O Vídeo A Mulher que me Deu o Nome · Capítulo 16 de 23
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O Vídeo

O rapaz pediu autorização para filmar a torta.

Chegou ao balcão perto do meio-dia, carregando um telefone preso a um suporte pequeno. Disse que mantinha uma página sobre lugares baratos para comer na cidade. Mostrou a tela: pratos feitos, lanches, feiras, barracas e filas diante de restaurantes.

— Posso gravar a bandeja? — perguntou.

Jandira olhou para os seis pedaços restantes.

— Pode gravar a comida.

Ele aproximou o telefone, filmou a torta, o cartão com o preço e a colher retirando uma porção. Pediu um pedaço da forma com legumes refogados.

— Tem queijo? — perguntou enquanto gravava.

— Não leva queijo. Contém leite, ovo e trigo.

— A senhora decorou a informação?

Minha mãe encontrou a pergunta tarde demais.

— Está escrita.

— Pode ler para o vídeo?

— Você pediu para gravar a comida.

— Só a sua voz. Fica ótimo para explicar.

Jandira olhou para mim. Eu estava no caixa. Não respondi por ela.

— A informação já está no cartão — disse.

O rapaz baixou o telefone.

— Sem problema.

Provou a torta, elogiou e fez perguntas sobre o preparo. Diná contou que a segunda forma vendera primeiro no teste. Ele perguntou quem criara a receita.

— Veio do curso — respondeu minha mãe. — Eu mudei.

— Curso de cozinha?

— Segurança de alimentos.

— E a senhora escreveu esse cartão?

— Escrevi.

Ele tornou a levantar o telefone, apontado para a bandeja. Minha mãe continuava fora do enquadramento.

— Ficou bonito. A letra está bem clara.

— Precisa ser clara para o cliente.

— Faz pouco tempo que a senhora escreve assim?

Diná parou de cortar pão.

— Faz pouco — disse minha mãe.

— Que história boa.

— É uma torta.

Ele riu. Jandira não.

O rapaz pagou, agradeceu e foi embora. Minha mãe retirou o cartão da frente da bandeja.

— Por que tirou? — perguntei.

— Acabou a gravação.

— Ainda precisa informar os alergênicos.

Ela recolocou o cartão.

Às três e vinte, Diná me chamou até o depósito.

— Olha.

O vídeo começava com a fachada do terminal. Em seguida, mostrava a torta e a mão de Jandira servindo. A voz do rapaz narrava:

“No Ponto da Jandira, a torta custa sete reais e vem com uma história que vale muito mais.”

O trecho seguinte usava a resposta de minha mãe sobre o curso. A edição retirara a pergunta. Ouvia-se:

“Segurança de alimentos. Eu mudei.”

Depois, o cartão ocupava a tela. A legenda dizia:

AOS 56 ANOS, DONA JANDIRA APRENDE A LER E ESCREVER PARA NÃO PERDER O PRÓPRIO NEGÓCIO.

O vídeo terminava com a voz dela:

“Precisa ser clara para o cliente.”

— Quantas pessoas viram? — perguntei.

— Doze mil.

Havia mais de oitocentas reações e cento e quarenta comentários. Muitos chamavam Jandira de inspiração. Alguns contavam histórias de parentes. Outros perguntavam por que a filha professora não ensinara antes. Uma pessoa escreveu que comerciante sem leitura colocava clientes em risco. Outra corrigiu a letra do cartão, embora a frase estivesse correta.

— Ela viu?

— Ainda não.

— Vamos falar com o rapaz.

— Você vai falar.

— Vou pedir que apague.

Diná segurou meu pulso.

— Pergunta para ela.

Fomos até o balcão. Jandira conferia a entrega de leite.

— Publicaram o vídeo — falei.

— Da torta?

— Da senhora.

Mostrei.

Ela assistiu uma vez. Não tocou nos comentários. Devolveu o telefone.

— Tira.

— Vou pedir.

— Tira agora.

— Preciso falar com a página.

— Então fala.

Enviei uma mensagem curta solicitando remoção por falta de autorização para uso da imagem e da história pessoal. O rapaz respondeu em menos de cinco minutos.

“Ela não aparece, só a voz e as mãos. O vídeo é positivo. Posso marcar o perfil do negócio.”

Mostrei a Jandira.

— Eu não tenho perfil.

— Vou insistir.

Escrevi que a autorização se limitara à comida. Acrescentei que Jandira frequentava educação de adultos e que a dificuldade de leitura não podia ser divulgada sem consentimento.

Minha mãe leu a mensagem antes do envio.

— Apaga essa parte.

— Qual?

— Onde estudo.

— Isso explica a violação.

— Explica minha vida.

Apaguei a frase. Enviei apenas a delimitação do consentimento.

O rapaz respondeu que removeria. Dois minutos depois, o vídeo desapareceu da página.

— Saiu — falei.

Jandira abriu a publicação no telefone dela. A tela informou que o conteúdo estava indisponível.

— Acabou?

Diná e eu nos olhamos.

— Da página, sim — respondi.

— E dos telefones?

— Alguém pode ter compartilhado.

Ela entregou o aparelho a Diná.

— Quantos?

Diná consultou os dados que ainda apareciam numa cópia da notificação.

— Cento e noventa e três compartilhamentos.

Jandira voltou para a pia. Lavou uma bandeja já limpa, secou e colocou no escorredor.

Às quatro, uma mulher chegou com duas amigas.

— É aqui o lugar da senhora que está aprendendo a ler?

Minha mãe permaneceu diante delas.

— Aqui vende comida.

— A gente viu o vídeo. Muito lindo.

— O que vão pedir?

Compraram três cafés e pediram uma fotografia. Jandira recusou. Uma delas fotografou a placa do balcão.

Depois vieram dois estudantes. Um apontou o cardápio.

— Lê esse para a gente, dona Jandira.

— O que vai pedir?

— Só queria ver.

— Então veja.

Eles saíram rindo baixo. Não consegui saber se riam dela ou do constrangimento que criaram. Minha mãe recolheu as xícaras vazias e continuou atendendo.

Às cinco, um motorista mostrou uma cópia do vídeo no grupo da empresa. O arquivo circulava sem a legenda original. Alguém acrescentara uma música lenta.

— Bonito o que estão fazendo — disse ele.

— Quem está fazendo? — perguntou Jandira.

— A senhora, estudando.

— Eu estudo dentro de uma sala.

O motorista guardou o telefone.

O rapaz da página enviou novo pedido de desculpas. Disse que pretendia valorizar o negócio e ofereceu publicar outra versão apenas com a torta.

— Quer que eu responda? — perguntei.

— Não.

— Ele pode ajudar a corrigir.

— Não quero outra publicação.

— Certo.

Às seis e quinze, Jandira fechou o balcão uma hora antes. O rapaz da noite chegou enquanto ela baixava a porta metálica. Não perguntou o motivo.

No caminho para casa, mantive o telefone guardado. Minha mãe carregava a pasta do curso junto ao corpo.

— Amanhã tem encontro pelo telefone — falei.

— Eu sei.

— Quer que eu fique perto?

— Não.

— Quer falar sobre hoje?

— Não.

Em casa, ela abriu a porta da despensa. Os folhetos continuavam presos. O cartão da torta também estava lá. Jandira retirou apenas a faixa antiga do alfabeto, guardada na gaveta, e colocou dentro da pasta do curso.

— Para que vai levar? — perguntei.

— É minha.

Entrou no quarto com a pasta.

Às oito e quarenta, ouvi o vídeo na casa vizinha. A música lenta atravessou a parede antes da voz de minha mãe.

“Segurança de alimentos. Eu mudei.”

Jandira aumentou o volume do rádio até não conseguirmos ouvir o final.

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