O Troco A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 8 de 23
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O Troco

Na sexta-feira, o sistema de pagamentos do terminal ficou fora do ar durante o almoço.

A fila diante do balcão já chegava à loja de capas para celular quando o aviso apareceu nas máquinas. Cartão indisponível. PIX instável. Dinheiro aceito.

Jandira leu PIX no visor, chamou o técnico pelo nome e guardou a máquina sob o balcão.

— Hoje a gente trabalha do jeito antigo.

Eu estava cortando sachês de mostarda quando ela colocou uma pochete de tecido na minha frente.

— Fica no caixa.

— Eu?

— Você sabe ler as notas.

— Sei fazer mais algumas coisas.

— Então demonstra sem atrasar a fila.

Ela voltou às panelas. Diná anotava os pedidos em folhas numeradas e prendia cada uma num suporte. O prato do dia custava dezoito reais. Com suco, vinte e três. Café pequeno, quatro. Café com leite, seis. Pão com ovo, oito. Eu conhecia os preços e supus que bastaria somar.

O primeiro cliente entregou cinquenta reais por dois pratos.

— Quatorze de troco — falei.

Procurei uma nota de dez e quatro moedas. Só havia duas moedas de um real.

— Mãe, faltam moedas.

Jandira não desviou os olhos da travessa.

— Dá vinte para o senhor da camisa azul e pede seis para ele.

O homem da camisa azul aguardava dois cafés com leite. Tinha pago com vinte reais. Entreguei a ele uma nota de dez e recebi quatro reais de volta. Completei o troco do primeiro cliente.

— Obrigado — disseram os dois quase juntos.

A fila avançou.

Uma passageira comprou um prato, um suco e dois cafés. Queria pagar com cem reais. Antes que eu somasse, Jandira anunciou:

— Trinta e um. Pergunta se ela tem um real.

A mulher encontrou uma moeda no fundo da bolsa.

— Volta setenta — disse minha mãe.

Entreguei uma nota de cinquenta e uma de vinte.

No pedido seguinte, três motoristas dividiram a conta. Dois tinham notas de vinte. O terceiro, uma de cinquenta. Jandira distribuiu o valor entre eles enquanto montava os pratos.

— Um de vocês paga vinte e três. Outro paga vinte e três. O de cinquenta paga oito e recebe quarenta e dois.

— Deu setenta e quatro? — perguntei.

— Três pratos, dois sucos e um café. Dezoito vezes três, mais dez, mais quatro.

Calculei.

— Sessenta e oito.

— Eu falei setenta e quatro?

— Falou os valores separados.

Ela repetiu:

— Vinte e três, vinte e três e oito.

— Cinquenta e quatro.

— O terceiro paga dezoito, então.

Um dos motoristas riu.

— A professora pegou o erro.

Jandira retirou uma concha de feijão da panela.

— Por isso tem duas no caixa.

Corrigimos a divisão. O homem da nota de cinquenta recebeu trinta e dois.

Durante quarenta minutos, minha mãe calculou contas, trocos e combinações sem tocar numa calculadora. Errou aquela vez e conferiu outras duas antes de entregar o pedido. Eu precisei escrever valores nas folhas quando havia mais de quatro itens. Ela agrupava dezenas, completava números redondos e trocava notas entre clientes que aceitavam ajudar.

Quando o movimento diminuiu, contei o dinheiro.

— Trezentos e oitenta e sete.

Jandira limpou as mãos no avental.

— Conta de novo.

— Contei duas vezes.

— Tem quatrocentos e doze.

— De onde tirou isso?

— Comecei com cento e vinte e cinco. Vendi duzentos e oitenta e sete em dinheiro.

— Você acompanhou cada venda?

— Diná numerou as folhas.

Somei os pedidos. Duzentos e oitenta e sete. Abri a pochete e separei as notas por valor. Debaixo do forro dobrado havia vinte e cinco reais.

— Isso estava escondido.

— É a reserva de moeda.

— Nota não é moeda.

— Era moeda antes de você trocar tudo.

Coloquei os vinte e cinco com o restante. Quatrocentos e doze.

