Universo da obra
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Comeram calmamente. O farnel, fornecido pelo sub-chefe, continha uma excelente galinha assada, um pedaço de rosbife e pão. O camarada Benvindo trazia uma boa porção de carne seca que os dois rapazes também quiseram provar, com aquele valente apetite que lhes haviam dado o movimento e o ar do campo. Estavam do lado da estrada, à sombra de uma grande árvore, cuja copa de folhagens abundantes os raios do sol não conseguiam atravessar. O chão era batido, — liso e limpo como o de uma casa. Via-se bem que aquele lugar era um ponto habitualmente escolhido para repouso pelos viajantes que por ali jornadeavam. Um pouco adiante, corria o riacho, atravessando o caminho. Ouvia-se bem o leve rumor das águas deslizando entre as pedras. E só esse rumor e o de alguma folha que caía perturbavam o silêncio do sítio quieto, a essa hora de calor ainda forte.
Alfredo, quando acabou de comer, correu para o riacho, e foi mergulhando as mãos na água, para lavá-las. Mas exclamou logo, ingenuamente:
— Oh! Sujei a água!... Como havemos de beber?
— Ora, patrãozinho! Não vê que a água está correndo sempre? — disse rindo o camarada. – A água suja vai embora, e a que vem está sempre limpa!
O pequeno riu da sua própria tolice; mas, nisto, ouviu-se o toque, ainda afastado e fraco, de uma campainha. Alfredo dirigiu o olhar para todos os lados, e, não compreendendo que som era aquele, voltou-se para o camarada, que estava arreando os animais.
Benvindo era um caboclo reforçado, moço ainda, — peito largo, pescoço musculoso, olhos negros e vivos, cabelos luzentes e anelados caindo sobre a testa. Tinha as mangas da camisa e as calças arregaçadas, e viam-se-lhe, ao sol, os braços e as pernas de músculos grossos e tendões rijos e salientes. Era um belo exemplar do robusto sertanejo nortista. A presteza com que arreava os animais, e a força de que dava prova, apertando as correias, atestavam uma longa prática daquele serviço.
— Que toque é este de campainha, seu Benvindo?
— Com certeza é alguma tropa que vem da vila, patrãozinho. Não tarda a aparecer... Olhe! Aí vem ela!
Alfredo voltou-se, e viu na estrada, do outro lado do riacho, um séqüito de burros, uns atrás dos outros, em fila. O da frente trazia uma campainha no pescoço: todos os outros o seguiam docilmente, guardando a mesma distância entre si. Vinham carregados de couros; cada um trazia dois rolos enormes, um de cada lado da cangalha; era tão pesada a carga, que os animais tinham o lombo derreado, e caminhavam devagar, como apalpando o solo com as patas. Atrás, no couce da tropa, vinham dois homens a pé, e um menino a cavalo.
Os burros, assim que chegaram ao riacho, correram todos para a água, sequiosos. Como eram muitos, sujaram logo a água com as patas. E Alfredo notou, com interesse, que todos, ao mesmo tempo, voltavam a cabeça para o lado de cima, à procura do líquido que vinha limpo:
— Também eles sabem que a água, que corre, vem sempre limpa... — disse consigo mesmo o pequeno sorrindo.
Mas o Benvindo, tendo reconhecido os dois tropeiros, exclamava:
— Oh! José! Oh! Justino! Vocês de onde vêm? Como vão vocês?
— Oh! Benvindo! Por aqui?... Nós vimos de Água Branca. E você está bom? Como está a velha?
— Boa. Vocês passaram pelo arraial?
— Passamos. E você para onde vai?...
— Vou levar estes moços a Piranhas, e queria saber se o capitão Paulo está no “sítio”...
— Acho que está! — disse o mais velho dos dois tropeiros — quando passamos por lá, estava na varanda uma pessoa: pareceu-me que era ele...
Apearam-se o José e o Justino, e começaram a conversar com Benvindo. Eram amigos do camarada, conhecidos antigos, e davam mostras de estimá-lo muito. O mais velho, de face escura, quase preta, era mais forte do que o outro, caboclo como Benvindo. Ambos tinham fisionomia simpática, e trataram com carinho os irmãos que se dirigiam a Piranhas, desejando-lhes boa viagem.
— E quem é esse menino que vai com vocês? — perguntou Benvindo.
— É meu mano — respondeu o Justino: — vou levá-lo para a cidade; já está com os seus oito anos e vai estudar na escola.
A conversa não esfriava. Mas Carlos, vendo que se estava fazendo tarde, chamou a atenção de Benvindo , que se despediu dos amigos, pedindo-lhes que dessem lembranças à sua velha mãe, em Garanhuns.
Montaram, e puseram-se a caminho. Eram cinco horas da tarde. O ar ia refrescando; o sol era menos vivo, e podia-se olhar livremente para todos os lados, sem ser preciso levar a mão aos olhos para abrigá-los do ardor solar...
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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