Universo da obra
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Quando chegaram no escritório da Estrada de Ferro de Águas Belas, Carlos e Alfredo encontraram um moço, engenheiro e desenhista, que substituía o engenheiro em viagem. Chamava-se Cunha, era amigo do pai dos dois rapazes, e recebeu-os com amizade e carinho.
— É bem exata, infelizmente, — disse ele a Carlos — a notícia que receberam. Seu pai, o Dr. Meneses, está doente. Fui eu mesmo quem lhes passou o telegrama... Está doente, e bem longe daqui: se não fosse isso, já eu teria ido visitá-lo, e teria vindo com ele para Garanhuns, onde há mais conforto. Mas como posso ir até Boa Vista, à margem do rio São Francisco, quarenta léguas acima do extremo da Estrada de Ferro de Piranhas?
— Tão longe assim? — Perguntou Carlos, com espanto e mágoa.
— Sim. O chefe do serviço quis mandar a Boa Vista uma pessoa de confiança, e seu pai foi o escolhido. Assim que chegou, adoeceu. Comunicaram-nos logo a notícia, por carta: e, como poderia tratar-se de coisa grave, não hesitei em passar-lhes o telegrama que receberam.
— Bem! — Disse Carlos, depois de um segundo de reflexão. — Iremos a Boa Vista!
— E seu irmãozinho?
— Eu também irei! — Exclamou Alfredo.
— Impossível, meu filho! — Objetou, compadecido, o engenheiro. — A viagem é longa e penosa. É preciso viajar vinte e cinco léguas a cavalo até Piranhas, seguir por estrada de ferro até Jatobá, e daí subir, em canoa, quarenta léguas até Boa Vista. Essa não é viagem para uma criança.
— Seja como for, quero ir! — Teimou o menino, já com os olhos cheios de água.
O Dr. Cunha compreendeu que nada conseguiria insistindo. Foi logo dar as providências para a viagem: arranjou dois cavalos mansos, contratou, para acompanhar os dois viajantes, um homem conhecedor dos caminhos, e entregou ao mais velho dos irmãos o dinheiro necessário para as passagens e as despesas miúdas. Deu-lhes além disso uma carta de apresentação para o major Antônio Bento, que em Jatobá lhes forneceria os meios de subirem o rio em canoas.
Eram duas horas da tarde, quando a pequena caravana partiu de Garanhuns. A princípio, tudo correu bem. O guia era falador, e tagarelava sem cessar, respondendo às perguntas dos meninos. A tarde era linda e fresca. Alfredo divertia-se extraordinariamente com aquele modo, para ele novo, de viajar: deliciava-se com o balanço do andar do animal, e ia encantado, fazendo perguntas sobre perguntas. O próprio Carlos parecia menos triste, menos preocupado com a doença do pai... Mas, depois de duas horas de viagem Alfredo começou a sentir-se fatigado: doíam-lhe as costas e as pernas; voltava-se, ora para um, ora para outro lado, procurando uma posição mais cômoda. Carlos compreendeu o seu sofrimento, e tentou distraí-lo:
— Sabes para onde vamos?
— Não. Para onde? — Perguntou o pequeno, já com os olhos acesos de curiosidade.
— Vamos para o Estado de Alagoas, e na direção do Estado da Bahia. Não te lembras da capital da Bahia, por onde passamos há cinco anos? É a cidade mais velha do Brasil. Foi na Bahia que viveu o Caramuru.
— Que Caramuru?
— Caramuru — começou Carlos a narrar — foi o nome que os índios deram a um certo Diogo Álvares, português, que naufragou na Bahia ali por volta de 1510. Aprisionado pelos índios, Diogo Álvares ia ser por eles comido...
— Comido?
— Sim. Os selvagens do Brasil eram antropófagos, isto é: comiam os seus prisioneiros. Diogo Álvares ia ser comido, quando teve a feliz idéia de fazer fogo, com a espingarda que trazia, sobre um pássaro. Ouvindo o estrondo da arma, que não conheciam, vendo o pássaro cair fulminado, os índios prostraram-se por terra, e adoraram o náufrago português, a quem deram o nome de Caramuru.
— Mas, que quer dizer essa palavra?
— Dizem uns que, na língua selvagem, Caramuru queria dizer senhor do raio, filho do trovão; e dizem outros que com esse nome designavam os indígenas uma espécie de peixe elétrico, uma enguia, cujo contato fazia estremecer a mão que a tocava. Seja como for, Diogo Álvares salvou-se, e viveu muito tempo entre os índios, casando-se com uma rapariga da tribo, Paraguaçu, que, depois de batizada, recebeu o nome cristão de Catarina. Quando, em 1534, Martim Afonso chegou à Bahia, ainda encontrou Caramuru, que teve muitos filhos, e prestou grandes serviços à colonização do norte do Brasil.
— Que história interessante! — Exclamou Alfredo.
— Houve também um português, que naufragou mais para o sul, em 1512, em São Vicente, onde é hoje a cidade de Santos, no Estado de São Paulo. Também esse, que se chamava João Ramalho, escapou de ser devorado pelos índios e chegou a dominá-los de tal modo que com eles viveu até idade avançada, constituindo família e sendo encarregado mais tarde, por Martim Afonso, do governo da colônia ou vila militar de Piratininga, que foi a origem da atual cidade de São Paulo.
— Mas parece impossível que os índios pudessem comer carne humana! Que coisa horrível, Carlos!
— Ah! A vida dos selvagens era muito diferente da nossa, em tudo...
— Como viviam eles? — Perguntou o pequeno cada vez mais interessado.
Carlos não quis deixar de continuar a distraí-lo; e, enquanto os animais trotavam, falou deste modo:
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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