Universo da obra
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Refletindo que certamente sentiria fome durante a caminhada, Juvêncio foi comprar um pão. Mas, quando meteu a mão no bolso, não achou um só vintém: os cinco mil réis, que eram toda a sua fortuna, tinham desaparecido... Com certeza, tinham caído do bolso, durante a luta.
O rapaz, desanimado e quase chorando, afrouxou os dedos, e ia deixando o pão sobre a tábua do balcão da venda.
— Que é — perguntou o vendeiro — perdeu o seu cobre?
— Perdi...
— Bem! Leve o pão! Não há de agora passar fome, além do desgosto de ter perdido o seu dinheiro! Leve o pão, e traga o dinheiro amanhã.
Juvêncio agradeceu a bondade daquele homem, que nele confiava sem o conhecer, e aceitou o favor. Esteve ainda algum tempo, às apalpadelas, procurando o dinheiro no chão da praça, mas não o encontrou. Resignou-se, e pôs-se a caminho.
Seriam, mais ou menos, nove e meia da noite, quando, já no meio da estrada real, tendo andado cerca de uma légua, o rapaz sertanejo ouviu atrás um tropel de cavalos, cujos cascos soavam alto sobre as pedras do caminho; e, daí a pouco, foi alcançado por eles. Vinham dois homens montados; e, além dos cavalos que montavam, traziam mais dois, pelo arreata. Quando avistaram Juvêncio, saudaram-no, e perguntaram-lhe se tinha encontrado outros viajantes por ali.
— Não, — disse ele — não encontrei viva alma!
— E para onde vai a esta hora?
— Vou ali adiante, àquele sítio, onde está a venda do Lima.
— Ah! Também vamos para lá. Não quer montar um destes cavalos?
Juvêncio aceitou com grande prazer a proposta. Apanhou o cabresto de um dos animais, arranjou-lhe um barbichado, quebrou um galho de árvore para empregá-lo como chicote e de um salto equilibrou-se sobre o cavalo.
Caminharam algumas quinhentas braças sem novidade. Mas, na primeira encruzilhada, saíram-lhes ao encontro três indivíduos, também montados. Saltaram ao chão, e foram empunhando as garruchas que traziam a tiracolo.
Mas os dois meliantes deram logo de rédea para trás e desapareceram a galope, fugindo. Dois dos recém-chegados partiram a toda a brida, a perseguí-los: o outro atirou-se sobre Juvêncio, agarrou-o, e jogou-o ao chão. Depois, apeou-se, e agarrou fortemente os braços do rapaz, de modo a tolher-lhe todos os movimentos. Ao mesmo tempo, dirigia-lhe injúrias:
— Ah! Ladrão! Tão criança, e já ladrão! Tu não tiveste pai que te ensinasse o bom caminho, desgraçado?
O pobre Juvêncio, aturdido com a queda, apenas vagamente compreendia o que lhe acontecera... Via que caíra numa cilada: os dois sujeitos eram ladrões de cavalos; estavam com medo de ser apanhados, e queriam andar depressa: por isso, pediram-lhe que montasse um dos animais...
— Eu não sou ladrão! — gritou o rapaz.
Ao longe, ouviam-se tiros de garrucha...
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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