.

Na farmácia, minha mãe reconheceu ABERTO pelo lugar e pelo horário. Pedi que comparasse com a palavra escrita no caderno. Ela encontrou A, depois B, hesitou no E e confirmou o restante pela extensão.

— Agora eu li?

— Leu partes e conferiu.

— Serve?

— Serve.

Jandira copiou ABERTO na página.

Na porta seguinte, uma loja exibia LIQUIDAÇÃO em letras vermelhas.

— Promoção — falou.

— Está escrito liquidação.

— Dá no mesmo.

— Para comprar, talvez. Para ler, são palavras diferentes.

— As duas querem meu dinheiro.

Expliquei a diferença e pedi que procurasse PROMOÇÃO em outra placa. Encontramos a palavra numa loja de roupas, junto de porcentagens e preços. Jandira comparou o início das duas.

— Promoção começa com P de pare.

— Isso.

— E termina com esse risco em cima.

— O til.

— Faz o som sair pelo nariz.

Ela pronunciou promoção, prolongando o final. Depois repetiu liquidação e percebeu o mesmo sinal.

— Duas palavras com til.

— Sim.

— Pode escrever só a parte final?

Escrevi ÃO no alto da página. Jandira copiou duas vezes.

— Agora a letra está sozinha — comentou.

— Você pediu.

— Porque encontrei dentro de duas palavras.

Guardou o caderno e retomou a caminhada.

No terminal, passamos primeiro pela lotérica. O letreiro trazia PAGAMENTOS, SAQUES, DEPÓSITOS e TRANSFERÊNCIAS. A palavra DINHEIRO não estava em lugar algum.

— Você disse que lia dinheiro aqui.

Jandira apontou um adesivo perto do caixa: RETIRE SEU DINHEIRO E CONFIRA.

— Está aí.

— Como reconhece?

— Começa com o mesmo pedaço de Diná.

— Quem é Diná?

— A mulher que trabalhou comigo antes de você nascer.

Ela abriu o caderno e tentou escrever o nome da antiga colega. Fez D, I, N e parou.

— Diná tinha acento? — perguntou.

— Tinha.

— Dinheiro não.

— Certo.

— Então esse risco não faz parte do nome?

— Faz parte da escrita de Diná. A sílaba forte fica no fim. Em dinheiro, a força está no meio.

Minha mãe repetiu as duas palavras. Tocou o próprio pescoço enquanto falava, recurso que eu não sugerira. Depois escreveu DINÁ e DINHEIRO uma abaixo da outra.

O rapaz da lotérica observava do caixa.

— Aula na rua hoje? — perguntou.

Jandira fechou o caderno.

— Hoje e quando eu quiser.

Ele ergueu as mãos e voltou ao atendimento.

— Você não contou para ele? — perguntei.

— Ele já sabia que você veio ensinar.

— Pensei que não quisesse ninguém sabendo.

— Eu não quero gente assistindo.

A diferença era importante. Anotei na memória e deixei o caderno em paz.

Seguimos pelo saguão. Jandira reconheceu SAÍDA em três placas diferentes. Na quarta, apontou antes de observar a seta.

— Li essa.

— Leu.

Ela escreveu SAÍDA. Colocou o acento sobre o I depois de conferir a placa.

— Por que tem esse?

Expliquei que o acento separava a força das vogais e impedia que a sequência fosse pronunciada de outro jeito. Jandira repetiu SAÍDA, tocando cada parte com a ponta da caneta.

— Sa-í-da.

— Isso.

— Três pedaços.

— Três sílabas.

— Pedaço serve até eu lembrar sílaba.

— Serve.

Na placa dos banheiros, reconheceu as figuras antes das palavras. Cobri os desenhos com a mão.

— Qual é qual?

— Masculino é a de cima.

— Como sabe?

— Tem mais letras.

— E se mudarem a ordem?

— Procuro o M.

Ela identificou M nas duas palavras e ficou contrariada.

