Voltar à Sala A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 19 de 23
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Jandira telefonou para Joelma na segunda-feira, às seis e quarenta da manhã.

Eu preparava café. Minha mãe colocou o aparelho no viva-voz e apoiou perto da janela.

— Professora, é Jandira.

— Bom dia, Jandira. Estou ouvindo.

— Quero voltar amanhã.

Joelma levou um segundo para responder.

— Sua cadeira continua na turma.

— Tenho condições.

— Pode dizer.

Jandira retirou uma folha do bolso do avental. Havia quatro linhas escritas por ela.

— Ninguém grava a aula.

— Certo.

— Meu nome e minha história não vão para mural, página ou reunião sem eu autorizar.

— Certo.

— Se tiver leitura em voz alta, posso passar minha vez.

— Sempre pôde.

— Quero ouvir isso na sala.

— Eu digo no início.

— Se eu faltar, liga para mim. Não liga para minha filha.

Joelma respondeu:

— O contato cadastrado é o seu. Continuará assim.

Jandira conferiu a folha.

— São essas.

— Aceito as quatro.

— Perdi o quê?

— Duas aulas. Trabalhamos formulários, leitura de avisos e uma atividade de escrita sobre o bairro. Posso separar o material.

— Eu busco hoje.

— Estarei na Sala Três às seis.

Minha mãe encerrou a ligação.

— Quer café? — perguntei.

— Quero.

Servi.

— Não vai perguntar?

— A senhora já decidiu.

— Pode perguntar uma coisa.

— Quer que eu vá com você buscar o material?

— Não.

— Então acabou minha pergunta.

Jandira bebeu metade da xícara.

— Amanhã você pode caminhar até o corredor.

— E parar onde?

— Na porta da administração.

— Certo.

— Não espera duas horas.

— Volto para casa.

— Certo.

Às seis da tarde, ela buscou as folhas perdidas. Voltou com dois avisos impressos, um formulário de cadastro e uma página em branco com o título MEU BAIRRO. Guardou tudo na seção CURSO.

Não pediu ajuda.

Na terça, saiu de casa às seis e meia. Vestia a mesma blusa usada nas duas tentativas anteriores. O caderno amarelo estava dentro da bolsa. A faixa do alfabeto seguia dobrada na pasta.

Caminhamos até o terminal.

Na entrada lateral, um rapaz levantou o telefone para fotografar os horários dos ônibus. Jandira diminuiu o passo. Esperei ao lado dela.

— Ele está gravando? — perguntou.

— Está fotografando o painel.

— Tem certeza?

— A câmera está voltada para cima.

Ela observou mais alguns segundos.

— Vamos.

Seguimos.

Parei diante da administração. A porta da Sala Três ficava vinte metros adiante.

— Daqui — disse minha mãe.

— Daqui.

Joelma apareceu no corredor. Não se aproximou para receber Jandira. Apenas abriu a sala e cumprimentou quem entrava.

Minha mãe segurou a alça da bolsa.

— Você vai para casa?

— Vou.

— Mesmo?

— Posso mandar uma fotografia da cozinha vazia.

— Não tem graça.

— Concordo.

Jandira avançou. Dalva chegou pelo outro lado, tocou o ombro dela e disse alguma coisa que não ouvi. As duas entraram juntas.

Voltei para casa.

Durante duas horas, revisei uma unidade inteira da apostila. Não consultei o telefone. Às nove e vinte, a chave girou na porta.

Jandira entrou carregando três folhas.

— Como foi? — perguntei.

— Teve aula.

— Joelma falou das condições?

— Falou para a turma que ninguém é obrigado a ler e que fotografia ou gravação precisa de autorização de todos.

— Alguém perguntou o motivo?

— O homem da farmácia perguntou se tinha acontecido alguma coisa.

— E?

— Joelma disse que a regra valia sem explicação.

Minha mãe colocou as folhas sobre a mesa.

— Fez leitura em voz alta?

— Passei na primeira.

— E na segunda?

— Li.

— O quê?

Ela mostrou um aviso:

ATENÇÃO

A PLATAFORMA QUATRO FICARÁ FECHADA DAS OITO ÀS DEZ HORAS.

— Leu tudo?

— Troquei “ficará” por “fica”. Voltei e corrigi.

— Diante da turma?

— Diante da turma.

— O que sentiu?

Jandira guardou o aviso.

— Li um papel. Depois sentei.

Eu queria saber sobre o silêncio, os olhos, a espera e a lembrança dos nove anos. Minha mãe oferecia o tamanho que o acontecimento tivera naquela noite.

— Certo.

— Joelma entregou o material das faltas.

Ela abriu o formulário de cadastro. Nome, endereço, telefone, data de nascimento e profissão.

— Preenchi quase tudo.

— O que faltou?

— Endereço. Não sabia escrever Jardim do Cedro inteiro.

— Quer aprender?

Jandira olhou para mim.

— Estou perguntando porque a senhora mostrou.

— Quero amanhã.

— Em folha solta?

— Em folha solta.

Ela abriu o caderno na seção PERGUNTAS e escreveu:

COMO ESCREVER MEU ENDEREÇO?

— Mais alguma condição? — perguntei.

— Quarenta minutos.

— Para a aula?

— Para nossa aula.

— Quando começa?

— Amanhã, depois do jantar.

— E se eu preparar material?

— Só o endereço.

— Certo.

— Se eu quiser parar, a aula para.

— Certo.

— Se você usar voz de palestra, acaba.

— Essa condição é difícil de medir.

— Eu reconheço.

— Certo.

Jandira guardou o caderno. Depois retirou o calendário do curso e contou os dias até o limite para solicitar apoio de leitura.

— Faltam três — disse.

— Vai solicitar?

— Amanhã eu faço um simulado. Depois decido.

— Quer que eu prepare?

— Quero. Vinte questões. O mesmo formato da prova.

— Posso usar palavras que ainda não estudamos?

— A prova vai usar.

— Posso marcar o tempo?

— Pode.

— Quer que eu leia alguma questão se pedir?

— Só se eu pedir.

Anotei as condições numa folha solta.

Jandira verificou cada linha antes de autorizar o preparo. Em seguida, colocou o calendário de volta na pasta e ligou o rádio.

Dobrei a folha com as condições e coloquei ao lado do computador.

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