Universo da obra
Universo da obra
Neste ponto da narrativa, Juvêncio notou que Alfredo, apesar de ouvi-lo com atenção, estava como constrangido, agitando-se continuamente:
— O senhor está com sono... Vamos tratar de dormir, e amanhã continuarei a minha história.
— Não! — exclamou o menino — estou fatigado, mas não tenho sono: prefiro ouvir já o resto da história.
— É melhor! — apoio Carlos — além disso, assim mesmo, sentados, é que passaremos toda a noite...
— Isso é que não! — objetou Juvêncio — vou mostrar-lhes já como se arranja num momento uma cama. Temos ali aquele couro: vamos estendê-lo no chão, e arranjar dentro dele um travesseiro, com a trouxa da roupa. Vosmecês dormirão muito bem nessa cama improvisada.
— E você?
— Ah! Estou acostumado a dormir em qualquer parte. Estiro-me no chão, e durmo como um príncipe.
— Nunca! — exclamou Carlos — porque é que havemos de dormir com mais comodidade do que você? Já basta o que você tem feito por nós!
— Pois não seja essa a dúvida! — disse Juvêncio. — Caberemos os três dentro do couro!
Alfredo ergueu-se , e, chegando à porta do rancho, espiou a noite:
— Ih! Como está escuro!
Era uma noite sem luar. Mal se divisavam os vultos negros das árvores mais próximas. Mas o céu estava cheio de estrelas. O sítio permanecia quieto, silencioso, adormecido, numa serenidade infinda. De longe, vinha uma viração fresca e suave, que acariciava a face do menino. Carlos e Juvêncio, que tinham seguido Alfredo até a porta, ficaram ali apreciando aquela calma da noite.
— Sim! — disse o rapaz sertanejo — a noite está escura, mas tranqüila e estrelada. Felizmente para nós! Se fosse uma noite de tempestade, então teríamos de sofrer horrores, aqui, sozinhos, neste deserto! E as trovoadas por aqui são medonhas... Já vi chover pedra, — cada pedra do tamanho de um ovo de pomba. Depois as pedras desmancham-se em água; — mas, quando caem, quebram telhados, e arruinam plantações inteiras...
— E são pedras verdadeiras?
— São pedras de gelo. Vamos para a nossa cama, ou antes para o nosso couro! Daqui a pouco, hei de contar-lhes como passei uma noite dessas, sozinho, no meio do mato.
A cama foi improvisada em minutos; reforçaram e atiçaram a fogueira, ajuntando-lhe mais lenha; e Juvêncio continuou a contar a sua história:
“Quando vi aparecer o malvado, dizendo que era meu tutor, fiquei frio. Tive ímpetos de atirar sobre ele a tenaz em brasa que segurava, mas contive-me, e, dizendo que ia despedir-me do mestre, dirigi-me para o interior da oficina, de onde saí pelos fundos. Corri até a casa de minha madrinha. Ela, como já disse, morava com a irmã.
“A casa ficava longe, retirada, no extremo da vila. Naquele lugar, houvera antigamente uma aldeia de índios, de que ainda se viam vestígios.
“Quando cheguei, contei o caso a minha madrinha, e disse-lhe terminantemente que não me submeteria a viver com aquele malvado. Ela concordou; e, depois de procurarmos durante muito tempo, eu, ela e a irmã, o meio de salvar-me combinamos que eu iria à casa de um conhecido delas, um pouco afastada dali, e lá ficaria durante algum tempo à espera de uma solução. Abracei-as, e saí. O que eu deveria ter feito era seguir logo para o meu destino; mas não quis deixar de despedir-me do mestre, e voltei à oficina. Foi a minha desgraça!
“Assim que eu cheguei, vi-me cercado por dois soldados, e um oficial de justiça. O malvado também lá estava... Vendo-me perdido, não me pude mais conter, e, levantando a voz, disse-lhe tudo quanto pensava da sua maldade. Disse-lhe que ele só fazia aquilo para compelir minha madrinha, privada do meu auxílio, a voltar para a sua companhia; disse-lhe que o que ele queria era viver à custa dela...
“Ouvindo-me, viu com perversidade, e disse: — “Hei de ensinar-te! — E levou-me, não à casa do ferreiro, mas à casa do alfaiate, e entregou-me ao poder do antigo mestre. Ao retirar-se, intimou: — Se não me apareceres à noite, saberei achar-te, e ficarás preso num quarto, um mês sendo castigado todos os dias!
Não me intimidei com a ameaça: assim que me vi na rua, voei para a casa de minha madrinha...
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.