A Mulher que me Deu o Nome A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 23 de 23
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A Mulher que me Deu o Nome

A resposta da editora chegou dois dias depois da prova.

Li o e-mail no balcão, antes da abertura. A proposta incluía salário, benefícios e início em janeiro. Eu coordenaria uma equipe de quatro pessoas na preparação de materiais para educação de adultos.

Jandira colocava leite na geladeira.

— Conseguiu? — perguntou.

— Consegui.

— Quer?

— Quero.

— Então responde.

— Agora?

— Eles deram prazo?

— Até segunda.

— Você precisa de segunda?

Reli a proposta. O trabalho me interessara desde a entrevista. Gostei da equipe, do projeto e da possibilidade de acompanhar um material inteiro em vez de preparar unidades isoladas. A distância de Jandira também importava. Nenhuma dessas razões anulava as outras.

— Não preciso.

Aceitei.

Minha mãe abriu uma garrafa de refrigerante. Dessa vez, serviu os copos inteiros.

— Janeiro — disse.

— Janeiro.

— Vai ficar aqui até encontrar casa?

— A editora indicou uma imobiliária. Posso visitar sábado.

— Vai sozinha?

— Quero que a senhora vá.

— Para escolher?

— Para conhecer.

— Então vou.

Encontramos um apartamento pequeno perto da rodoviária de Santa Rita. Tinha um quarto, uma cozinha com duas janelas e espaço suficiente para meus livros. Jandira verificou torneiras, tomadas e o fechamento das portas. Eu negociei o aluguel.

— Você aprendeu troco — disse.

— E a senhora aprendeu contrato.

— Li a parte do reajuste.

— Eu vi.

Assinei por um ano.

Minha mudança aconteceu na segunda semana de janeiro. Paulo trouxe o carro. Renata trouxe caixas vazias, fita e uma lista de pessoas que eu precisava avisar. Jandira preparou almoço para todos e voltou para casa antes do fim da arrumação.

— Não vai ficar para ver pronto? — perguntei.

— Você mostra no domingo.

— Por chamada?

— Por chamada.

À noite, telefonei. Minha mãe pediu que eu mostrasse a cozinha, o quarto e a porta trancada. Depois leu o rótulo do café que eu comprara e disse que a torra era forte demais.

Combinamos almoço às quartas, quando meu trabalho terminava cedo, e ligação aos domingos. Nem toda semana cumpriu o plano. Em fevereiro, perdi uma quarta por causa de reunião. Em março, Jandira cancelou duas ligações para atender excursões no terminal. Ninguém transformou ausência em abandono sem perguntar antes.

Ela continuou na Sala Três.

No fim de março, Joelma organizou um encontro para receber novos alunos e entregar declarações do período anterior. Cada estudante poderia ler um texto próprio. Jandira me convidou com dez dias de antecedência.

— Visitante fica atrás? — perguntei.

— Desta vez tem cadeira marcada.

— Onde?

— Do meu lado.

Cheguei ao terminal às seis e meia. O Ponto da Jandira estava fechado. No cardápio digital, a torta de legumes aparecia às quartas e sextas. A informação de alergênicos permanecia abaixo do preço.

Na Sala Três, as cadeiras formavam um semicírculo. Joelma perguntava a cada pessoa se autorizava fotografia. Quem recusava recebia a declaração antes da imagem. Não havia gravação.

Jandira usava a blusa da volta à turma. O caderno amarelo estava aberto sobre seu colo.

— Trouxe o texto? — perguntei.

— Está aqui.

— Quer ensaiar?

— Já ensaiei.

— Quer que eu leia?

— Não.

Sentei ao lado dela.

Dalva abriu o encontro com um texto sobre a praça de seu bairro. O homem da farmácia leu um aviso que escrevera para os clientes. Uma mulher nova passou a vez e permaneceu na roda. Joelma não pediu explicação.

Quando chamou Jandira, minha mãe levou o caderno até a frente.

— Quer o microfone? — perguntou Joelma.

— Quero.

Jandira ajustou a folha. O texto ocupava sete linhas:

MEU NOME É JANDIRA NUNES.

EU TRABALHO NO TERMINAL.

EU SEI FAZER COMIDA, FAZER CONTA E DAR TROCO.

AGORA LEIO RECEITA, AVISO E PERGUNTA.

AINDA PRECISO DE TEMPO.

EU CONTINUO NA SALA TRÊS.

EU ESCREVI ESTE TEXTO.

Ela começou.

Leu o nome e o trabalho sem pausa. Em RECEITA, voltou ao início uma vez. Em PERGUNTA, separou as sílabas e retomou a frase. A palavra CONTINUO exigiu duas tentativas.

Ninguém completou.

— Eu continuo na Sala Três — leu.

Na última linha, sua voz saiu mais alta:

— Eu escrevi este texto.

Joelma recebeu o microfone. A turma aplaudiu. Jandira voltou para a cadeira e colocou o caderno no colo.

— Quer saber onde errou? — perguntei.

— Errei?

— Não.

— Então fica quieta.

Fiquei.

Depois das leituras, Joelma entregou as declarações. Jandira conferiu o nome, a carga horária e o período. Assinou o recebimento.

Uma das novas alunas se aproximou. Trabalhava numa lavanderia perto do terminal e tinha assistido ao encontro inteiro sem ler.

— Seu texto ficou bom — disse.

— Obrigada.

— Foi sua filha que escreveu?

Jandira chamou:

— Cássia.

Levantei.

Minha mãe apontou para mim.

— Esta é Cássia. Eu escolhi o nome dela. Ela me ensinou a escrever o meu.

A frase dava a mim um lugar maior que o verdadeiro. Joelma, Diná e a própria Sala Três também tinham ensinado. Jandira aprendera muito sozinha e com pessoas que conheciam a educação de adultos melhor que eu.

Não corrigi.

— Prazer — falei.

A nova aluna apertou minha mão.

— Você ensina aqui?

— Não. Aqui eu sou visitante.

Jandira fechou o caderno.

— Ela ajuda quando eu peço.

— Estou começando — disse ela. — Ainda não sei o que pedir.

— Primeiro escolhe uma palavra que usa — respondeu minha mãe. — Depois pergunta para Joelma.

Joelma chamou a turma para a fotografia. Confirmou novamente quem desejava aparecer. A nova aluna aceitou. Jandira também.

Fomos para a frente do quadro. Minha mãe ficou entre mim e a nova aluna. Diná entrou no último instante, ainda usando o avental do balcão, e ocupou a ponta.

Joelma acionou o temporizador e correu para a cadeira vazia.

Jandira procurou minha mão. Eu segurei.

Quando a câmera registrou a turma, permaneci ao lado da mulher que me deu o nome.

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