Universo da obra
Universo da obra
Durante dois dias, esteve o paquete em São Luiz do Maranhão. Os passageiros espalharam-se pela cidade. São Luiz não tinha o aspecto sorridente de Fortaleza, nem a quietude simples do Natal. Era solene e triste; mas Juvêncio não se cansava de passear pelas ruas. Não poderia dizer porque, mas a terra agradou-lhe. Era a beleza geral da cidade, a sincera cordialidade da gente...
O pequeno sertanejo, sem instrução, não podia compreender bem todas as conversações que ouvia. Mas percebia o natural orgulho com que o povo falava da história do Maranhão, das guerras contra os franceses e os holandeses, e das revoluções contra o domínio português e o Império. Um homem do povo, que passeava com Juvêncio, à noite, ao luar, mostrou-lhe a estátua de Gonçalves Dias; e cantou, com uma singela música tocante, alguns versos do poeta maranhense:
Enfim te vejo! Enfim posso
Curvado a teu pés, dizer-te
Que não cessei de querer-te,
Pesar do quando sofri...
No dia seguinte ao da partida de São Luiz, discorria Gervásio, como de costume, falando a Juvêncio:
— Já deve estar cansado do mar, hein?
— Sim, já me tarda a chegar.
— Amanhã estaremos em Belém, e depois veremos o grande Amazonas: é um mar de água doce.
— O senhor conhece todo o Amazonas?
— Sim; todo o Amazonas, e muitos dos rios do interior: o Xingu, o Tapajós, o Madeira, o Purus, o Rio Negro... Todos eles vêm ter ao Amazonas...
— E porque há tanto dinheiro por lá, e de que é que vive a gente?
— Da borracha. A borracha é feita com o suco que se extrai de uma árvore, que há em abundância pelas matas extensíssimas, às margens dos rios. A árvore tem o nome de seringueira, e os lugares, onde se encontra em grande quantidade, são chamados seringais. Eu mesmo já tive um seringal. Vendi-o por sessenta contos.
“O seringal é dividido em ruas; cada rua — um certo número de árvores — está a cargo de um trabalhador, um seringueiro, que tem aí o seu rancho. De quarto em quarto de légua, ou de meia em meia légua, encontram-se esses ranchos. Às vezes, o seringueiro habita completamente só; outras vezes tem consigo a mulher, ou um companheiro. São geralmente cearenses, — caboclos do sertão do norte, que vão ganhar a vida na selva amazônica.
O Amazonas apresenta duas quadras completamente distintas; é é por elas que toda a vida se regula. A primeira é a época da cheia, de dezembro a abril, em que os rios transbordam sobre as terras baixas, e em que a extensão das matas é um alagadiço, todo varado de igarapés. A navegação é franca por toda a parte; descem as embarcações, carregadas de bolas de borracha; sobem outras, atulhadas de gêneros. Toda a gente sai do interior das selvas, e vem para os barracões altos, nos raros pontos não atingidos pelas águas, ou dirige-se para a capital.
Na outra época, que é a da seca, os rios afluentes, até caudalosos, tornam-se inavegáveis: cessa toda a comunicação das grandes povoações com o interior das terras; a mata está em seco, e os seringueiros entregam-se ao trabalho.
Logo que a terra enxugou, o seringueiro está no mato, na sua faina. Acorda às quatro e meia da manhã, e parte pela sua rua, levando pendente ao ombro um rosário de tigelinhas de folha. Chega à árvore, e vai talhando, à machadinha, a casca do tronco, e logo em baixo enterra o grampo da tigelinha, destinada a receber o leite que escorre do corte.
Em cada árvore, vai deixando oito, dez, quinze tigelinhas. Às oito ou nove horas da manhã, está terminada esta primeira parte do trabalho: e o homem volta, recolhendo o leito, de tronco em tronco.
Às dez horas, chega ao rancho para almoçar, rápida e frugalmente; e trata logo de fazer a borracha, isto é: defumar o leite. Nisto consiste o preparo da borracha. Queima-se num grande fogaréu um certo coco, de uma palmeira abundante ali, muito fumarento, e vai-se expondo à fumaça o leite da seringueira. Para isto, despeja-se todo o leite numa bacia ou num caldeirão; introduz-se aí um pedaço de pau, do tamanho de uma longa bengala um tanto grossa; retirado o pau, vem aderente a ele uma porção de leite viscoso, que é exposto logo à fumaça, até adquirir a consistência da borracha bruta. Leva-se esta ao depósito, e junta-se uma outra camada de leite, que é da mesma forma exposta à fumaça: e assim, sucessivamente, até formar-se um groso rolo, ou uma bola, com um orifício no centro, correspondendo ao pau que serviu de espeto.
Está, então, pronta a borracha, para ser entregue ao dono, ao fornecedor. Assim o seringueiro vai juntando no seu rancho a sua colheita, que dura três meses na média.
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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