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Capítulo 29 · Através do Brasil

XXVIII. — As lavadeiras

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Dentro em pouco, as cinco mulheres e os três rapazes formavam um só grupo.

A velha, a que gracejara com Alfredo, tomou o peixe e escamou-o em dois tempos, com grande admiração do pequeno que nunca a supusera capaz de fazer aquilo tão depressa. Depois, a lavadeira acendeu fogo, arranjou um espeto, e enfiou o peixe, temperado com um pouco de sal, levando-o às brasas.

— Maria! — exclamou ela a uma rapariga, que, pela idade e pelas feições, parecia ser sua filha — vai molhando essa roupa!

E, voltando-se para Carlos, perguntou:

— Aquelas roupinhas estendidas ali são de vocês?

— São.

— Estão corando?

— Creio que sim, — respondeu ele, com um ar de quem não entendia muito daquilo.

— Pois, vou mandar enxugá-las...

E, depois de alguns momentos:

— Vocês de onde são, e que estão fazendo aqui?

Carlos não achou conveniente estar contando sua história a toda gente; e fazendo um sinal a Alfredo, para lhe indicar que não falasse, deu tempo a Juvêncio, que respondeu:

— Somos de Petrolina, e vamos até Vila Nova, e talvez mesmo até a Baía; estes meninos têm família na Baía, uns parentes do pai, e querem ver se conseguem entrar em um colégio; e eu quero ver se arranjo um emprego.

Assado o peixe, a velha entregou-o a Carlos que o não queria aceitar. Ela, porém, insistiu:

— Aceite! Nós todas já almoçamos bem. Ah! Mas vocês não têm farinha... Oh! Maria! — gritou, voltando-se para a filha. — Vai à casa buscar um pouco de farinha.

— Não, não é preciso! — acudiram os três rapazes.

— Vai, já te disse! É ali! — continuou, apontando uma casa que se via bem distinta, na encosta, defronte do ponto em que estavam.

Partiu a rapariga, e, dez minutos depois, estava de volta, com uma cuia de farinha. Mas, ao mesmo tempo que ela descia, por um lado, descia, pelo outro, o dono da venda, que, mal chegou à distância de ser ouvido, gritou:

— Olá! Rapaz! Que estás fazendo aí! — perguntou o vendeiro ao Juvêncio.

— Lavando umas roupas, e apanhando umas piabanhas, enquanto as roupas coram ao sol...

— Mas os teus companheiros não podem fazer isso sem o teu auxílio?

— Podem... Porque pergunta?

— Porque preciso de alguém que me leve já uma carta aqui adiante, ao arraial do Riachinho, no caminho de Vila Nova, e bem me podias prestar esse serviço, ganhando alguma cousa.

— A carta tem resposta?

— Não.

Juvêncio piscou um olho para Carlos, e respondeu ao vendeiro:

— Não há dúvida. Prepare a sua carta, que irei levá-la agora mesmo. E fique descansando que não há de queixar-se do portador!

Assim que o homem se afastou, o rapaz disse aos companheiros:

— Um negócio magnífico, hem?

— Por quê? — interrogou Carlos.

— Por que teremos de passar inevitavelmente por esse arraial, e, assim, aproveito a ocasião para ganhar algum dinheiro.

— Mas — objetou Carlos — o homem diz que a carta deve seguir já, e nós não podemos partir daqui sem que as nossas roupas tenham secado...

— Isso é o menos. Vosmecês ficam aqui. Eu sigo hoje, e dou conta do meu recado. Amanhã, quando tudo estiver pronto, vosmecês partem bem cedo, vão seguindo sempre o mesmo caminho direito, e encontram-se comigo em Riachinho.

— E com que roupa vai você?

— Vou com esta camisa velha, com esta calça molhada, que há de secar com o sol, e com o paletó de Carlos. Vosmecês levam o resto da minha roupa.

— Bem! Mas como havemos nós de achá-lo lá no arraial?

— Ora! Um arraial não é uma cidade; não é o Recife, nem o Rio de Janeiro... Olhe: deve haver lá uma igreja, uma capela...

— Há, sim, — acudiu a velha, que o escutara.

— Muito bem! Amanhã, do meio dia para a tarde, ficarei à porta da igreja à espera de vosmecês.

— Eles só não irão, — interveio rindo a velha, — se eu os prender lá em casa; — e apontou para a casinha. — E estou com muita vontade de fazer isto: quero guardar este vadio — e levou a mão aos cabelos de Alfredo — para o casar com uma velha que me criou...

Apareceu de novo o vendeiro, e entregou a carta ao Juvêncio. Os rapazes abraçaram-se, e Juvêncio, ao ver os outros comovidos, disse gracejando:

— Que é isto? A separação é tão curta! Eu não vou para um país estrangeiro...

Juvêncio ainda cumprimentou com a cabeça as mulheres, apertou a mão às duas que estavam no grupo, mãe e filha, e partiu.

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Sinopse

Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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