O Troco
Na sexta-feira, o sistema de pagamentos do terminal ficou fora do ar durante o almoço.
A fila diante do balcão já chegava à loja de capas para celular quando o aviso apareceu nas máquinas. Cartão indisponível. PIX instável. Dinheiro aceito.
Jandira leu PIX no visor, chamou o técnico pelo nome e guardou a máquina sob o balcão.
— Hoje a gente trabalha do jeito antigo.
Eu estava cortando sachês de mostarda quando ela colocou uma pochete de tecido na minha frente.
— Fica no caixa.
— Eu?
— Você sabe ler as notas.
— Sei fazer mais algumas coisas.
— Então demonstra sem atrasar a fila.
Ela voltou às panelas. Diná anotava os pedidos em folhas numeradas e prendia cada uma num suporte. O prato do dia custava dezoito reais. Com suco, vinte e três. Café pequeno, quatro. Café com leite, seis. Pão com ovo, oito. Eu conhecia os preços e supus que bastaria somar.
O primeiro cliente entregou cinquenta reais por dois pratos.
— Quatorze de troco — falei.
Procurei uma nota de dez e quatro moedas. Só havia duas moedas de um real.
— Mãe, faltam moedas.
Jandira não desviou os olhos da travessa.
— Dá vinte para o senhor da camisa azul e pede seis para ele.
O homem da camisa azul aguardava dois cafés com leite. Tinha pago com vinte reais. Entreguei a ele uma nota de dez e recebi quatro reais de volta. Completei o troco do primeiro cliente.
— Obrigado — disseram os dois quase juntos.
A fila avançou.
Uma passageira comprou um prato, um suco e dois cafés. Queria pagar com cem reais. Antes que eu somasse, Jandira anunciou:
— Trinta e um. Pergunta se ela tem um real.
A mulher encontrou uma moeda no fundo da bolsa.
— Volta setenta — disse minha mãe.
Entreguei uma nota de cinquenta e uma de vinte.
No pedido seguinte, três motoristas dividiram a conta. Dois tinham notas de vinte. O terceiro, uma de cinquenta. Jandira distribuiu o valor entre eles enquanto montava os pratos.
— Um de vocês paga vinte e três. Outro paga vinte e três. O de cinquenta paga oito e recebe quarenta e dois.
— Deu setenta e quatro? — perguntei.
— Três pratos, dois sucos e um café. Dezoito vezes três, mais dez, mais quatro.
Calculei.
— Sessenta e oito.
— Eu falei setenta e quatro?
— Falou os valores separados.
Ela repetiu:
— Vinte e três, vinte e três e oito.
— Cinquenta e quatro.
— O terceiro paga dezoito, então.
Um dos motoristas riu.
— A professora pegou o erro.
Jandira retirou uma concha de feijão da panela.
— Por isso tem duas no caixa.
Corrigimos a divisão. O homem da nota de cinquenta recebeu trinta e dois.
Durante quarenta minutos, minha mãe calculou contas, trocos e combinações sem tocar numa calculadora. Errou aquela vez e conferiu outras duas antes de entregar o pedido. Eu precisei escrever valores nas folhas quando havia mais de quatro itens. Ela agrupava dezenas, completava números redondos e trocava notas entre clientes que aceitavam ajudar.
Quando o movimento diminuiu, contei o dinheiro.
— Trezentos e oitenta e sete.
Jandira limpou as mãos no avental.
— Conta de novo.
— Contei duas vezes.
— Tem quatrocentos e doze.
— De onde tirou isso?
— Comecei com cento e vinte e cinco. Vendi duzentos e oitenta e sete em dinheiro.
— Você acompanhou cada venda?
— Diná numerou as folhas.
Somei os pedidos. Duzentos e oitenta e sete. Abri a pochete e separei as notas por valor. Debaixo do forro dobrado havia vinte e cinco reais.
— Isso estava escondido.
— É a reserva de moeda.
— Nota não é moeda.
— Era moeda antes de você trocar tudo.
Coloquei os vinte e cinco com o restante. Quatrocentos e doze.
— Certo.
