Universo da obra
Universo da obra
Minha mãe ligou três vezes antes das sete da manhã e não deixou mensagem.
Na primeira chamada, eu ainda estava no banho. Na segunda, procurava uma meia limpa embaixo da cama. Na terceira, vi o nome dela aceso sobre a mesa e fiquei esperando o telefone parar.
Jandira Nunes.
Eu a salvara com nome e sobrenome depois de uma discussão antiga, numa época em que ver “Mãe” na tela me fazia atender por reflexo. Trocar o contato fora um gesto pequeno, um pouco infantil, que eu nunca desfiz. Seis anos depois, o nome completo continuava ali, formal demais para alguém que me vira nascer e preciso demais para alguém com quem eu aprendera a medir palavras.
Peguei o telefone quando o apartamento ficou quieto.
Nenhuma mensagem. Nenhum áudio. Três chamadas separadas por intervalos curtos.
Minha mãe conhecia meu horário. Sabia que eu acordava cedo, tomava café sem açúcar e começava a trabalhar antes das oito. Sabia também que eu detestava ligações sem aviso. Nos últimos anos, ela respeitara tanto essa preferência que nossas conversas cabiam em aniversários, notícias de doença alheia e perguntas sobre feriados.
“Você vem no Natal?”
“Acho que não.”
“Então avisa antes de eu comprar carne.”
Às sete e onze, liguei de volta.
Ela atendeu no primeiro toque. Ouvi uma porta de metal subindo, o esforço do trilho, um ônibus freando ao fundo e a voz de um homem pedindo café. Minha mãe respondeu que ainda não abrira. O homem riu. Ela não.
— Aconteceu alguma coisa?
— Bom dia para você também.
— Bom dia. Aconteceu?
— Eu liguei três vezes.
— Eu vi.
Houve um ruído de chaves e outro golpe da porta. Imaginei o Ponto da Jandira despertando dentro do terminal: seis bancos presos ao chão, balcão de inox, garrafas térmicas alinhadas, cheiro de pão na chapa misturado ao diesel dos primeiros ônibus. Minha mãe trabalhava ali havia vinte e quatro anos. Começara vendendo café numa mesa emprestada. Quando a prefeitura reformou o prédio, ganhou um espaço fixo, instalou uma pia, comprou uma geladeira usada e colocou o próprio nome numa placa amarela.
Eu tinha onze anos quando a placa chegou. Lembrava do orgulho com que ela retirou o jornal, apoiou o letreiro contra a parede e pediu que eu lesse.
PONTO DA JANDIRA.
Na época, pensei que quisesse me mostrar o negócio. Agora me ocorreu que talvez estivesse conferindo o trabalho do pintor.
— Estou ouvindo — falei.
— Você está trabalhando hoje?
— Daqui a pouco.
— Continua fazendo aquelas apostilas?
— Material didático.
— Foi o que eu disse.
Sentei-me à mesa. O café permanecia na cafeteira, e uma faixa de sol atravessava a cozinha até a cadeira vazia diante de mim. Minha mãe respirou perto do aparelho. Escutei o clique do acendedor, a chama do fogão e uma panela colocada sobre a grade.
— Preciso que você venha aqui — disse.
— Quando?
— Esta semana.
— Esta semana já começou.
— Então você entendeu a urgência.
Fechei os olhos. Jandira usava impaciência para atravessar assuntos que lhe davam medo. Quando eu era criança, ela brigava comigo antes de medir febre, repreendia o enfermeiro antes de perguntar sobre o exame e limpava a cozinha inteira enquanto aguardava uma notícia. Eu sabia disso. O conhecimento não tornava a convivência mais fácil.
— Você está doente?
— Não.
— Fez algum exame?
— Estou bem de saúde.
— Aconteceu algo no terminal?
O silêncio durou o tempo de a água começar a bater no fundo da panela.
— Vai mudar tudo aqui.
— Tudo o quê?
— As placas, o caixa, o jeito de pedir mercadoria. Veio um homem ontem explicar. Falou durante uma hora e deixou um papel.
— Você quer que eu leia o papel?
— Eu já pedi para o rapaz da lotérica.
Minha resposta subiu depressa e parou nos dentes. Perguntar por que ela não me procurara antes repetiria seis anos de conversa numa única frase. Deixei passar.
— O que diz?
— Tem um curso. Quem trabalha com comida vai precisar fazer. Tem aula num computador e prova no final.
— Prova de quê?
— Higiene, temperatura, alergia, validade. Essas coisas eu sei. A prova é que eu não sei.
— Como assim?
Minha mãe desligou o fogo. O homem do café chamou outra vez ao fundo, agora usando o nome dela. Jandira respondeu que ele podia esperar ou procurar outra garrafa no terminal. A voz saiu firme, a mesma que usava para cobrar conta e impedir passageiro de apoiar mala suja sobre o balcão.
