O Vídeo
O rapaz pediu autorização para filmar a torta.
Chegou ao balcão perto do meio-dia, carregando um telefone preso a um suporte pequeno. Disse que mantinha uma página sobre lugares baratos para comer na cidade. Mostrou a tela: pratos feitos, lanches, feiras, barracas e filas diante de restaurantes.
— Posso gravar a bandeja? — perguntou.
Jandira olhou para os seis pedaços restantes.
— Pode gravar a comida.
Ele aproximou o telefone, filmou a torta, o cartão com o preço e a colher retirando uma porção. Pediu um pedaço da forma com legumes refogados.
— Tem queijo? — perguntou enquanto gravava.
— Não leva queijo. Contém leite, ovo e trigo.
— A senhora decorou a informação?
Minha mãe encontrou a pergunta tarde demais.
— Está escrita.
— Pode ler para o vídeo?
— Você pediu para gravar a comida.
— Só a sua voz. Fica ótimo para explicar.
Jandira olhou para mim. Eu estava no caixa. Não respondi por ela.
— A informação já está no cartão — disse.
O rapaz baixou o telefone.
— Sem problema.
Provou a torta, elogiou e fez perguntas sobre o preparo. Diná contou que a segunda forma vendera primeiro no teste. Ele perguntou quem criara a receita.
— Veio do curso — respondeu minha mãe. — Eu mudei.
— Curso de cozinha?
— Segurança de alimentos.
— E a senhora escreveu esse cartão?
— Escrevi.
Ele tornou a levantar o telefone, apontado para a bandeja. Minha mãe continuava fora do enquadramento.
— Ficou bonito. A letra está bem clara.
— Precisa ser clara para o cliente.
— Faz pouco tempo que a senhora escreve assim?
Diná parou de cortar pão.
— Faz pouco — disse minha mãe.
— Que história boa.
— É uma torta.
Ele riu. Jandira não.
O rapaz pagou, agradeceu e foi embora. Minha mãe retirou o cartão da frente da bandeja.
— Por que tirou? — perguntei.
— Acabou a gravação.
— Ainda precisa informar os alergênicos.
Ela recolocou o cartão.
Às três e vinte, Diná me chamou até o depósito.
— Olha.
O vídeo começava com a fachada do terminal. Em seguida, mostrava a torta e a mão de Jandira servindo. A voz do rapaz narrava:
“No Ponto da Jandira, a torta custa sete reais e vem com uma história que vale muito mais.”
O trecho seguinte usava a resposta de minha mãe sobre o curso. A edição retirara a pergunta. Ouvia-se:
“Segurança de alimentos. Eu mudei.”
Depois, o cartão ocupava a tela. A legenda dizia:
AOS 56 ANOS, DONA JANDIRA APRENDE A LER E ESCREVER PARA NÃO PERDER O PRÓPRIO NEGÓCIO.
O vídeo terminava com a voz dela:
“Precisa ser clara para o cliente.”
— Quantas pessoas viram? — perguntei.
— Doze mil.
Havia mais de oitocentas reações e cento e quarenta comentários. Muitos chamavam Jandira de inspiração. Alguns contavam histórias de parentes. Outros perguntavam por que a filha professora não ensinara antes. Uma pessoa escreveu que comerciante sem leitura colocava clientes em risco. Outra corrigiu a letra do cartão, embora a frase estivesse correta.
— Ela viu?
— Ainda não.
— Vamos falar com o rapaz.
— Você vai falar.
— Vou pedir que apague.
Diná segurou meu pulso.
— Pergunta para ela.
Fomos até o balcão. Jandira conferia a entrega de leite.
— Publicaram o vídeo — falei.
— Da torta?
— Da senhora.
Mostrei.
Ela assistiu uma vez. Não tocou nos comentários. Devolveu o telefone.
— Tira.
— Vou pedir.
— Tira agora.
— Preciso falar com a página.
— Então fala.
Enviei uma mensagem curta solicitando remoção por falta de autorização para uso da imagem e da história pessoal. O rapaz respondeu em menos de cinco minutos.
“Ela não aparece, só a voz e as mãos. O vídeo é positivo. Posso marcar o perfil do negócio.”
Mostrei a Jandira.
— Eu não tenho perfil.
— Vou insistir.
Escrevi que a autorização se limitara à comida. Acrescentei que Jandira frequentava educação de adultos e que a dificuldade de leitura não podia ser divulgada sem consentimento.
Minha mãe leu a mensagem antes do envio.
— Apaga essa parte.
— Qual?
— Onde estudo.
— Isso explica a violação.
— Explica minha vida.
Apaguei a frase. Enviei apenas a delimitação do consentimento.
O rapaz respondeu que removeria. Dois minutos depois, o vídeo desapareceu da página.
— Saiu — falei.
Jandira abriu a publicação no telefone dela. A tela informou que o conteúdo estava indisponível.
— Acabou?
Diná e eu nos olhamos.
— Da página, sim — respondi.
— E dos telefones?
— Alguém pode ter compartilhado.
Ela entregou o aparelho a Diná.
— Quantos?
Diná consultou os dados que ainda apareciam numa cópia da notificação.
— Cento e noventa e três compartilhamentos.
Jandira voltou para a pia. Lavou uma bandeja já limpa, secou e colocou no escorredor.
Às quatro, uma mulher chegou com duas amigas.
— É aqui o lugar da senhora que está aprendendo a ler?
Minha mãe permaneceu diante delas.
— Aqui vende comida.
— A gente viu o vídeo. Muito lindo.
— O que vão pedir?
Compraram três cafés e pediram uma fotografia. Jandira recusou. Uma delas fotografou a placa do balcão.
Depois vieram dois estudantes. Um apontou o cardápio.
— Lê esse para a gente, dona Jandira.
— O que vai pedir?
— Só queria ver.
— Então veja.
Eles saíram rindo baixo. Não consegui saber se riam dela ou do constrangimento que criaram. Minha mãe recolheu as xícaras vazias e continuou atendendo.
Às cinco, um motorista mostrou uma cópia do vídeo no grupo da empresa. O arquivo circulava sem a legenda original. Alguém acrescentara uma música lenta.
— Bonito o que estão fazendo — disse ele.
— Quem está fazendo? — perguntou Jandira.
— A senhora, estudando.
— Eu estudo dentro de uma sala.
O motorista guardou o telefone.
O rapaz da página enviou novo pedido de desculpas. Disse que pretendia valorizar o negócio e ofereceu publicar outra versão apenas com a torta.
— Quer que eu responda? — perguntei.
— Não.
— Ele pode ajudar a corrigir.
— Não quero outra publicação.
— Certo.
Às seis e quinze, Jandira fechou o balcão uma hora antes. O rapaz da noite chegou enquanto ela baixava a porta metálica. Não perguntou o motivo.
No caminho para casa, mantive o telefone guardado. Minha mãe carregava a pasta do curso junto ao corpo.
— Amanhã tem encontro pelo telefone — falei.
— Eu sei.
— Quer que eu fique perto?
— Não.
— Quer falar sobre hoje?
— Não.
Em casa, ela abriu a porta da despensa. Os folhetos continuavam presos. O cartão da torta também estava lá. Jandira retirou apenas a faixa antiga do alfabeto, guardada na gaveta, e colocou dentro da pasta do curso.
— Para que vai levar? — perguntei.
— É minha.
Entrou no quarto com a pasta.
Às oito e quarenta, ouvi o vídeo na casa vizinha. A música lenta atravessou a parede antes da voz de minha mãe.
“Segurança de alimentos. Eu mudei.”
Jandira aumentou o volume do rádio até não conseguirmos ouvir o final.