Universo da obra
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Era Juvêncio que voltava. Vinham com ele três homens, empregados do velho, e traziam uma rede, e alguns remédios.
Apesar da sua pouca idade, Juvêncio, na organização dos socorros, portou-se como o mais velho e o mais experiente de todos. Foi ele quem explicou como deviam, com o auxílio, de cordas, içar o enfermo até a borda do valo, laçando-o pela cintura e pelos sovacos, — o que se fez sem grande dificuldade.
Mas o pobre homem não dava acordo de si. Estava como morto, já quase sem respirar. Já nem gemia. E, quando conseguiram depô-lo no chão, sobre a estrada, todos tinham a impressão de estar diante de um cadáver... Abriram-lhe a boca, separando-lhe os dentes à força, e deram-lhe algumas gotas de vinho, que o reanimaram durante poucos minutos. Mas logo depois recomeçou aquela sonolência, que já era, sem dúvida, o começo da agonia.
— Creio que não devemos perder tempo — disse Carlos — se queremos entregá-lo vivo à família.
— De certo! — apoiou Juvêncio.
Colocado o corpo na rede, foi esta solidamente suspensa de uma longa vara resistente; de cada uma das extremidades tomou conta um dos homens que tinham chegado com Juvêncio. Como tinham trazido animais, os dois meninos e o sertanejo puderam fazer comodamente a viagem de regresso à vila, escoltando a rede em que ia o ferido.
Enquanto o préstito se punha a caminho, o terceiro empregado seguiu a galope, em direção à Vila Nova, afim de trazer um médico.
A viagem foi triste.
Marchavam a passo. De quando em quando, Carlos aproximava-se da rede, e examinava o moribundo.
O seu estado era o mesmo. Nem sentia o balanço, e apenas um leve erguer e abaixar do peito denotava que a vida ainda não o abandonara.
Entraram na povoação às quatro horas da tarde. À porta de cada uma das casas, chegavam pessoas curiosas, a quem os dois empregados contavam o que sucedera ao patrão. No “sítio” deste, estavam apenas uma sua filha casada e o marido; numa ansiedade terrível, levaram o velho a uma alcova, e deitaram-no, esperando ainda poder salvá-lo com o auxílio do médico que tinham mandado chamar a Vila Nova.
Mas, poucos minutos depois, o homem expirava, sem ter voltado a si.
Carlos, quando viu que tinha passado a primeira explosão de dor, chamou de parte o genro do morto, e entregou-lhe o maço de dinheiro sem se referir à recomendação, que o velho lhe fizera, de guardar o dinheiro: repugnava-lhe aceitar aquele legado, cuja legitimidade não poderia provar.
À noite, o cadáver foi levado pela família e pelos três rapazes. O genro — chamava-se Oliveira — quis conhecer os nomes e a história dos meninos. Carlos contou-lhe sumariamente o que lhes havia acontecido até então. Oliveira, quando soube das precárias condições em que eles estavam realizando a sua viagem, quis imediatamente facilitar-lhes todos os recursos para o transporte até a Baía.
— Digam! Digam o que desejam! Digam quanto querem! Que tudo quanto eu lhes der será ainda pouco para lhes pagar o favor que lhes devo!
— Não, senhor! — protestou Carlos — nada nos deve! Cumprimos apenas o nosso dever. Qualquer outra pessoa teria feito o que fizemos... E nada podemos aceitar.
— Menino! — disse Oliveira, com carinho — por que há de ser orgulhoso? É necessário que todos nos ajudemos nesta vida! Pensa, então, que depois do socorro que prestou ao meu sogro, e da probidade, de que deu prova, entregando-me o dinheiro, hei de consentir que vão daqui até a Baía, a pé, e sem recursos? Está muito enganado!
Carlos ia ainda protestar. Mas Juvêncio interveio, com bom senso:
— Tudo se pode arranjar, a contento geral...
E dirigindo-se a Oliveira:
— O senhor empresta-nos algum dinheiro com que possamos tomar passagem de Segunda classe até a Baía. Estes meninos têm parentes no Rio Grande do Sul; e há na Baía um negociante, que se interessa por eles; de maneira que poderão pagar-lhe depois esse dinheiro.
Oliveira quis opor-se à idéia do empréstimo; cedeu, porém, para não desgostar Carlos, que só nessas condições queria aceitar o auxílio.
No dia seguinte, logo às primeiras horas da manhã, fez-se o enterro do velho, sendo o caixão acompanhado até o cemitério pelos três rapazes/
Oliveira quis ainda detê-los:
— Não, não vão hoje! Devem estar cansados, depois desta noite passada em claro...
Mas era tal a ansiedade de Carlos, por chegar à Baía, que não houve meio de convencê-lo.
Foi aí que Juvêncio veio a saber que o padre, seu conhecido, já não residia mais em Alagoinhas.
Logo depois de almoçar, os três compraram as passagens, e tomaram o trem.
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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