Quando voltou ao telefone, falou baixo.
— Eu preciso que você me ensine a ler.
Permaneci olhando a cadeira vazia.
O pedido tinha palavras comuns. Eu as ouvira de alunos, mães de alunos, vizinhos, adultos em formulários de matrícula. Nunca na voz dela.
Minha mãe fazia compras sozinha, conferia troco sem calculadora, decorava horários de ônibus e sabia qual fornecedor aumentara o preço do tomate antes que ele terminasse a frase. Assinava recibos. Respondia mensagens curtas com “sim”, “certo” e “obrigada”. Guardava números de telefone sem precisar procurar. Durante toda a minha infância, preenchera autorizações com uma letra grande e inclinada.
— Você sabe ler — eu disse.
— Sei algumas coisas.
— Quanto?
— O bastante para você nunca ter perguntado.
Levantei e fui até a cafeteira. Despejei o café na caneca, embora minhas mãos não precisassem da tarefa. O líquido chegou perto da borda. Limpei uma gota com o polegar.
— Mãe...
— Não começa.
— Eu só ia perguntar.
— Você ia falar devagar comigo.
Acertei a caneca sobre a mesa com força maior do que pretendia.
— Estou falando do meu jeito.
— Seu jeito muda quando acha que a pessoa não entende.
Ela tinha razão, e ouvir isso não me tornou mais generosa.
— Você quer aprender para a prova?
— Quero aprender para ler.
— Em uma semana?
— O curso dura doze.
— Alfabetização não tem prazo desse tipo.
— A prova tem.
O homem do café desistiu de esperar. Ouvi sua despedida atravessar o terminal, seguida por um comentário que minha mãe respondeu sem tirar o telefone do ouvido. Imaginei seu avental dobrado sobre a bancada, os cabelos presos ainda úmidos, a mão esquerda segurando o aparelho e a direita procurando ocupação entre copos, guardanapos e sacos de pão.
— Tem uma turma de adultos no colégio perto da igreja — continuei. — Você poderia se matricular.
— Eu me matriculei ontem.
A informação me calou.
— As aulas começam quando?
— Terça-feira.
— E por que precisa de mim?
Ela demorou a responder.
— Porque eu quero chegar lá sabendo entrar.
Sentei outra vez.
Conhecia minha mãe dentro de cozinhas, filas, corredores de hospital, ônibus lotados, reuniões escolares e lojas onde ela pechinchava até o vendedor perder a paciência. Nunca a imaginara parada diante de uma sala de aula com receio de atravessar a porta.
— O que significa saber entrar?
— Saber onde escrevem meu nome. Saber qual caderno comprar. Saber o que vão pedir no começo. Não quero ficar procurando cara boa para perguntar.
— A professora vai ajudar.
— Professora também tem vinte pessoas para cuidar.
— Adultos. Ela terá vinte adultos na sala.
— Então começa por aí.
O golpe foi limpo. Eu acabara de transformar uma turma inteira em gente a ser cuidada, e minha mãe me corrigira sem usar nenhuma palavra pedagógica.
Bebi o café. Estava quente demais. Apoiei a caneca e fiquei ouvindo os motores do outro lado da ligação.
— Posso trabalhar de qualquer lugar durante algumas semanas — falei.
— Quantas?
— Preciso organizar.
— Você sempre precisa organizar antes de responder.
— E você sempre quer resposta antes de terminar o pedido.
Jandira soltou o ar pelo nariz. Não chegou a rir. Foi o som mais próximo de intimidade que tivemos naquela manhã.
— Doze semanas — disse ela. — Depois você volta para sua vida.
A frase encontrou o lugar exato da nossa última briga.
Eu tinha dezessete anos, uma bolsa de estudos, duas malas emprestadas e medo de ir embora. Minha mãe colocou dinheiro no meu bolso, conferiu a passagem e mandou que eu não voltasse por saudade. Disse que saudade não pagava estudo. Disse que eu tinha conseguido sair e precisava honrar a chance. Na plataforma, quando pedi que fosse comigo até o ônibus, respondeu que o balcão abriria às cinco.
Passei seis anos acreditando que ela fizera da minha partida uma tarefa cumprida.
— Minha vida não para quando eu vou aí — respondi.
— Melhor.
— Também não começa quando eu saio.
Ela ficou quieta.
Um anúncio de embarque soou no terminal. Reconheci apenas o nome de uma cidade e o número da plataforma. Minha mãe esperou a gravação terminar.
— Eu sei disso, Cássia.
Ouvir meu nome inteiro na voz dela doeu de um jeito antigo. Jandira escolhera Cássia depois de escutar uma cantora no rádio da vizinha. Pediu a alguém que escrevesse num pedaço de papel e levou a grafia para a maternidade. Contava essa história com orgulho sempre que eu reclamava do acento ou dos dois esses.
— Manda uma fotografia do aviso — pedi.
