A Prova
No dia dezoito de novembro, Jandira acordou antes do despertador.
Quando entrei na cozinha, ela já tinha feito café e separado os documentos sobre a mesa: identidade, inscrição no curso, protocolo do tempo adicional e duas canetas azuis.
— Dormiu? — perguntei.
— Dormi o suficiente.
— Quer revisar alguma coisa?
— Não.
— Quer café?
— Já tomei.
— Quer que eu pare de perguntar?
— Quero.
Sentei e servi minha xícara.
Minha entrevista em Santa Rita acontecera na segunda-feira. A editora prometera resposta até o fim da semana. Jandira perguntara apenas se eu chegara no horário e se havia gostado da equipe. Na manhã da prova, nenhuma de nós mencionou meu telefone.
Às sete, fomos ao terminal. Minha mãe abriu o balcão, conferiu as entregas e deixou Diná responsável pelo caixa.
— Você podia ter ficado em casa — disse Diná.
— Eu trabalho até oito e meia.
— Hoje tem prova.
— A prova começa às nove.
Jandira montou os primeiros cafés, recebeu dois pagamentos e leu a data de validade numa caixa de leite. Às oito e vinte, retirou o avental.
— Agora eu vou.
Diná abraçou minha mãe antes que ela pudesse recusar.
— Não aperta meu documento.
— Boa prova.
— Obrigada.
Acompanhei Jandira até a porta da administração.
— Daqui — disse.
— Daqui.
— Volta para o balcão.
— Vou esperar com Diná.
— Sem andar no corredor.
— Sem andar no corredor.
Ela entrou.
Às nove e cinco, a coordenadora fechou a porta da sala de avaliação. Eu voltei ao Ponto da Jandira. Diná me colocou no caixa e proibiu perguntas sobre o relógio.
— Cliente não tem culpa da sua ansiedade.
— Estou trabalhando.
— Deu troco errado.
O cliente devolveu dois reais que eu entregara a mais. Agradeci e recomecei a conta.
Às dez, os primeiros participantes saíram. Às dez e vinte, a maioria já atravessara o saguão. Jandira não apareceu.
— Ela tem vinte minutos a mais — lembrou Diná.
— Eu sei.
— Então usa o que sabe.
Às dez e trinta e sete, minha mãe surgiu no corredor com a pasta junto ao corpo.
Diná deixou uma bandeja sobre o balcão.
— E aí?
— Fiz vinte questões.
— Acertou?
— Ainda vão corrigir.
— E o tempo?
— Terminei faltando quatro minutos.
— Leu tudo? — perguntei.
— Li.
— Pediu ajuda?
— Pedi para a coordenadora confirmar onde escrevia meu nome na folha de respostas. O resto eu fiz.
Ela colocou o avental.
— E agora?
— Atividade prática às onze.
— Vai trabalhar por vinte minutos? — perguntou Diná.
— Vou comer.
Sentou numa mesa e terminou um pão com ovo. Não quis conferir respostas, procurar erros ou estimar pontuação.
A atividade prática ocorreu na cozinha de treinamento do terminal. Jandira entrou com outros cinco participantes. Eu não tinha autorização para acompanhar. Voltei ao caixa.
Ao meio-dia, ela saiu carregando uma touca descartável e uma folha dobrada.
— Acabou? — perguntei.
— Acabou.
— Como foi a prática?
— Lavei as mãos, separei as tábuas, conferi validade e arrumei a geladeira.
— Algum erro?
— Coloquei a touca depois de lavar as mãos. A avaliadora mandou anotar a ordem.
— Isso reprova?
— Vale um ponto.
Jandira guardou a touca no lixo e voltou ao balcão.
Os resultados seriam entregues às três. Ela serviu almoço, calculou troco e preparou mais uma torta de legumes. Às duas e cinquenta, retirou novamente o avental.
— Quer que eu vá? — perguntei.
— Até a administração.
Caminhamos juntas.
A coordenadora entregava envelopes individuais. Jandira apresentou a identidade, recebeu o dela e abriu no corredor. Havia duas folhas.
Na primeira, o resultado da prova:
QUESTÕES: 15 DE 20.
Na segunda:
ATIVIDADE PRÁTICA: 9 DE 10.
RESULTADO FINAL: APROVADA.
Minha mãe tocou a última palavra.
— A-pro-va-da.
Leu novamente:
— Aprovada.
— Parabéns — falei.
— Quinze.
— A mesma pontuação do segundo simulado.
— E nove na prática.
— Por causa da touca.
— Por causa da ordem.
A coordenadora se aproximou.
— Jandira, precisamos de sua assinatura aqui.
Apontou a linha de recebimento. Minha mãe leu o texto acima antes de assinar.
— Quero uma cópia.
— O envelope é seu.
— E o registro da atividade?
— Posso imprimir.
Esperamos. Jandira conferiu a nova folha e guardou tudo na pasta.
Na volta ao balcão, Diná leu APROVADA no rosto de minha mãe antes de ver os papéis.
— Passou!
Jandira entregou o envelope.
— Quinze e nove.
Diná anunciou para o rapaz da noite, para o jornaleiro e para a farmacêutica. Minha mãe permitiu os abraços. Recusou fotografias.
— Hoje a torta é por minha conta — disse.
— Para todo mundo? — perguntei.
— Para quem trabalha aqui.
Cortou quatro pedaços e fechou a bandeja.
Comemos atrás do balcão, entre a pia e as caixas de guardanapo. Jandira deixou o resultado no centro da mesa.
— Vai colocar na parede? — perguntou Diná.
— Vai para o caderno.
— Ninguém vê.
— Eu vejo.
Minha mãe guardou as folhas na seção CURSO. O protocolo do tempo adicional ficou junto das provas simuladas. Depois fechou o caderno e serviu o último pedaço de torta.
Às cinco, voltou a atender. Quando um cliente perguntou o preço do café com leite, Jandira apontou o cardápio.
— Seis reais.
Leu a linha antes de preparar o pedido.