A Prova A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 22 de 23
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A Prova

No dia dezoito de novembro, Jandira acordou antes do despertador.

Quando entrei na cozinha, ela já tinha feito café e separado os documentos sobre a mesa: identidade, inscrição no curso, protocolo do tempo adicional e duas canetas azuis.

— Dormiu? — perguntei.

— Dormi o suficiente.

— Quer revisar alguma coisa?

— Não.

— Quer café?

— Já tomei.

— Quer que eu pare de perguntar?

— Quero.

Sentei e servi minha xícara.

Minha entrevista em Santa Rita acontecera na segunda-feira. A editora prometera resposta até o fim da semana. Jandira perguntara apenas se eu chegara no horário e se havia gostado da equipe. Na manhã da prova, nenhuma de nós mencionou meu telefone.

Às sete, fomos ao terminal. Minha mãe abriu o balcão, conferiu as entregas e deixou Diná responsável pelo caixa.

— Você podia ter ficado em casa — disse Diná.

— Eu trabalho até oito e meia.

— Hoje tem prova.

— A prova começa às nove.

Jandira montou os primeiros cafés, recebeu dois pagamentos e leu a data de validade numa caixa de leite. Às oito e vinte, retirou o avental.

— Agora eu vou.

Diná abraçou minha mãe antes que ela pudesse recusar.

— Não aperta meu documento.

— Boa prova.

— Obrigada.

Acompanhei Jandira até a porta da administração.

— Daqui — disse.

— Daqui.

— Volta para o balcão.

— Vou esperar com Diná.

— Sem andar no corredor.

— Sem andar no corredor.

Ela entrou.

Às nove e cinco, a coordenadora fechou a porta da sala de avaliação. Eu voltei ao Ponto da Jandira. Diná me colocou no caixa e proibiu perguntas sobre o relógio.

— Cliente não tem culpa da sua ansiedade.

— Estou trabalhando.

— Deu troco errado.

O cliente devolveu dois reais que eu entregara a mais. Agradeci e recomecei a conta.

Às dez, os primeiros participantes saíram. Às dez e vinte, a maioria já atravessara o saguão. Jandira não apareceu.

— Ela tem vinte minutos a mais — lembrou Diná.

— Eu sei.

— Então usa o que sabe.

Às dez e trinta e sete, minha mãe surgiu no corredor com a pasta junto ao corpo.

Diná deixou uma bandeja sobre o balcão.

— E aí?

— Fiz vinte questões.

— Acertou?

— Ainda vão corrigir.

— E o tempo?

— Terminei faltando quatro minutos.

— Leu tudo? — perguntei.

— Li.

— Pediu ajuda?

— Pedi para a coordenadora confirmar onde escrevia meu nome na folha de respostas. O resto eu fiz.

Ela colocou o avental.

— E agora?

— Atividade prática às onze.

— Vai trabalhar por vinte minutos? — perguntou Diná.

— Vou comer.

Sentou numa mesa e terminou um pão com ovo. Não quis conferir respostas, procurar erros ou estimar pontuação.

A atividade prática ocorreu na cozinha de treinamento do terminal. Jandira entrou com outros cinco participantes. Eu não tinha autorização para acompanhar. Voltei ao caixa.

Ao meio-dia, ela saiu carregando uma touca descartável e uma folha dobrada.

— Acabou? — perguntei.

— Acabou.

— Como foi a prática?

— Lavei as mãos, separei as tábuas, conferi validade e arrumei a geladeira.

— Algum erro?

— Coloquei a touca depois de lavar as mãos. A avaliadora mandou anotar a ordem.

— Isso reprova?

— Vale um ponto.

Jandira guardou a touca no lixo e voltou ao balcão.

Os resultados seriam entregues às três. Ela serviu almoço, calculou troco e preparou mais uma torta de legumes. Às duas e cinquenta, retirou novamente o avental.

— Quer que eu vá? — perguntei.

— Até a administração.

Caminhamos juntas.

A coordenadora entregava envelopes individuais. Jandira apresentou a identidade, recebeu o dela e abriu no corredor. Havia duas folhas.

Na primeira, o resultado da prova:

QUESTÕES: 15 DE 20.

Na segunda:

ATIVIDADE PRÁTICA: 9 DE 10.

RESULTADO FINAL: APROVADA.

Minha mãe tocou a última palavra.

— A-pro-va-da.

Leu novamente:

— Aprovada.

— Parabéns — falei.

— Quinze.

— A mesma pontuação do segundo simulado.

— E nove na prática.

— Por causa da touca.

— Por causa da ordem.

A coordenadora se aproximou.

— Jandira, precisamos de sua assinatura aqui.

Apontou a linha de recebimento. Minha mãe leu o texto acima antes de assinar.

— Quero uma cópia.

— O envelope é seu.

— E o registro da atividade?

— Posso imprimir.

Esperamos. Jandira conferiu a nova folha e guardou tudo na pasta.

Na volta ao balcão, Diná leu APROVADA no rosto de minha mãe antes de ver os papéis.

— Passou!

Jandira entregou o envelope.

— Quinze e nove.

Diná anunciou para o rapaz da noite, para o jornaleiro e para a farmacêutica. Minha mãe permitiu os abraços. Recusou fotografias.

— Hoje a torta é por minha conta — disse.

— Para todo mundo? — perguntei.

— Para quem trabalha aqui.

Cortou quatro pedaços e fechou a bandeja.

Comemos atrás do balcão, entre a pia e as caixas de guardanapo. Jandira deixou o resultado no centro da mesa.

— Vai colocar na parede? — perguntou Diná.

— Vai para o caderno.

— Ninguém vê.

— Eu vejo.

Minha mãe guardou as folhas na seção CURSO. O protocolo do tempo adicional ficou junto das provas simuladas. Depois fechou o caderno e serviu o último pedaço de torta.

Às cinco, voltou a atender. Quando um cliente perguntou o preço do café com leite, Jandira apontou o cardápio.

— Seis reais.

Leu a linha antes de preparar o pedido.

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