Universo da obra
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— Ah! — exclamou Carlos, a cachoeira de Paulo Afonso! Vê-la é um dos meus sonhos mais ardentes! Sei de cor os versos em que Castro Alves a cantou:
“...Mas súbito da noite no arrepio
Um mugido soturno rompe as trevas...
Tibubeantes — no álveo do rio —
Tremem as lapas dos titãs coevas!...
Que grito é este sepulcral, bravio,
Que espanta as sombras ululantes, sevas?
É o brado atroador da catadupa,
Do penhasco batendo na garupa!
— Mas — disse o moço, sorrindo — por mais talento que tenha um poeta, por mais que saiba exprimir em seus versos a grandeza de uma cena, não poderá jamais descrever o que é aquele assombro! Aquilo é indescritível!
— O senhor já viu a cachoeira de perto? — perguntou Alfredo.
— Já fiz duas vezes a viagem a cavalo, só para admirá-la. E se Deus me der vida e saúde, hei de voltar.
— Conte! Conte o que viu! — exclamou o pequeno, batendo palmas.
— É difícil contar... Imaginem os senhores que o rio São Francisco se despenha, com toda a sua massa formidável de água, de uma altura de oitenta e um metros! O salto dá-se justamente uns trezentos e dez quilômetros acida da foz do rio.
— Trezentos e dez quilômetros! — disse Alfredo. — Mas isso deve ser uma distância enorme!
— Ora! — disse Carlos. — O rio São Francisco é um dos maiores do globo: o seu percurso é avaliado em dois mil e novecentos quilômetros! Mas vamos ouvir este senhor que já teve a fortuna de ver a cachoeira.
— Quando o rio chega a esse ponto, — continuou a dizer o viajante, satisfazendo a curiosidade dos dois meninos — as suas ondas passam apertadas entre duas altíssimas muralhas de rocha. Obrigadas a passar por essa garganta, as águas avolumam-se, esmagam-se, atropelam-se, atiram-se vertiginosamente por uma rampa de granito, e desabam da altura de oitenta e um metros, formando quatro canais, de muitos metros de largura... Mas, o mais admirável é que, sendo curvos os canais, as correntes de água encontram-se em certo ponto, num choque tremendo, cujo barulho se escuta e muitas léguas de distância. O viajante ainda vem longe, longe... e já ouve o mugir soturno da cachoeira.
— Mas quando se está perto é que o espetáculo deve ser belo — disse Carlos.
— Não é somente belo: é amedrontador: Toda a terra estremece... parece que há, ao mesmo tempo a erupção de vários vulcões rugindo. As águas crescem, confundem-se, brigam, separam-se, tornam a chocar-se numa peleja titânica, com um fragor que ensurdece. Em torno da cachoeira, todo o espaço fica toldado, de um nevoeiro denso, formado pelo vapor da água que espadana em espuma. E imaginem agora o sol atravessando esse vapor, e acendendo nela vários arco-íris em que brilham topázios, rubís, esmeraldas e safiras! Ah! Não se pode dizer o que é aquilo!
Carlos e Alfredo ouviam extáticos a narração de seu amável companheiro de viagem. Mas, nesse momento, o trem, com um estrondo mais forte, de ferragens entrechocadas, atravessou uma ponte.
— É a ponte do rio Moxotó. Estamos entrando no Estado de Pernambuco! — disse o viajante.
— Mas então não estamos longe de Jatobá...
— Estamos perto. O Moxotó é a divisa entre Alagoas e Pernambuco.
— Mas, quem foi que marcou essas divisas? — interrogou Alfredo, que nunca perdia o costume de mostrar a sua curiosidade.
— Todas essas divisas são antigas, e foram sendo marcadas à medida que se foi explorando o território das capitanias em que o rei de Portugal D. João III dividiu o Brasil, — disse-lhe Carlos. — O governo português, reconhecendo a necessidade de povoar o Brasil, e receoso do desenvolvimento que o comércio francês ia tendo, resolveu ceder grandes porções de território a alguns favoritos, encarregados de povoá-las e administrá-las. Essas capitanias eram doze, e já tinham limites vagos, que se foram depois precisando e marcando com segurança. Ainda hoje a precisão não é absoluta: ainda há discussão sobre os verdadeiros limites de alguns Estados, em certos pontos do seu território...
— Jatobá! — gritou o chefe do trem.
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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