— Já mandei.
Afastei o telefone do rosto. Havia uma mensagem recebida durante a chamada. A fotografia mostrava uma folha presa à parede por fita transparente. Estava torta, cortada no lado direito e próxima demais. Algumas linhas tinham círculos feitos com caneta azul.
— Quem marcou?
— Eu.
— O que você circulou?
— O que achei que era data.
Ampliei a imagem. Minha mãe acertara quatro das cinco datas. No quinto círculo, marcara o número de uma resolução municipal.
— Tem como fotografar de novo, pegando a folha inteira?
— Tem.
— Sem chegar tanto perto.
— Eu sei tirar fotografia.
— Esta cortou uma parte.
— A parte cortada é o desenho da prefeitura.
Eu quase corrigi. Preferi ampliar o texto restante.
O curso do terminal começaria na segunda-feira seguinte. A avaliação final estava marcada para novembro. Haveria encontros presenciais e atividades digitais. Os participantes poderiam solicitar apoio de acessibilidade e acompanhamento pedagógico. Li tudo em silêncio.
— Mãe, o curso oferece ajuda.
— Eu ouvi quando o homem explicou.
— Então...
— Eu não liguei para pedir que faça a prova por mim.
— Eu não disse isso.
— Pensou.
Não pensei. O fato de ela esperar esse pensamento em mim era pior.
Peguei o computador e abri o calendário. Na semana seguinte, eu entregaria dois capítulos de uma apostila. Havia uma reunião na quarta e outra na sexta. Meu contrato permitia trabalho remoto. O aluguel do apartamento estava pago até o fim do trimestre. Eu tinha razões para ficar. Tinha razões para ir. Nenhuma delas cabia naquela ligação sem carregar os seis anos junto.
— Posso chegar no sábado — falei.
Minha mãe não respondeu de imediato.
— De manhã ou de tarde?
— O ônibus chega às duas e vinte.
— Então chega depois das três.
— Se não atrasar.
— Sempre atrasa na entrada.
Ouvi uma gaveta abrir.
— Onde vou ficar?
— Aqui em casa.
— O quarto está livre?
— Tem dois sacos de arroz, uma caixa de óleo e copo descartável.
— Isso é livre para você?
— Até sábado fica.
Anotei o horário do ônibus, embora ainda não tivesse comprado a passagem.
— Preciso saber uma coisa antes.
— Fala.
— Quem mais sabe?
Jandira voltou a mexer em alguma coisa no balcão.
— Da dificuldade?
— Sim.
— Gente demais para eu contar. Gente de menos para fazer diferença.
Eu esperei.
— O rapaz da lotérica sabe — continuou. — A mulher do banco desconfia. Dois fornecedores sabem que não adianta trocar a cor da embalagem sem me avisar. Uma passageira soube no ano passado e escreveu uma reclamação por mim. Agora a professora sabe. Você sabe.
— E no terminal?
— No terminal todo mundo sabe da vida de todo mundo e finge que descobriu sozinho.
Um cliente chamou por pão com ovo. Minha mãe respondeu que abriria em cinco minutos.
— Preciso trabalhar.
— Eu compro a passagem hoje.
— Não traz livro de criança.
— Eu não faria isso.
— Você levou dois segundos para responder.
— Porque estou tentando não brigar antes de chegar.
Dessa vez, ela riu. Foi curto e rouco, interrompido por uma tosse.
— Compra um caderno sem bichinho na capa — disse. — E uma caneta que não falhe.
— Você escolhe o caderno quando eu chegar.
— Então traga só a caneta.
A ligação terminou sem despedida. Minha mãe sempre desligava depois de decidir que a conversa cumprira sua função.
Fiquei com o telefone na mão e o café esfriando sobre a mesa. A fotografia do aviso continuava aberta. Toquei nos círculos azuis e percorri as datas que Jandira reconhecera. Quatro acertos. Um número confundido. Doze semanas.
Abri o site da rodoviária e procurei a passagem de sábado.
Jandira Nunes administra há décadas um pequeno balcão de refeições dentro de um terminal rodoviário. Calcula preços, controla compras, conhece clientes e mantém o negócio funcionando. Sua leitura depende de palavras memorizadas, posições e estratégias que quase ninguém percebe.
Quando uma reforma no terminal traz cardápios digitais, novos avisos de segurança e uma prova obrigatória, Jandira toma duas decisões: matricula-se na educação de adultos e telefona para Cássia, a filha professora com quem mal conversa há seis anos.
Durante doze semanas, mãe e filha dividem a mesma casa, o balcão e um caderno amarelo. Cássia precisa aprender a ensinar sem comandar. Jandira precisa encontrar uma maneira de errar sem entregar a própria dignidade. Entre receitas, trocos, aulas e uma antiga bolsa de estudos, as duas retornam à conversa interrompida no dia em que Cássia partiu.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.