Universo da obra
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— É aqui! — murmurou Juvêncio com solenidade.
Pararam todos, e chegaram-se uns para os outros, formando um feixe de homens. Venâncio falava baixinho, ao ouvido, quase, dos seus homens:
— Vocês três, Zé Pedro, Januário, e João Fazenda, ficam aqui, e, pelo sim, pelo não, guardam este laço e esta lanterna. Foice numa mão, e garrucha na outra! E nós, vamos atravessar a água, — disse para os outros.
— Acho bom tirarmos as calças, porque o passo é meio fundo: dá água até a cintura quase — aconselhou Juvêncio.
— Sim! — concordou Venâncio, e foi logo, como os outros, safando as calças e atando-as à cintura: mas ainda não tinham acabado este preparativo, e já o rapaz entrava na água.
— Espera! — murmurou, áspero, Venâncio.
— Sim! — acudiu a voz apagada de Juvêncio.
Disse — sim — mas continuou. A treva era completa. A sombra espessa do arvoredo, a noite negra, sobre a superfície trêmula da corrente, tornavam impossível distinguir-se qualquer cousa. Venâncio, seguido de perto pelos seus homens, dirigiu-se logo para o passo, e avançou com o braço estendido, tateando, à procura do rapaz. Este, porém, não o esperara; entrara na água até o meio da passagem, e, em vez de buscar a outra margem, tomou pelo leito do ribeirão; a água chegava-lhe até o peito. Deu vinte passos, e, voltando-se para a margem de onde viera, agarrou-se à primeira raiz que encontrou, e ganhou a terra firme outra vez.
Estava Juvêncio desembaraçado dos seus terríveis guardas, mas ainda não se sentia livre; queria ver-se na estrada. Nisto, ouviu um sussurro de falas; percebeu a voz rude de Venâncio, que o chamava baixinho, já meio impaciente.
“Preciso safar-me”, pensou o rapaz: “podia trepar a uma destas árvores e passar aí a noite, que eles não seriam capazes de descobrir-me, e, com a luz da manhã, sair daqui; mas, se ficam também?... Amanhã dão comigo... Nada! O melhor é tirar-me daqui; desde que vá, procurando sempre o rumo de cima e da direita, hei de chegar à estrada. Eles hão de buscar à esquerda, porque entraram por lá...”
Juvêncio refletia estas cousas, mas já estava andando, sôfrego. Tropeçava, enrolava-se nos cipós, emaranhava-se nas ramas, caia, levantava-se tateava, seguindo sempre para cima.
— Juvêncio! — bramiu a voz colérica de Venâncio. — Vem já para aqui, ou varo-te com uma bala!!!
Esta exclamação foi um novo incentivo para o rapaz, que, no seu afã, já não tomava precauções contra os tropeços do mato. Um ramo pegou-lhe em cheio a cabeça, arrancou-lhe o chapéu e magoou-o profundamente. Mas não se deteve; tirou o paletó, enrolou-o à cabeça, ao modo dos pretos africanos, e prosseguiu para cima.
Ao fim de vinte minutos, estava na estrada.
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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