Universo da obra
Universo da obra
Os viajantes dormiram tranqüilamente, refazendo as forças exaustas pela caminhada. De manhã, dispunham-se a partir, quando, Juvêncio lembrou:
Não seria melhor ficarmos aqui hoje? Corre ali em baixo um pequeno rio... Aproveitaríamos a água, lavaríamos as nossas roupas, que estão bem sujas.
Carlos concordou. Na falda do morro, em frente à casa, corria de fato um riacho, entre moitas de ingazeiras. Juvêncio, sempre jovial, ampliou a idéia primitiva:
— Vamos passar todo o dia à beira da água. Além de lavar a roupa, podemos fazer uma pescaria.
Alfredo aplaudiu a idéia. Compraram sabão, anzóis, um pouco de carne seca, e dirigiram-se para a margem do riacho. A lavagem das roupas foi rápida: Juvêncio molhava-as, ensaboava-as, e passava-as a Carlos, que as esfregava e torcia, batendo-as sobre as pedras; Alfredo, depois estendia-as ao sol, sobre os galhos baixos das árvores.
O sertanejo escolheu, então, duas vergônteas, duas varas finas e flexíveis, cortou-as, e atou à ponta mais delgada de cada uma delas um fio de dois metros de comprimento; e na extremidade de cada fio prendeu um anzol. Depois, começou a cavar com a faca a terra úmida da beira do rio.
— Que é que você procura aí dentro? — perguntou Alfredo, interessado.
— Procuro uma isca...
Apanhou na terra revolvida algumas dez ou doze minhocas, e enfiou uma delas em cada anzol, de modo a deixar a ponta deste escondida e invisível. Feito esse trabalho preliminar, encaminharam-se os três para a ribanceira, e pararam num ponto onde as águas eram mais calmas e o riacho parecia mais profundo. Juvêncio e Carlos empunharam as varas, e deixaram cair os anzóis, que se afundaram na água em virtude do próprio peso. E os dois, quietos, de cócoras, deixaram-se ficar imóveis, segurando as varas, estendidas horizontalmente.
Alfredo começou a mover-se e a falar, ao lado deles, fazendo-lhes perguntas. Mas Juvêncio impôs-lhe silêncio. Carlos, inquieto, desajeitado, mexia-se, agitava-se involuntariamente, distraía-se. Mas o sertanejo era um verdadeiro pescador. A sua atenção não se desviava do trabalho. Em certo momento, o rapaz atento, sentiu que o anzol tremia, e compreendeu que o peixe estava beliscando a isca; moveu a vara ligeiramente, e, sentindo a resistência, deu-lhe um puxão rápido e forte, levantando-a, Carlos e Alfredo viram apenas luzir no ar um corpo prateado, que foi bater em cheio no chão, e principiou a pular: era uma piabanha, de um palmo de comprimento.
Nesse mesmo instante, Carlos sentiu também que o seu anzol tremia. Açodado, fez o que vira o companheiro fazer, e puxou a vara com violência: mas o peixe tinha comido a isca, e fugira.
Carlos ficou um tanto envergonhado: e Alfredo ria gostosamente, vendo a cara espantada do irmão.
Juvêncio pôs-se então a explicar que as primeiras qualidades do bom pescador são a paciência e a tenacidade. É preciso esperar o momento preciso em que se deve dar o safanão: ao contrário, o pescador arrisca-se a perder, ao mesmo tempo, a isca e o peixe...
Conversaram sobre isso, quando ouviram vozes que se aproximavam. Eram vozes de mulheres... Voltaram-se os três, e viram cinco mulheres, que desciam a ribanceira carregando grandes trouxas de roupa.
— Ah! Carlos! E eu estou sem calças! — exclamou Alfredo.
— Que tem isto? Deixa-te de tolices... Todos vêem que és uma criança.
As lavadeiras tinham ouvido a exclamação do pequeno. Uma delas, já velha, vendo-o correr, e esconder-se atrás de uma árvore, deu uma risada, e disse por gracejo:
— Vejam lá que vergonha! Um homem assim, sem calças!
Outra, uma cabocla, de fisionomia expansiva, perguntou a Carlos, vendo-o com a linha de pescar:
— Já pescou muito?
— Não! Mas o meu companheiro apanhou um peixe, e nem sei o que hei de fazer dele...
— Deixe ver! — disse a lavadeira — é uma piabanha! E que bonita! Se quer, vou assá-la...
E estabeleceu-se logo uma conversa cordial entre os rapazes e as lavadeiras, — mulheres simples, francas e hospitaleiras, como, em geral, todos os habitantes do sertão.
Leia gratuitamente Através do Brasil, de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, narrativa escolar brasileira em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 83 unidades em capítulos, capa nova no padrão Literunico, fonte Wikisource validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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