Universo da obra
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No dia seguinte, logo depois do meio dia, o calor apertou. O sol queimava. Quase não havia viração. Por volta das duas horas da tarde, uma nuvem negra começou a crescer no céu, sobre a proa do navio. Carlos e Alfredo ouviram o comandante dizer:
— Não tarda muito que a encontraremos! Caminhamos para ela, e ela caminha para nós.
— Ela, quem? — perguntou Alfredo curioso.
— A tempestade.
— Jesus! — exclamou o pequeno, empalidecendo — uma tempestade?! Então, estamos perdidos?!
O comandante passou-lhe a mão pela cabeça, e disse, gracejando:
— Fique sossegado, que ainda não chegou a hora da sua morte! A tempestade, que aí vem, não há de passar de uma boa trovoada, com uma boa carga de chuva...
A nuvem crescia cada vez mais. Agora uma viração passava. Ouvia-se longe o ronco do trovão. O navio começou a jogar com mais força. Quase todos os passageiros de primeira classe estavam na tolda, ao lado do comandante admirando o espetáculo do crescer da tormenta.
— Aqui as tempestades nunca são violentas. Para um marinheiro velho, como eu, a que nós vamos ver não passa de uma brincadeira! Tempestades terríveis já vi eu!... E no mar largo, longe de todo e qualquer pedaço de terra, longe de todo e qualquer auxílio, durante longos dias seguidos!
— Qual foi a mais terrível tempestade que já viu, comandante? — interrogou um passageiro.
— Foi uma que vi no Pacífico, há uns vinte anos.
Enquanto o comandante falava, amiudavam-se os trovões. Com incrível rapidez, a nuvem crescera e cobrira todo o céu. As ondas avolumavam-se, encrespando-se, e balançando o paquete. Começaram a cair alguns pingos de água.
— Já aí está a chuva... Daqui a pouco teremos o sol de novo, porque a tormenta vai em direção oposta à nossa. É bom que vamos para dentro, se não quisermos ficar inteiramente molhados...
Entraram para a sala de fumar. A chuva desabou com extraordinária violência.
— E como foi essa tempestade de que o senhor nos falava, comandante? — perguntou Carlos.
O oficial contou logo.
— Foi, como ia dizendo, no Oceano Pacífico. Estávamos em viagem de instrução, a bordo de uma corveta de guerra. Tínhamos atravessado o estreito de Magalhães, e íamos para a Austrália. Nesse ponto do globo as tempestades são tremendas... Ficamos seis dias sem governo, à mercê das ondas. A tormenta começou ao amanhecer de um Sábado, e só amainou na Quinta-feira à tarde. Logo no primeiro dia, a fúria do vento despedaçou algumas velas, e começou a impedir todas as manobras. Era quase impossível estar no convés: o vento queria carregar tudo quanto achava no seu caminho, e soprava com uma violência incrível. Havia ondas, que mais pareciam verdadeiras montanhas, subindo a uma altura extraordinária, e vindo desabar com fragor dentro do navio. Não havia a bordo um só lugar enxuto. Não comíamos, não dormíamos, estávamos extenuados de fadiga e de fome. No quarto dia quebrou-se o leme... Foi então que nos consideramos perdidos... O navio, sem governo, dançava sobre as águas ao capricho do vendaval, e de instante a instante estávamos vendo chegar o momento da catástrofe final. Essa situação desesperadora ainda durou dois dias, ao cabo dos quais, quando já todos contávamos com a morte inevitável, o tempo melhorou de súbito.
— E ninguém morreu? — perguntou Alfredo.
— Perdemos dois homens, arrebatados das vergas pelo tufão... A bordo, estava tudo quebrado. Além da perda do leme, ainda tivéramos a do mastro grande, lascado por um raio. Foi nessa triste situação que nos encontrou um navio francês, ao qual devemos a salvação. A corveta foi conduzida até Sidney. Felizmente, a tempestade levara-nos até perto da Austrália...
— Não sabiam que estavam perto? — indagou o pequeno.
— Nada sabíamos, porque estávamos sem bússola, sem sextante. Tínhamos perdido tudo. Foi por um verdadeiro milagre que não perdemos também de todo a corveta...
A chuva cessara, como o tinha previsto o comandante. Saíram todos para a tolda.
A tempestade já ia longe. O sol brilhava de novo sobre o mar, e o paquete continuava sem novidade a sua marcha.
— A que hora chegaremos amanhã ao rio? — indagou alguém.
— Devemos chegar ao romper do dia — respondeu o comandante.
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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