Leia agora
Através do Brasil

Universo da obra

Através do Brasil

Capítulo 12 · Através do Brasil

XI. — Orphaos

12 de 83 ≈ 6 min de leitura

Felizmente o major Antônio Bento estava na vila. Recebeu com carinho os viajantes, e no mesmo dia forneceu-lhes o que pediam. Agasalhou-os, deu-lhes jantar, e deixou-os às três horas da tarde, numa excelente canoa, confiados a um canoeiro perito, para quem as águas do São Francisco já não tinham segredos. Levá-los-ia a canoa até a casa do capitão Tavares, um velho amigo do major, seu antigo companheiro na campanha do Paraguai; e daí seguiriam na mesma condução até Boa Vista.

Por sete dias viajaram assim os dois rapazes, rio acima, no fundo da estreita canoa que ora navegava impedida pelos remos e pelas varas, ora corria tangida pelo vento, que lhe enfunava o pano das pequenas velas. Só durante uma noite dormiram em terra firme, na casa do amigo do major Antônio Bento, — um bom velho que contava histórias do Paraguai e fazia a todo instante a apologia da vida militar. Mas, nas outras noites, dormiram ali no fundo da canoa, sem comodidade, alimentando-se mal, e contando de minuto em minuto as horas longas e morosas que os separavam do termo da viagem.

Nos dois primeiros dias, ainda os divertia o espetáculo do rio. Uma viagem fluvial é sempre interessante para quem a realiza pela primeira vez. A jornada é monótona, mas tem, a princípio, o encanto da novidade pitoresca. Os rapazes contemplavam o curso do rio São Francisco, — às vezes manso e largo, espraiado como um mar, — outras vezes acachoeirado, dividido em canais, formando ilhas e ilhotas, estas cobertas de vegetação opulenta, aquelas inóspitas e rochosas, opondo-se às vagas que as batiam em fúria. Das ribanceiras ou das pontas das ilhas partiam muitas vezes bancos de areia grossa e branca, planos, como aterros feitos pela mão do homem. Em certos pontos, via-se o gado, que vinha neles pousar, tão serenamente como se estivesse em terra firme. As margens do rio mostravam-se cobertas de matas: viam-se ali os troncos brancos das embaúbas, os altos jacarandás, as baunilhas espinhosas, as palmeiras tucumã.

— De onde vem esse rio? — perguntou uma vez Alfredo.

— Vem de Minas...

— Como é grande o Brasil!

— E como nós já temos andado! — acrescentou Carlos, com tristeza.

Os últimos dias foram tristes. Aquela uniforme extensão de águas, aquela mesma paisagem selvagem, desdobrando-se sem variedade, davam aos dois meninos uma negra melancolia. Por fim, numa Quinta-feira, às duas horas da tarde, chegaram a Boa Vista. Havia doze dias que tinham partido do Recife! Saltaram da canoa, com uma sofreguidão delirante, gozando o prazer de pisar a terra firme, e ansiando por abraçar o pai...

— Aqui não há hotel — disse o canoeiro. — Com certeza, o pai de vosmecês está hospedado na casa do escrivão, que é onde pára toda a gente boa que passa aqui.

Correram à casa indicada, e tiveram uma decepção:

— Seu pai já não está em Boa Vista — disseram-lhes. — Esteve aqui oito dias, doente; e, como não melhorasse, seguiu para Petrolina... Seguiu há uns dez dias.

Os dois meninos entreolharam-se, com lágrimas... Contavam abraçar o pai, e apenas ficavam sabendo que ele estava pior!

Durante meia hora, Carlos permaneceu num triste abatimento, sem idéias... Mas a sua energia não estava esgotada. Contou o dinheiro que lhe restava, e verificou que apenas tinha no bolso três mil réis... Mas narrou a sua angústia ao escrivão, e pediu-lhe que o aconselhasse.

— Se o senhor quer ir a Petrolina, — disse-lhe o homem, depois de uma curta reflexão, — o que posso fazer é arranjar-lhe uma boa embarcação. É uma lancha a vapor, que navegava de Juazeiro para cima, e veio até aqui; deve partir hoje mesmo. Podem ir de graça até Petrolina.

Partiram. A lancha navegou todo o dia, mas ao cair da tarde parou: era arriscado viajar, com a escuridão da noite por entre as pedras do rio. Mais essa demora!... Na manhã seguinte, a viagem continuou.

Às dez horas estaremos em Juazeiro, que é o mesmo porto de Petrolina; — disse o comandante — Petrolina e Juazeiro defrontam-se, nas duas margens do São Francisco.

O pequeno vapor, arfando, vencia a corrente, ora tomando o meio dela, ora desviando-se para uma e outra margem, fazendo voltas, fugindo das pedras, evitando as corredeiras. Seriam nove horas da manhã. Carlos e Alfredo, sentados sobre uns sacos, à proa da lancha, estavam tão desanimados que não trocavam uma só palavra. Que viagem! Já lhes parecia que estavam no fim do mundo, que tinham percorrido toda a terra de um a outro extremo. Quando findaria aquela angústia?!

De repente, em uma das voltas do rio, avistaram uma canoa, que vinha em sentido contrário. Quando enfrentou com a lancha, a pequena embarcação aproximou-se um pouco, e parou.

— Você vem do Juazeiro? — perguntou o comandante.

— Venho, sim.

— Que há de novo por lá?

— Nada... Ah! É verdade! Conheceu um doutor, um engenheiro que estava doente em Petrolina?

Ouvindo isso, Carlos e Alfredo puseram-se de pé, ansiosos...

— Não... — disse o comandante. — porque pergunta?

— Esse engenheiro morreu, coitado! Enterrou-se ontem em Juazeiro...

Ouviram-se dois gritos, e depois um soluçar agoniado. Os dois meninos choravam abraçados, confundindo as suas lágrimas. O comandante e os tripulantes da lancha, compreendendo tudo, olhavam comovidos aquela cena horrível... E o resto da viagem foi triste, tão triste como se ali fosse realmente um cadáver.

Duas horas depois, a lancha aportava em Juazeiro. Tontos, sem saber para onde iriam, tão alucinados de dor que nem podiam ter uma idéia. Carlos e Alfredo desembarcaram como dois autômatos ... Andaram sem destino, mudos, aterrados e foram ter ao cemitério. Pediram que lhes mostrassem a cova em que o engenheiro fora na véspera enterrado, e ficaram ajoelhados junto dela, chorando longamente...

Através do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Através do Brasil

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Através do Brasil

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Através do Brasil

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Através do Brasil Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Através do Brasil

Todos os capítulos 83 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir