Universo da obra
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— Não sou ladrão! — continuava Juvêncio.
— Deveras? — dizia o sujeito, com ironia.
— Juro que não sou ladrão! Nem conheço aqueles homens! Nem sou daqui!
Ouviu-se um tropel de cavalos, e reapareceram os dois cavaleiros, que tinham partido em perseguição dos ladrões.
— Os salteadores fugiram; internaram-se pelo mato! — gritou um deles, ainda de longe.
— E que é do cavalo, que eles levavam pelo cabresto? — perguntou o que ficara com Juvêncio.
— Disparou, e não o vimos mais.
— Bem! Enfim, sempre apanhamos um dos patifes, e o coronel há de ficar contente!
Juvêncio estremeceu, ouvindo isso. Sabia bem quanto é terrível, às vezes, a gente do sertão: voltando-se para o homem que acabava de falar, — um sujeito gordo, barbado, já meio idoso, — disse com voz firme:
— Juro ainda uma vez que não sou ladrão, e que não conheço aqueles homens!
— Sim? E então como se explica que o tenhamos encontrado com eles, montando um cavalo roubado?
Juvêncio contou toda a história do seu encontro com os ladrões.
— Ora! Deixe-se de histórias! — acudiu o homem. — Você vai seguir conosco, e lá na fazenda se explicará!
Seguiram, — os dois a cavalo, e Juvêncio a pé, entre eles, vigiado, — pela mesma estrada por onde tinham aparecido.
Correram, durante cerca de hora e meia, e chegaram à fazenda do coronel.
O coronel estava dormindo, mas foi chamado e levantou-se logo. Juvêncio, ainda com as mãos atadas, foi levado à sua presença, — e um dos sujeitos o mais velho, começou a relatar o que sucedera.
O fazendeiro, ouvindo-o, não tirava os olhos de sobre o rapaz, — uns olhos duros, pardos, frios, sombreados por espessas sobrancelhas. Juvêncio, olhando-o também, tremia de medo: aquele homem tinha na face uma expressão de maldade feroz... Era um velho sertanejo, queimado do sol, — cabelos grisalhos, duros e maltratados, uma barba rala e desigual, pele enrugada como um couro franzido.
O homem concluía o seu relatório:
— Os ladrões eram três. Infelizmente, só pudemos apanhar este...
— Sim! — rugiu o patrão. — E os cavalos? Nem os cavalos, nem os ladrões! E é assim que vocês sabem cumprir as minhas ordens e cuidar dos meus interesses? Vocês são tão bons como eles!
— Fizemos o possível! E um dos ladrões está ferido... fiz fogo sobre ele, e ouvi um gemido. Fique tranqüilo: havemos de apanhá-los! E este pequeno, que é filho ou não sei que de um deles, há de dizer-nos onde os poderemos achar!
— Como não? — bradou o coronel — há de dizer tudo! Diga já!
Juvêncio exclamou ainda, com toda a sua força de alma:
— Nada posso dizer, porque nada sei! Não sei quem são aqueles homens!
— Bem! Veremos! Ficará preso, num quarto escuro, e amanhã há de confessar. E será espancado, até confessar!
Juvêncio foi levado a um pequeno quarto, ao fundo da casa, junto da cozinha.
Ficando só, pôs-se a pensar na sorte que o esperava: ser espancado todos os dias, até que se decidisse a confessar... A confessar o que? Um crime que não praticara?! Que ia ser dele, ali, desamparado, sem uma só pessoa que lhe valesse? Que fazer? Dizer quem era, e pedir que mandassem tirar informações, a seu respeito, na sua terra? Mas o padrasto ficaria conhecendo o seu paradeiro, e viria buscá-lo: e seria, de novo, o cativeiro, a tortura, a desgraça...
O rapaz tanto pensou, que, de repente, uma idéia vaga e indefinida a princípio, e precisando-se e acentuando-se pouco a pouco, começou a formar-se no seu cérebro.
Juvêncio concentrou-se, refletiu, e não conteve um grito de triunfo: tinha achado o meio de salvar-se!
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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