— Eu avisei.
— Por que me colocou no caixa?
— Precisava de alguém.
— Você também queria me mostrar.
Jandira levou a panela vazia para a pia.
— Mostrar o quê?
— Que sabe calcular.
— Você achava que eu não sabia?
A pergunta veio sem ironia. Isso tornou minha resposta mais difícil.
— Eu sabia que você cuidava do negócio.
— Não foi o que perguntei.
Fechei a pochete.
— Achava que você dependia mais da calculadora.
— Aprendi troco antes de aprender divisão no papel.
— Quem ensinou?
— A necessidade.
— Isso não explica o método.
— Explica bastante.
Jandira puxou duas cadeiras para perto do caixa. Colocou uma nota de cinquenta sobre o balcão.
— Compra de trinta e sete. Quanto volta?
— Treze.
— Faz sem diminuir no papel.
— Eu só sei a resposta.
— Então escuta. De trinta e sete para quarenta, três. De quarenta para cinquenta, dez. Três mais dez.
— Treze.
— Compra de vinte e oito. Pagou cinquenta.
— Vinte e dois.
— De vinte e oito para trinta?
— Dois.
— De trinta para cinquenta?
— Vinte.
— Você sobe até o dinheiro que recebeu. O cliente confere junto.
Peguei a nota.
— Isso é contagem ascendente.
— Isso é troco.
— Tem um nome usado no ensino.
— E funciona melhor depois que ganha nome?
— Não.
— Então continua sendo troco.
Diná voltou do depósito com um pacote de copos.
— A máquina já voltou?
Consultei o visor.
— Ainda não.
— Vou buscar moedas na farmácia.
Jandira entregou a ela cinquenta reais.
— Traz vinte moedas de um, dez de cinquenta centavos e cinco notas de cinco.
Diná contou nos dedos.
— Isso dá cinquenta?
— Dá.
— Vinte, mais cinco, mais vinte e cinco — falei.
Minha mãe apontou para mim.
— Ela está aprendendo.
Depois que a fila acabou, levei o caderno amarelo para o balcão. Jandira ergueu uma sobrancelha.
— Aula agora?
— Quero registrar seu método.
— Meu método fica na minha cabeça.
— Pode ficar no papel também.
Ela aceitou quando expliquei que não escreveríamos contas armadas. Montamos uma tabela com três colunas: valor da compra, valor recebido e caminho do troco.
TRINTA E SETE.
QUARENTA.
CINQUENTA.
Jandira leu os números e escreveu os algarismos. Pedi que escrevesse as palavras TRÊS e DEZ ao lado dos saltos. Ela consultou apenas o acento de TRÊS.
— Agora vinte e oito — disse.
Ela registrou:
28 → 30 = 2
30 → 50 = 20
— Isso você lê sem letra nenhuma — observei.
— Número também tem leitura.
— Tem.
— Então eu já lia alguma coisa.
— Lia preços, horários, datas, plataformas e dinheiro.
Jandira esperou.
— Eu devia ter entendido isso antes — completei.
— Devia.
Não havia pedido de desculpas que melhorasse a resposta. Escrevi no alto da página: O TROCO.
Minha mãe leu as duas palavras.
— Essa aula foi minha.
— Foi.
— Vai cobrar?
— Posso descontar do café.
— Você já está me devendo oito.
— Tomei um.
— Com leite custa seis. Acrescentei a aula.
— Aula sua custa dois reais?
— Para filha que demora a aprender, devia custar mais.
O sistema voltou às duas e sete. Jandira recolocou a máquina no balcão e manteve a pochete ao meu lado.
— Posso sair do caixa?
— Depois de conferir quatrocentos e doze.
Contei outra vez. Ela conferiu comigo, subindo de cada valor até o seguinte. No fim, fechou o zíper e me entregou uma moeda de um real.
— Sua parte da reserva.
— Por quê?
— Amanhã você começa o caixa com cento e vinte e seis.
Guardei a moeda no bolso. Desde minha chegada, ela ainda não me dera uma tarefa para o dia seguinte sem perguntar quanto tempo eu ficaria.