— As duas começam igual.

— Começam com a mesma sílaba.

— Então o M não resolve.

— O que pode ajudar?

Jandira comparou as palavras durante alguns segundos.

— Esta tem C perto do fim — falou, apontando MASCULINO. — A letra de Cássia.

— E feminino não tem.

— Então masculino tem você.

— Um C.

— Foi o que eu disse.

Ela copiou apenas MASCULINO. Quando perguntei sobre a outra, respondeu que aprenderia na volta. Não insisti.

O Ponto da Jandira estava fechado. Minha mãe ergueu a porta só o bastante para entrarmos e acendeu a luz. O cardápio digital permanecia apagado. Ela o ligou, esperou iniciar e abriu a lista de produtos usando os ícones memorizados.

— Quero ler isto.

Na tela apareciam os dez itens que cadastramos.

— Vamos escolher cinco para hoje.

— Dez.

— Cinco bem aprendidos.

— O cardápio não vende metade.

— Sua atenção tem limite.

— A sua também.

Escolhemos seis.

CAFÉ.

LEITE.

OVO.

ARROZ.

FRANGO.

SUCO.

Minha mãe já reconhecia CAFÉ e OVO. Trabalhamos com as quatro restantes. Em vez de esconder palavras ou mudar posições, pedi que dissesse o que conhecia de cada uma.

LEITE tinha o L que ela via nas caixas e o T comprido no meio.

ARROZ começava com A, repetia R e terminava com a letra de zebra, animal que ela conhecia das revistas antigas da sala de espera do posto.

FRANGO começava com o mesmo som de frio e tinha o A de Jandira no meio.

SUCO começava com S, letra que minha mãe reconhecia nas placas de saída.

Ela criou as próprias referências. Algumas fugiam do método que eu usaria com outra pessoa. Mantive.

Depois de quarenta minutos, Jandira localizou as seis palavras no cardápio em ordens diferentes. Errou FRANGO duas vezes. Na terceira, separou o F do R com o dedo e pronunciou o início.

— Fran.

Esperou.

— Frango.

— Sim.

Ela colocou o item como disponível na tela. O nome apareceu no cardápio voltado ao corredor.

Jandira saiu do balcão, ficou diante do monitor e leu cada produto escolhido. Café. Leite. Ovo. Arroz. Frango. Suco.

No fim, voltou para trás do caixa e abriu o caderno.

— Faltam quatro.

— Ficam para a próxima aula.

— Hoje ainda é quinta.

— Você trabalhou desde cedo, andou o bairro e aprendeu seis palavras.

— Duas eu já sabia.

— Aprendeu quatro e confirmou duas.

Ela aceitou a conta.

Antes de fechar o caderno, escreveu no alto da página AS PALAVRAS QUE EU SEI. Pediu ajuda apenas para QUE. Abaixo, copiou as seis palavras do cardápio e acrescentou PARE, ABERTO, PROMOÇÃO, DINHEIRO, SAÍDA e MASCULINO.

Doze palavras.

— Jandira e Cássia não entram? — perguntei.

— Essas eu sabia antes da aula.

— Então deveriam abrir a lista.

Minha mãe pensou, virou a página e escreveu JANDIRA na primeira linha. Na segunda, escreveu meu nome sem consultar placa, telefone ou caderno.

CÁSSIA.

O acento ficou certo. Os dois esses também.

— Quem ensinou a escrever? — perguntei.

— Eu escolhi seu nome. Tinha obrigação de saber.

Ela fechou o caderno e desligou a tela. Saímos do balcão, e Jandira baixou a porta de metal.

Do lado de fora, conferiu a placa amarela presa acima de nós. PONTO DA JANDIRA.

— Ponto eu ainda não sei — falou.

— Amanhã.

— Amanhã é sexta. Nossa aula é domingo.

— Você pode aprender fora da aula.

Minha mãe guardou a chave.

— Então amanhã.

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