— Certo.

— Eu avisei.

— Por que me colocou no caixa?

— Precisava de alguém.

— Você também queria me mostrar.

Jandira levou a panela vazia para a pia.

— Mostrar o quê?

— Que sabe calcular.

— Você achava que eu não sabia?

A pergunta veio sem ironia. Isso tornou minha resposta mais difícil.

— Eu sabia que você cuidava do negócio.

— Não foi o que perguntei.

Fechei a pochete.

— Achava que você dependia mais da calculadora.

— Aprendi troco antes de aprender divisão no papel.

— Quem ensinou?

— A necessidade.

— Isso não explica o método.

— Explica bastante.

Jandira puxou duas cadeiras para perto do caixa. Colocou uma nota de cinquenta sobre o balcão.

— Compra de trinta e sete. Quanto volta?

— Treze.

— Faz sem diminuir no papel.

— Eu só sei a resposta.

— Então escuta. De trinta e sete para quarenta, três. De quarenta para cinquenta, dez. Três mais dez.

— Treze.

— Compra de vinte e oito. Pagou cinquenta.

— Vinte e dois.

— De vinte e oito para trinta?

— Dois.

— De trinta para cinquenta?

— Vinte.

— Você sobe até o dinheiro que recebeu. O cliente confere junto.

Peguei a nota.

— Isso é contagem ascendente.

— Isso é troco.

— Tem um nome usado no ensino.

— E funciona melhor depois que ganha nome?

— Não.

— Então continua sendo troco.

Diná voltou do depósito com um pacote de copos.

— A máquina já voltou?

Consultei o visor.

— Ainda não.

— Vou buscar moedas na farmácia.

Jandira entregou a ela cinquenta reais.

— Traz vinte moedas de um, dez de cinquenta centavos e cinco notas de cinco.

Diná contou nos dedos.

— Isso dá cinquenta?

— Dá.

— Vinte, mais cinco, mais vinte e cinco — falei.

Minha mãe apontou para mim.

— Ela está aprendendo.

Depois que a fila acabou, levei o caderno amarelo para o balcão. Jandira ergueu uma sobrancelha.

— Aula agora?

— Quero registrar seu método.

— Meu método fica na minha cabeça.

— Pode ficar no papel também.

Ela aceitou quando expliquei que não escreveríamos contas armadas. Montamos uma tabela com três colunas: valor da compra, valor recebido e caminho do troco.

TRINTA E SETE.

QUARENTA.

CINQUENTA.

Jandira leu os números e escreveu os algarismos. Pedi que escrevesse as palavras TRÊS e DEZ ao lado dos saltos. Ela consultou apenas o acento de TRÊS.

— Agora vinte e oito — disse.

Ela registrou:

28 → 30 = 2

30 → 50 = 20

— Isso você lê sem letra nenhuma — observei.

— Número também tem leitura.

— Tem.

— Então eu já lia alguma coisa.

— Lia preços, horários, datas, plataformas e dinheiro.

Jandira esperou.

— Eu devia ter entendido isso antes — completei.

— Devia.

Não havia pedido de desculpas que melhorasse a resposta. Escrevi no alto da página: O TROCO.

Minha mãe leu as duas palavras.

— Essa aula foi minha.

— Foi.

— Vai cobrar?

— Posso descontar do café.

— Você já está me devendo oito.

— Tomei um.

— Com leite custa seis. Acrescentei a aula.

— Aula sua custa dois reais?

— Para filha que demora a aprender, devia custar mais.

O sistema voltou às duas e sete. Jandira recolocou a máquina no balcão e manteve a pochete ao meu lado.

— Posso sair do caixa?

— Depois de conferir quatrocentos e doze.

Contei outra vez. Ela conferiu comigo, subindo de cada valor até o seguinte. No fim, fechou o zíper e me entregou uma moeda de um real.

— Sua parte da reserva.

— Por quê?

— Amanhã você começa o caixa com cento e vinte e seis.

Guardei a moeda no bolso. Desde minha chegada, ela ainda não me dera uma tarefa para o dia seguinte sem perguntar quanto tempo eu ficaria.

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