Universo da obra
Universo da obra
Os três companheiros, quando acordaram, viram o casebre inundado de luz. Era em Outubro; e nesse mês o sol aparece mais cedo. Seriam seis horas da manhã, e já fazia dia claro. A porta do rancho ficara aberta, e uma larga toalha de claridade entrava, estendendo-se até o couro.
Levantaram-se, e quiseram aproveitar as horas frescas da manhã, viajando. Deitaram um último olhar à pobre casa que os abrigara, e partiram.
Iam animados, quase alegres. A manhã era verdadeiramente bela. O céu limpo e azul, quase sem nuvens, tinha, no lado do oriente, uma cor de rosa, levemente doirada; uma viração agradável sacudia as folhagens; o mato exalava um aroma selvagem. Saíram do capão, e entraram no campo. Aí o olhar estendia-se à vontade, abrangendo um horizonte largo. Nem um floco de neblina velava a paisagem, nem um morro servia de obstáculo à vista: apenas, aqui e ali, algumas touceiras de vegetação baixa. Havia, em tudo, uma grande animação; os passarinhos cortavam o ar. Parecia que os arbustos, as moitas, os tufos de ervas estavam povoados de ninhos. Saíam trinados de toda a parte; quando aqui se calava um pássaro, dois e três começavam a gorjear mais adiante. Todo o espaço estava cheio dessa música festiva, num concerto incessante.
Tinham andado uns cem metros, quando Juvêncio parou, e voltou-se para os companheiros:
— Tenho uma idéia... Se tomássemos um banho na fonte? Não há nada como um bom banho frio, para restaurar as forças da gente...
— Vamos! — acudiram prontamente Carlos e Alfredo.
Enveredaram para o lado da fonte. Foi um verdadeiro regalo o banho àquela hora matinal! A água era abundante e limpa, de uma pureza admirável, correndo entre pedras lisas. Como não tinham toalha ou lençol, deixaram que o ar lhes enxugasse os corpos. Enfiaram as roupas, e puseram-se a caminho, sentindo-se bem dispostos e fortalecidos. Daí a pouco estavam na estrada real.
Eram dez horas da manhã, quando encontraram uma venda. Era uma casa rústica, com um vasto telheiro ao lado. Os viajantes, que já sentiam fome e cansaço, resolveram parar ali. Carlos lembrou-se de comprar algumas cousas de que tinha necessidade: uma faca, um pedaço de sabão, fósforos, um pouco de carne e farinha. Gastou nisso o resto do dinheiro. Juvêncio despendeu os dois mil réis que possuía, adquirindo uma boa provisão de café e açúcar, e uma caneca. Perto, em frente a uma choupana de sapé, dois homens batiam feijão.
— Mas como vai você preparar o café se não tem um coador? — perguntou Alfredo.
— Já lhe mostro!
Dirigiram-se para o telheiro. Juvêncio arranjou um bom fogo, numa trempe formada por três pedras. Pediu ao vendeiro uma panela, e ferveu dentro dela uma porção de água. Deitou na água algumas colheres de pó e café, e deixou a mistura repousar. O pó depositou-se no fundo da panela, e o café, servido na caneca, foi saboreado, com grandes elogios, pelos viajantes, que já a esse tempo tinham comido a carne e a farinha.
De repente, Carlos exclamou:
— Que cheiro de enxofre!
— É naturalmente, algum formigueiro que estão destruindo, perto, — explicou Juvêncio.
Foram ver, e acharam um homem, agachado, junto da abertura do formigueiro, injetando nele com o auxílio de um fole a fumarada do enxofre.
Era uma hora da tarde. Continuaram a marcha mas logo adiante tiveram de parar. Chegaram a um braço de rio, não muito largo, mas profundo, atravessado por uma ponte de madeira. A ponte estava tomada por um carro de bois. O carreiro instigava os bois, dando gritos, e metendo-lhes a ponta da aguilhada; mas o carro não podia galgar uma diferença de nível, que havia entre o caminho e o tabuleiro da ponte. Juvêncio ofereceu-se para ajudar o carreiro: tangeram juntos os bois, e safaram o carro.
O homem, vendo que Alfredo ia fatigado, propôs-lhe que se acomodasse sobre o carro. O menino, contentíssimo, empoleirou-se sobre a lenha. Fizeram assim uma légua, gastando quase três horas, pela lentidão com que marchavam os bois. Mas conversaram muito com o carreiro, homem expansivo e amável, que, separando-se dos três caminhantes, tudo fez para que eles aceitassem um quarto de requeijão fresco, saborosíssimo.
O carro chegou ao seu destino, e os viajantes continuaram a sua marcha através do sertão.
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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