Voltar à Sala
Jandira telefonou para Joelma na segunda-feira, às seis e quarenta da manhã.
Eu preparava café. Minha mãe colocou o aparelho no viva-voz e apoiou perto da janela.
— Professora, é Jandira.
— Bom dia, Jandira. Estou ouvindo.
— Quero voltar amanhã.
Joelma levou um segundo para responder.
— Sua cadeira continua na turma.
— Tenho condições.
— Pode dizer.
Jandira retirou uma folha do bolso do avental. Havia quatro linhas escritas por ela.
— Ninguém grava a aula.
— Certo.
— Meu nome e minha história não vão para mural, página ou reunião sem eu autorizar.
— Certo.
— Se tiver leitura em voz alta, posso passar minha vez.
— Sempre pôde.
— Quero ouvir isso na sala.
— Eu digo no início.
— Se eu faltar, liga para mim. Não liga para minha filha.
Joelma respondeu:
— O contato cadastrado é o seu. Continuará assim.
Jandira conferiu a folha.
— São essas.
— Aceito as quatro.
— Perdi o quê?
— Duas aulas. Trabalhamos formulários, leitura de avisos e uma atividade de escrita sobre o bairro. Posso separar o material.
— Eu busco hoje.
— Estarei na Sala Três às seis.
Minha mãe encerrou a ligação.
— Quer café? — perguntei.
— Quero.
Servi.
— Não vai perguntar?
— A senhora já decidiu.
— Pode perguntar uma coisa.
— Quer que eu vá com você buscar o material?
— Não.
— Então acabou minha pergunta.
Jandira bebeu metade da xícara.
— Amanhã você pode caminhar até o corredor.
— E parar onde?
— Na porta da administração.
— Certo.
— Não espera duas horas.
— Volto para casa.
— Certo.
Às seis da tarde, ela buscou as folhas perdidas. Voltou com dois avisos impressos, um formulário de cadastro e uma página em branco com o título MEU BAIRRO. Guardou tudo na seção CURSO.
Não pediu ajuda.
Na terça, saiu de casa às seis e meia. Vestia a mesma blusa usada nas duas tentativas anteriores. O caderno amarelo estava dentro da bolsa. A faixa do alfabeto seguia dobrada na pasta.
Caminhamos até o terminal.
Na entrada lateral, um rapaz levantou o telefone para fotografar os horários dos ônibus. Jandira diminuiu o passo. Esperei ao lado dela.
— Ele está gravando? — perguntou.
— Está fotografando o painel.
— Tem certeza?
— A câmera está voltada para cima.
Ela observou mais alguns segundos.
— Vamos.
Seguimos.
Parei diante da administração. A porta da Sala Três ficava vinte metros adiante.
— Daqui — disse minha mãe.
— Daqui.
Joelma apareceu no corredor. Não se aproximou para receber Jandira. Apenas abriu a sala e cumprimentou quem entrava.
Minha mãe segurou a alça da bolsa.
— Você vai para casa?
— Vou.
— Mesmo?
— Posso mandar uma fotografia da cozinha vazia.
— Não tem graça.
— Concordo.
Jandira avançou. Dalva chegou pelo outro lado, tocou o ombro dela e disse alguma coisa que não ouvi. As duas entraram juntas.
Voltei para casa.
Durante duas horas, revisei uma unidade inteira da apostila. Não consultei o telefone. Às nove e vinte, a chave girou na porta.
Jandira entrou carregando três folhas.
— Como foi? — perguntei.
— Teve aula.
— Joelma falou das condições?
— Falou para a turma que ninguém é obrigado a ler e que fotografia ou gravação precisa de autorização de todos.
— Alguém perguntou o motivo?
— O homem da farmácia perguntou se tinha acontecido alguma coisa.
— E?
— Joelma disse que a regra valia sem explicação.
Minha mãe colocou as folhas sobre a mesa.
— Fez leitura em voz alta?
— Passei na primeira.
— E na segunda?
— Li.
— O quê?
Ela mostrou um aviso:
ATENÇÃO
A PLATAFORMA QUATRO FICARÁ FECHADA DAS OITO ÀS DEZ HORAS.
— Leu tudo?
— Troquei “ficará” por “fica”. Voltei e corrigi.
— Diante da turma?
— Diante da turma.
— O que sentiu?
Jandira guardou o aviso.
— Li um papel. Depois sentei.
Eu queria saber sobre o silêncio, os olhos, a espera e a lembrança dos nove anos. Minha mãe oferecia o tamanho que o acontecimento tivera naquela noite.
— Certo.
— Joelma entregou o material das faltas.
Ela abriu o formulário de cadastro. Nome, endereço, telefone, data de nascimento e profissão.
— Preenchi quase tudo.
— O que faltou?
— Endereço. Não sabia escrever Jardim do Cedro inteiro.
— Quer aprender?
Jandira olhou para mim.
— Estou perguntando porque a senhora mostrou.
— Quero amanhã.
— Em folha solta?
— Em folha solta.
Ela abriu o caderno na seção PERGUNTAS e escreveu:
COMO ESCREVER MEU ENDEREÇO?
— Mais alguma condição? — perguntei.
— Quarenta minutos.
— Para a aula?
— Para nossa aula.
— Quando começa?
— Amanhã, depois do jantar.
— E se eu preparar material?
— Só o endereço.
— Certo.
— Se eu quiser parar, a aula para.
— Certo.
— Se você usar voz de palestra, acaba.
— Essa condição é difícil de medir.
— Eu reconheço.
— Certo.
Jandira guardou o caderno. Depois retirou o calendário do curso e contou os dias até o limite para solicitar apoio de leitura.
— Faltam três — disse.
— Vai solicitar?
— Amanhã eu faço um simulado. Depois decido.
— Quer que eu prepare?
— Quero. Vinte questões. O mesmo formato da prova.
— Posso usar palavras que ainda não estudamos?
— A prova vai usar.
— Posso marcar o tempo?
— Pode.
— Quer que eu leia alguma questão se pedir?
— Só se eu pedir.
Anotei as condições numa folha solta.
Jandira verificou cada linha antes de autorizar o preparo. Em seguida, colocou o calendário de volta na pasta e ligou o rádio.
Dobrei a folha com as condições e coloquei ao lado do computador.